Aquele homem está vivo!
28 de março de 2018
Maria Madalena – o filme
11 de abril de 2018

Toda mulher que foge do estereótipo feminino de passividade já ouviu essa frase um dia. Você paga suas contas? Assusta os homens! Você toma decisões importantes no seu dia a dia? Assusta os homens! Você está numa posição de liderança? Assusta os homens! O que deve ter de homem assustado por aí…

Mas por que uma mulher com autonomia assusta os homens? Se eles são o sexo forte, por que temer uma mulher que apenas faz o que qualquer pessoa adulta faz – que é gerenciar a própria vida?

Certa vez ouvi uma pregação que dizia que o feminismo deixou os homens confusos porque tirou deles o seu papel e desconfigurou a organização social e familiar. Fiquei me perguntando: mas qual papel foi tirado? A luta feminista nunca foi para tirar papeis, mas sim para garantir que mulheres também pudessem ter o papel que quisessem. Não é exclusão, é soma. Porém, se o que se chama de “papel masculino” é a opressão histórica que homens exercem sobre mulheres, aí sim, esse está sendo tirado (aos poucos e com muito sacrifício, mas tá). Considerando como certa essa linha de raciocínio que defende a confusão masculina frente ao feminismo, que homens são esses que não conseguem definir a própria sexualidade sem subjugar nem violentar ninguém? Que masculinidade é essa que não se estabelece se o outro lado não estiver passivo, dependente, apático? Não seria o caso de rever as bases dessa dita masculinidade?

Não acredito que o feminismo tenha deixado os homens confusos. A emancipação das mulheres na verdade os preocupa pela perda de privilégios e poder sobre nós. Quando somos classificadas como “mulheres que assustam os homens” na verdade querem dizer que nós os ameaçamos. O homem machista sabe que a mulher emancipada dificilmente se deixará dominar, só que durante toda vida ele aprendeu a estabelecer com o sexo feminino uma relação de hierarquia, na qual ele é o superior. Quando a mulher não aceita ser inferior (ou seja, quando ela foge do que para eles é o “natural”), ele tem medo do que pode perder com isso. A verdade é que muitos homens não querem nos tratar como iguais – porque perder privilégios dói.

Já falei em outro texto sobre o quanto os homens têm resistido em nos acompanhar e o resultado disso é um número cada vez mais crescente de mulheres que optam por ficar sozinhas. Ao longo da minha caminhada cristã, conheci várias que tinham dificuldade em estabelecer relacionamentos porque os homens da igreja, infelizmente, ainda aprendem que mulher virtuosa é somente aquela que fica calada e lhes obedece. Essas mulheres muitas vezes exerciam papéis de liderança na igreja, se envolviam por completo com a Obra e faziam o que muitos homens não tinham coragem de fazer: se comprometer e se expor. Por causa disso, eram consideradas “despachadas” demais, independentes demais e até confundidas com pessoas autoritárias (só porque não estavam num lugar de passividade). E aí sempre rolava, nas rodinhas de conversa, aquele velho comentário: “ela assusta os homens”. Algumas dessas mulheres nunca se casaram; outras até tentaram se encaixar na definição rasa de alguém, mas não deu certo; outras ainda tentam, mas só Deus sabe até quando; poucas tiveram a sorte de encontrar alguém que lhes valorizasse e respeitasse. Será que essas mulheres inteligentes, desenvoltas, ativas, com uma vida de devoção e serviço a Deus estão todas erradas? Será que devemos esconder nossos dons e talentos e frear nossa capacidade de liderança para nos enquadrar num perfil que consideram “ideal”? Claro que não! O erro não está em quem busca evoluir, mas em quem insiste em ficar parado. E nós temos evoluído.

Mesmo diante desse cenário que parece desolador, eu não acredito que o desejo de dominar a mulher seja algo intrínseco ao sexo masculino. Não acho que todos os homens desejem para si uma mulher sem vida, que aceite viver sempre à sua sombra. Essa mentalidade é fruto de uma cultura enraizada há séculos, mas que vem mudando lentamente. Conheço alguns homens que vivem fora dessa prisão que é o machismo e que se relacionam com suas companheiras de maneira igualitária, digna e respeitosa, estabelecendo assim relacionamentos saudáveis, nos quais ambos têm o seu espaço. E vou contar um segredo: eles são mais felizes. Não é nada desmoralizante tratar a mulher com o respeito que ela merece. É possível, sim, uma relação harmoniosa entre homens e mulheres, seja ela conjugal, de amizade, de trabalho ou de qualquer outro tipo. Sem essa de “confusão” por não saber o seu papel (porque isso, sim, é vitimismo).

Por isso, se você é dessas mulheres que as pessoas dizem que “assustam os homens”, não se sinta culpada nem tente se adequar. Encare como um sinal de alerta: homem que se assusta com mulher bem resolvida é uma cilada! Quando ouço algum homem rejeitando uma mulher admirável por ela não ter o perfil de sujeição que ele deseja, a primeira coisa que me vem à mente é: “que sorte a dela, que não vai sofrer com o seu machismo”. Não se contente com pouco, você merece mais!

 

OBS: Agradeço à leitora Carla Ribeiro por ter sugerido esse tema para discutirmos aqui. Se você também tem alguma sugestão, mande pra gente!

1 Comentário

  1. Lu disse:

    Feminismo cristão, era só o que faltava. ?
    Jesus já pode voltar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *