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6 provas de que a igreja ainda é machista
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“Texto sem contexto é pretexto para heresia.” Essa é uma frase muito falada no meio evangélico mas, infelizmente, pouco aplicada. Muitos erros teológicos são cometidos na igreja porque se costuma ensinar com base em versículos bíblicos descontextualizados. A Bíblia é uma reunião de livros escritos em diferentes momentos da história e que, inevitavelmente, refletem os costumes e tradições dessas épocas ali representadas*. Portanto, ela deve ser lida e interpretada sempre à luz do seu contexto histórico. Não dá para engessar um texto milenar e querer aplicá-lo em sua integralidade nos dias de hoje. E para não sair por aí ditando regras anacrônicas e descabidas só porque elas estão na Bíblia, uma boa dica, que aprendi na Escola Bíblica Dominical, é tentar separar o que é princípio do que é costume. Os princípios são imutáveis e atemporais, portanto servem para (e devem) ser aplicados nos nossos dias, pois são a orientação de Deus para nós. Já os costumes mudam de acordo com a época e variam de cultura para cultura, devendo, portanto, ser ponderados.

Dito isto, quero trazer aqui de forma muito breve a questão do padrão ideal de mulher tão cobrado no meio evangélico. A igreja insiste em nos tratar como se vivêssemos no período em que os livros da Bíblia foram escritos, quando era indiscutível a nossa inferioridade em relação aos homens (por isso não valíamos nada sem eles e não tínhamos nenhum direito). E muitas vezes as pregações machistas são embasadas em versículos veterotestamentários, ignorando completamente o fato de Jesus ter vindo para romper com as hipocrisias e injustiças da lei e dos costumes. No entanto, esses mesmos que defendem que a mulher deve ser subserviente e nula (“à moda bíblica”, como eles dizem), fecham os olhos para outras orientações do livro sagrado que não lhes são convenientes. E assim a doutrina cristã vai sendo costurada de uma forma bem manipuladora: aos amigos do rei, tudo. Aos inimigos, a lei.

As mulheres retratadas na Bíblia são mulheres datadas, que recebiam um tipo de tratamento e adotavam um padrão de comportamento típicos dos costumes da época. Hoje vivemos uma outra realidade e não cabe mais exigir que sejamos iguais a elas. Parece absurdo, mas a igreja ainda quer fazer de nós mulheres do Antigo Testamento. Não, não somos mais. Os tempos agora são outros.

Infelizmente os discursos evangélicos que estamos acostumadas a ouvir sobre nós mesmas não passam de uma montagem, uma interpretação enviesada de certas passagens bíblicas tiradas do seu contexto. E eles são tão repetidos que acabam soando como algo natural, direito, verdadeiro e até mesmo óbvio. As mulheres evangélicas são doutrinadas desde a hora em que nascem e muitas vezes não conseguem perceber a incoerência de certos ensinamentos “cristãos” que recebem ao longo da vida, aceitando tudo sem questionar e até reproduzindo tais ensinamentos e contribuindo para a sua própria desvalorização. Regulamentam nosso corpo, nossa forma de se vestir, nossas escolhas amorosas, nossa vida sexual, nosso comportamento, a forma que nós temos de exercer a maternidade e mais uma série de coisas que nos dizem respeito. Mas toda essa regulamentação é dada de uma forma que privilegia os homens e nos coloca abaixo deles. É por isso que o feminismo é tão combatido e demonizado nas igrejas evangélicas: porque abre os olhos das mulheres para isso, desmascara os reais interesses machistas por trás de discursos dominadores disfarçados de Evangelho. E também porque instrui as mulheres e propõe que elas ocupem seu espaço também dentro da igreja.

Uma liderança que se aproveita das dificuldades que a maioria das pessoas têm para entender a Bíblia e que usa a sua autoridade eclesial para ensiná-las da forma que mais lhe convém certamente envergonha a Cristo. Porém, interesses e privilégios masculinos são ameaçados quando se resolve pregar o verdadeiro Evangelho. E quem quer abrir mão de privilégios, não é mesmo? Até aqueles que dizem ter nascido de novo não veem com bons olhos a ideia de descer do seu pedestal e se portar como um igual diante das mulheres (porque é assim que Deus nos trata: como iguais, apesar das diferenças físicas e biológicas). Há uma necessidade de manter a autoridade e o controle masculinos sobre a mulher, mesmo que para isso seja necessário diminuí-la e desprezá-la enquanto ser humano. E assim o discurso machista se institucionaliza dentro da igreja, ganhando o aval do pastor, dos líderes e até mesmo das mulheres, em sua maioria alienadas da própria condição.

Jesus lavou os pés dos discípulos numa atitude de humildade, ensinando-nos que devemos servir (Jo 13:1-16). Ele próprio não desfrutou de nenhuma regalia que poderia ter por ser o Filho de Deus, mas viveu sua vida de forma simples, humilde e tratando a todos com respeito e amor. Por que nós, que nos apresentamos como servos dEle, temos que fazer diferente? Por que a igreja ainda reivindica privilégios para alguns quando o mais digno de privilégios abriu mão deles para nos dar exemplo?

 

* segundo o site aBiblia.org, ela foi escrita entre o ano 1.000 antes de Cristo e o fim do primeiro século da Era Cristã.

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