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Trabalhadoras domésticas: e elas não são mulheres?

Foto: brokelyn.com/event/immigrant-women-labor-and-the-quest-for-gender-justice/

Falar de trabalhadoras domésticas num meio feminista é tocar num assunto bastante espinhoso. É uma discussão que frequentemente é deixada de lado, o que é bastante simbólico e indica a existência de esqueletos no armário. Isso porque ainda carregamos resquícios da mentalidade escravocrata e, por mais que tenhamos consciência de gênero, muitas vezes nos falta consciência racial e de classe, o que torna difícil enxergarmos a trabalhadora doméstica como uma mulher igual a nós.

Quando esse assunto é trazido à tona, eu percebo o quanto o feminismo é, de fato, um movimento branco, que em muitos aspectos negligencia as pautas das mulheres negras (não foi à toa que surgiram o feminismo interseccional e o mulherismo, sobre o qual falaremos em outro post). Trabalhadoras domésticas são mulheres pobres e, em sua maioria, negras. Logo, sua invisibilidade não é mera coincidência.

 

Estigma negativo

 

Desde a primeira onda, o movimento feminista questiona a destinação dos trabalhos domésticos exclusivamente à mulher e essa é uma luta que perdura até os dias de hoje. Só nós sabemos o peso de uma dupla ou tripla jornada, pois a nossa entrada no mercado de trabalho e na academia não nos eximiu das tarefas domésticas. Os homens, de um modo geral, permanecem intactos em suas rotinas e não admitem que é também sua obrigação a limpeza da própria casa, já que eles também a sujam. Por causa disso, e com a ajuda da cultura escravagista que herdamos, nossa emancipação foi às custas do trabalho de outras mulheres, que colocamos em nossas casas para nos substituir no serviço que não podíamos (ou não queríamos) mais fazer.

A sociedade atribui uma conotação negativa ao trabalho doméstico por três principais motivos: primeiro por ser um serviço atribuído às mulheres, o que já o desvaloriza de imediato; segundo por não necessitar de esforço intelectual, algo que a nossa cultura acadêmico-científica considera inferior; e terceiro por não ser lucrativo de forma direta e, portanto, não movimentar a roda do mercado capitalista*. É desta forma grosseira que o trabalho doméstico é apresentado pelo pensamento hegemônico: como algo sem valor, que demanda esforço, mas não gera contrapartidas. Algo que só se nota quando deixa de ser feito, pois quando é feito não é notado e, portanto, não gera fama para quem o faz (por isso é considerado um trabalho invisível). Todas essas características negativas acabaram por estigmatizá-lo e fez com que muitas mulheres da dianteira do movimento de emancipação feminista procurassem se afastar o máximo possível dele. Houve, sim, uma falha de comunicação dentro do próprio movimento que fez com que esse afastamento não significasse apenas a reivindicação de outros espaços sociais além do doméstico, mas também e principalmente a desvalorização de uma atividade exercida por outras mulheres – o que é um grande equívoco.

Aqui é necessário ressaltar o quanto o recorte de raça e classe é fundamental para entender a cultura da rejeição que muitas feministas têm ao trabalho doméstico: mulheres brancas e com posição social privilegiada têm mais acesso à educação e a circunstâncias que favorecem seu ingresso no mercado de trabalho. Assim, elas podem mais facilmente abandonar as atividades domésticas e isso é considerado um grande êxito em seu meio. Mas como foi dito no início, esse passo adiante não as desobrigou de cuidar do lar, o que as leva até os dias de hoje a colocar outras mulheres, menos privilegiadas socialmente e em sua maioria negras, para desempenhar essa função. A partir daí, o racismo estrutural, o preconceito de classe e os resquícios de uma cultura escravagista que existia há até bem pouco tempo se encarregam de separar essas mulheres. Não é raro vermos feministas convictas e atuantes, muito bem instrumentalizadas, não estenderem seu feminismo às suas diaristas, babás, mensalistas e cuidadoras simplesmente por não as enxergarem como mulheres, mas sim como criadas.

As classes mais abastadas costumam tratar as domésticas como pessoas que precisam trabalhar pra sobreviver e, por isso, vão se sujeitar a fazer todo tipo de serviço por qualquer trocado. Na prática, isso implica numa série de problemas, como salários baixos, jornadas que ultrapassam as oito horas, folgas escassas (quando são dadas), atribuição de tarefas que não são de uma trabalhadora doméstica (como passear com os cachorros e pagar contas em banco), assédio moral, assédio sexual, maus tratos e toda sorte de humilhações. No seu íntimo, a maioria das pessoas acredita que são bons patrões /patroas tão somente pelo fato de empregarem uma pessoa que precisa e até lhes doarem as roupas velhas que seus filhos não querem mais. Dificilmente alguém vai admitir que vive uma relação de exploração com sua funcionária do lar, o que demonstra o quanto é difícil reconhecer e renunciar privilégios. Ainda temos muito que aprender sobre empatia, igualdade de direitos e respeito ao próximo (coisas que nem sempre se aprende nos bancos da universidade).

 

E por acaso elas não são mulheres?

 

Entendo que estamos todos sob um regime de exploração capitalista que nos obriga a viver para trabalhar, já que destinamos pelo menos um terço do nosso dia ao trabalho “oficial”, além do tempo que perdemos no deslocamento. Como também temos que ter um mínimo de horas de sono, não nos resta muito tempo para cuidar da casa, dos filhos, resolver pendências pessoais, cuidar da saúde, estudar e ainda ter lazer ou descansar (porque a maioria das pessoas nem consegue ter os dois). De uma maneira ou de outra, a maioria dos brasileiros é explorada, sim, apesar de algumas profissões terem melhor remuneração e mais status social do que outras. Por esse motivo, para muitas famílias, ter os serviços de uma trabalhadora doméstica não é apenas um luxo, mas algo essencial para viabilizar a manutenção de uma fonte de renda para o próprio sustento.

Porém, a nossa vida atribulada, as extensas jornadas de trabalho, o acúmulo de funções e tantos outros problemas que enfrentamos não podem servir como desculpa para oprimir essas trabalhadoras. Não temos o direito de subjugar uma pessoa que está nos prestando um serviço essencial só porque somos muito ocupadas. Deixar de dar folgas, alongar a jornada de trabalho, negar comida, exigir que durmam no serviço, tratar de forma hostil, pagar o mínimo podendo pagar mais e todas as outras formas sutis e não sutis de rebaixar a trabalhadora doméstica são atitudes mesquinhas, egoístas e desumanas. É necessário promover uma ruptura com essa situação de desrespeito e humilhação a que as submetemos. Nada deve nos alienar a ponto de não nos fazer perceber que são mulheres que estão dentro das nossas casas e que elas também são mães, esposas, filhas, estudantes, têm todas as necessidades que nós temos e muitas vezes têm o dobro de dificuldades. A cor da pele ou a condição social vantajosa não faz de ninguém uma pessoa melhor, não torna seus problemas mais graves que os dos outros e não justifica atitudes de rebaixamento e desumanização com as pessoas que lhe cercam.

Mas como extirpar de vez esse ranço escravocrata que ainda perdura em nosso país? Nas discussões (ainda escassas) do meio feminista sobre o assunto, uma corrente defende que o trabalho doméstico é como outro qualquer e, como tal, deve ter todos os direitos assegurados, piso salarial estabelecido, horários e atribuições previamente definidas e, principalmente, o respeito das pessoas, pois que quem o exerce não é inferior a ninguém. Elas acreditam que é necessária uma ampla conscientização da sociedade e também das próprias trabalhadoras domésticas, para que possam conhecer seus direitos e se impor diante de situações abusivas. Uma outra corrente, no entanto, é mais radical: defende que cada pessoa seja responsável pela limpeza e organização da própria casa, pois considera ultrajante a contratação de uma mulher em situação desprivilegiada para limpar a sujeira produzida por terceiros. Elas acreditam que devemos lutar por uma divisão igualitária dos serviços domésticos entre homens e mulheres, de modo que a mulher não precise ter dupla ou tripla jornada. Para elas, essa é a única forma de tornar o trabalho doméstico menos opressivo e de libertar mulheres negras e pobres, para que tenham outras e melhores oportunidades na vida.

Ambas as corretes exigem um árduo caminho a se percorrer (como todas as lutas feministas), mas apresentam bons argumentos. Você pode conhecer um pouco mais sobre elas nessa matéria da Revista AzMina e nesse artigo do site Geledés. Mas independente da posição que você ache mais correta, não podemos perder de vista que estamos lidando com seres humanos e sobretudo com mulheres iguais a nós. Vamos “desembranquecer” e “deselitizar” o nosso feminismo. E não se trata aqui de ser boazinha: é a quitação de uma dívida antiga. É também o exercício de resgatar a nossa humanidade e de colocar em prática a sororidade para todas as mulheres ao nosso redor, independente de classe, raça ou idade.

 

 

 

*É importante salientar que quem desempenha o trabalho doméstico não remunerado movimenta a economia de forma indireta, já que possibilita que outras pessoas da casa possam se ocupar exclusivamente do trabalho formal e estejam, portanto, mais descansadas, dispostas e criativas para dedicar-se às suas atividades laborais. Já quem exerce o trabalho doméstico de forma remunerada contribui diretamente para a movimentação da economia pois, além de exercer esse mesmo papel, também assume o papel de consumidor, ainda que sua remuneração seja baixa.

 

OBS. 1: Recomendo um passeio pela fanpage Eu, empregada doméstica, onde é possível ler relatos inacreditáveis sobre os abusos que as trabalhadoras domésticas ainda sofrem no Brasil.

 

OBS. 2: O título desse texto é uma referência à famosa frase “E eu não sou uma mulher?”, proferida pela ativista negra Sojourner Truth em seu discurso na Convenção dos Direitos da Mulher de Akron, Ohio, em 1851. Para saber mais sobre a história e o legado dessa mulher tão importante na história do feminismo negro, confira o texto Sojourner Truth, a peregrina negra da verdade, do Projeto Redomas.

 

 

 

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