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Uma opressão que sufoca

Recentemente participei de uma mesa redonda no Congresso de Mulheres de uma igreja batista aqui em Salvador. Éramos três: eu, uma pastora psicanalista e uma advogada, todas discorrendo sobre o tema Quero falar, mas não posso. Abordamos, dentre outras coisas, o silenciamento da violência contra a mulher, a cultura do isolamento feminino e a importância de sermos quem somos, sem vestir máscaras para agradar os outros.

Ao final, fiquei surpresa com a quantidade de perguntas recebidas durante a nossa explanação. A maioria delas trazia basicamente os mesmos questionamentos: “o que fazer quando se vive um casamento que não tem mais amor?”, “A lei garante a minha segurança em relação ao meu ex-marido agressor?”, “E quando o marido não te agride fisicamente, mas fere sua alma com palavras?”. Naquele momento eu percebi o quanto ainda somos sufocadas! Por mais que se fale, por mais que haja campanhas, por mais que a imprensa divulgue casos de violência e formas de denunciar, a igreja permanece um universo à parte, onde as mulheres parecem estar blindadas desse tipo de informação e sedentas por respostas.

Nesses três anos de blog, tenho acompanhado mais intensamente a luta feminina em várias frentes, inclusive e principalmente nas igrejas. Reconheço que muitas delas têm aberto espaço para as discussões sobre feminismo, direitos e valorização da mulher, formas de violência e outros assuntos que há até pouco tempo não se falava. Isso é um grande avanço, mas não podemos nos empolgar com um universo tão pequeno. Porque não se enganem: as igrejas que se propõem a trazer esse tipo de discussão ainda são minoria. A maioria esmagadora prefere combater, inibir e demonizar as discussões de gênero, perpetuando a opressão das mulheres para manter o privilégio masculino intocado. E ainda há aquelas que, por oportunismo, pegam carona nas expressões e temas mais discutidos (como empoderamento, valorização da estética negra e do corpo gordo etc.) para reafirmar ensinamentos misóginos e sexistas travestidos de “discurso moderno”.

Por esse motivo é que vemos tantas mulheres sobrecarregadas de opressão dentro desses espaços que deveriam ser de libertação. Por esse motivo é que elas ficam muito solitárias, silenciando suas angústias diante de lideranças que pregam sua submissão como fórmula infalível para um casamento feliz. E é claro que isso não funciona. Mas quem vai acolhê-las se elas quiserem falar sobre seus casamentos de fachada? Quem estará disposto a ouví-las quando elas quiserem desabafar sobre as feridas que seus maridos causam em seus corpos e em suas almas? Elas sabem que se se atreverem a falar sobre isso, imediatamente terão sua fé e sua submissão questionada, suas expectativas sobre casamento desprezadas e sua “sabedoria” colocada em xeque. Elas sabem que não encontram muito espaço para acolhimento, mas sim para julgamentos. Então o que fazem? Preferem calar-se para não se expor. E não estão erradas. Errado é o sistema de opressão em que estão inseridas, que não lhes permite admitir suas angústias nem compartilhar com alguém que possa ajudá-las sem julgá-las. Mas esse silenciamento cobra sua conta na vida dessas mulheres. A depressão, a amargura, a falta de auto-estima, as doenças psicossomáticas e as doenças oportunistas, causadas por um estado de infelicidade crônica, estão aí na vida de muitas e não me deixam mentir.

Definitivamente, a igreja não deve compactuar com esse sistema perverso porque ele vai de encontro ao exemplo que Jesus deixou! Por onde Cristo passou, houve libertação: na vida da mulher adúltera que seria apedrejada, na vida dos possessos que Ele encontrou em seu caminho, na casa do fariseu oprimido pela culpa dos seus erros, na vida da samaritana que vivia com o marido de outra mulher e em tantos outros casos narrados no Novo Testamento. Jesus sempre deixou muito claro que o Evangelho é simples e libertador e sempre condenou os que colocavam sobre os ombros alheios fardos pesados que nem eles conseguiam carregar. Por que não conseguimos entender essa mensagem? Por que muitas igrejas não são lugares de paz e conforto para nossas almas? Por que as mulheres dentro da igreja muitas vezes não conseguem ter acesso à Água da Vida que mata a sede de forma definitiva?

Meu sonho é não precisar mais falar sobre essas questões porque viveremos uma igreja de verdade, sem hierarquia de gêneros, de raça ou de classe social. Meu sonho é não ver mais tantas mulheres sufocadas com seus problemas por não terem com que dividir seu fardo, mulheres caladas por medo. Isso nos adoece, é desumano, é cruel! Para combater esse crime contra a nossa humanidade, é preciso muita luta, muito braço, muitos pés disponíveis para desbravar caminhos e muito, muito Evangelho. Só a mensagem de Cristo para nos libertar dessas amarras, e é nela que a gente vai permanecer firmes e fortes, porque foi para a liberdade que Cristo nos libertou! Não nos deixemos submeter novamente a um jugo de escravidão (Gl 5:1).



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