A outra face de Maria
11 de fevereiro de 2020
Coronavírus: uma epidemia que revela outra
22 de março de 2020

Uma teologia do cansaço

São as mãos calejadas, os corpos cansados e as mentes sobrecarregadas das mulheres que fazem a engrenagem da igreja cristã funcionar. Temos muito a aprender observando a dinâmica da vida das mulheres nas igrejas, que pode ser traduzida como uma verdadeira teologia que ensina através do cansaço.

As duplas e triplas jornadas não nos impedem de comparecer semanalmente aos cultos, de cuidar da manutenção, das contas e da limpeza dos templos, de cantar nos louvores, de fazer visitações, de promover grupos de estudo, de oração e reuniões de planejamento. Também não nos impedem de oferecer assistência espiritual aos que mais precisam, de emprestar nossos ouvidos, nossos ombros e até a nossa casa para ouvir os desabafos, as angústias e as crises de vários irmãos e irmãs de caminhada. 

Os filhos pequenos também não são desculpa para nos ausentarmos dos serviços do Reino. Quantas vezes vamos com eles nos braços para os evangelismos, as reuniões nas casas, os cultos de oração…? Não importa quais sejam os nossos compromissos: reunião de trabalho, almoço de filho, trabalho de faculdade, uniforme de marido ou roupas no varal – nada fica sem atenção, mas nossa presença na igreja é cativa (mesmo que pra isso tenhamos que diminuir as horas de sono).

Temos uma forma muito particular de nos relacionar com Deus. Todas as nossas vivências femininas (a capacidade da maternidade, os preconceitos e julgamentos que só nós sofremos, as responsabilidades) nos permitem desenvolver uma fé mais atenta ao outro, um olhar mais altruísta, um espírito de doação mais apurado. Não somos perfeitas, mas com todas as nossas imperfeições nos doamos sem reservas ao sagrado, sem medo de parecer fracas ou infantis. E isso se mostra na intensidade com que servimos ao Reino.

Teríamos um milhão de motivos para sermos “fiéis de banco”: as sobrecargas da vida moderna, a divisão desigual dos trabalhos domésticos, a falta de reconhecimento e de voz nas igrejas, a doutrina machista que nos oprime mais do que consola e tantos outros. Poderíamos ser somente espectadoras dos cultos ou até mesmo nem ir lá. Mas somos potência. Não só estamos lá como somos parte fundamental da estrutura. Sem mulheres não há igreja, não há obra. Nossos corpos cansados são a alma, os braços e as pernas da igreja de Cristo. 

Neste dia da mulher, só quero lembrar que até o nosso cansaço é produtivo. Com isso não quero aqui romantizá-lo, pois sei bem o peso que a divisão injusta dos trabalhos traz para as nossas vidas. Apenas quero lembrar do nosso valor, pra que não nos acostumemos com o lugar de subalternidade que nos destinam. Somos muito mais que isso: somos filhas do Rei! Não vamos permitir que apaguem as marcas que estamos deixando na história e na sociedade.

Se podemos sustentar a igreja mesmo com todo fardo que carregamos, imagine quando estivermos livres das amarras do machismo, livres pra viver o Evangelho da forma como Cristo ensinou!  Nossos corpos cansados, nossas mãos calejadas e nossas mentes sobrecarregadas também podem ser instrumentos potentes de contestação da estrutura patriarcal que nos oprime. Vamos revirar esse sistema e transformar a realidade com a força do verdadeiro Evangelho, que ensina a igualdade diante do Pai.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *