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Tirando a adoção debaixo do tapete

Moisés nasceu sob uma condenação de morte mas, graças à desobediência de sua mãe, foi encontrado às margens do rio e adotado pela filha do seu algoz, o Faraó.

Ester perdeu seus pais muito cedo e foi adotada pelo primo Mordecai, que a conduziu ao palácio real e, posteriormente, intercedeu para que ela ajudasse a livrar o povo judeu de um genocídio.

Jesus foi colocado no ventre de Maria por uma obra do Espírito Santo, mas teve o cuidado e amor paterno de José, que o adotou como filho e, juntamente com Maria, possibilitou que ele crescesse numa família saudável.

Moisés e Ester são dois grandes exemplos de pessoas usadas por Deus para libertar seu povo; Jesus foi o próprio Deus que veio à Terra oferecer libertação para a humanidade. Os três têm em comum o fato de terem sido adotados, ou seja, eles foram criados, preparados e influenciados positivamente por pais não-biológicos. Com essas histórias, a Bíblia nos traz a adoção como algo divino. Providenciar pais adotivos quando há ausência dos pais biológicos é mais uma forma de Deus demonstrar seu cuidado conosco.



Adoção ainda é um tabu



Segundo a Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ), o número de adoções no Brasil vem aumentando com o passar dos anos e especialistas defendem que uma mudança de mentalidade está em curso em nossa sociedade. No entanto, falar de adoção ainda exige um certo esforço para desfazer mitos e desconstruir preconceitos.

Muitas pessoas acreditam que adotar filhos é um risco, pois nunca se sabe o caráter nem as doenças que eles herdaram dos seus pais biológicos; muitos não consideram o filho adotado como legítimo e questionam a intensidade do amor que seus pais sentem por ele; há ainda quem enxergue a adoção como prêmio de consolação pra quem não pôde ter filhos biológicos e quem atribua ao filho adotado a culpa por eventuais problemas que possam surgir na família, desconsiderando o fato de todas terem problemas. Enfim, ainda não sabemos lidar com esse assunto de forma natural e acabamos por menosprezar ou ofender as famílias que optam por esse caminho.

O papel da igreja na desconstrução desses preconceitos é fundamental, mas acho que falamos muito pouco sobre o assunto em nosso meio. E quem me chamou a atenção para isso foram algumas leitoras do blog, que me pediram para escrever sobre o tema. Conversando com uma delas, pude fazer uma retrospectiva de quase uma vida inteira na igreja e percebi que, de fato, as discussões sobre adoção são muito escassas. E quando não se fala muito de determinado assunto, a tendência é gerar ruídos, desinformação e preconceito.

Enquanto cristãs e cristãos, acreditamos que a família é a base de uma sociedade saudável e uma herança deixada por Deus. Por esse motivo, estimulamos a formação de famílias, investimos tempo e esforços para auxiliar no estreitamento das relações familiares e incentivamos o estabelecimento de vínculos fortes e saudáveis. Portanto, se somos defensores da família, devemos estimular a adoção tanto quanto estimulamos a geração de filhos, considerando que o vínculo familiar é o mesmo e que a Bíblia nos traz referências positivas nesse sentido. O nosso Salvador foi filho adotado e Deus usou a adoção como um dos meios de trazê-lo ao mundo. Como ignorar isso?

Mas vencer o tabu da adoção significa também vencer outros preconceitos. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, até 2018 o Brasil tinha 8,7 mil crianças e adolescentes à espera de adoção e 43,6 mil pessoas na fila de espera para adotar. Se o número de pais e mães é maior do que o número de filhos, por que ainda temos tantas crianças em orfanatos e lares de acolhimento? A resposta é complexa e envolve uma série de fatores, como a burocracia e um sistema ainda desorganizado. Entretanto, o preconceito ainda contribui para que muitas crianças cresçam sem um lar. Uma pesquisa divulgada pelo site Nexo mostra que o número de pais que têm restrição quanto ao sexo, à cor e à idade ainda é expressivo. Por causa disso, crianças negras, com mais de 5 anos e adolescentes sofrem com a rejeição. Apesar do perfil dos adotantes também vir mudando nos últimos anos e as exigências terem se reduzido, elas ainda existem e refletem a sociedade preconceituosa que somos, que precisa urgentemente rever seus conceitos.



Somos todos filhos adotivos



Em várias passagens da Bíblia fica muito claro que somos filhos adotivos de Deus. Para citar alguns exemplos, em Rm 8:15, Paulo nos diz:

“Vocês não receberam o espírito que os torne escravos medrosos e servis, mas receberam o Espírito que os adota como verdadeiros filhos […]”.

Em Gl 4:4 ele também reafirma:

“[…] Ele enviou seu Filho, nascido de mãe humana, e viveu debaixo da lei para comprar a liberdade para nós que éramos escravos da lei, a fim de que Ele nos pudesse adotar como seus próprio filhos.”

Em Ef 1:4-5, diz com todas as letras:

“[…] Deus nos escolheu para pertencermos a Ele. […] Seu plano imutável sempre foi adotar-nos em sua própria família, por meio de Jesus Cristo […]”.

A adoção é reafirmada em diversos momentos na Bíblia, para que não haja dúvidas de que essa é a nossa condição. Deus nos escolheu para sermos filhos/ filhas e nos ama incondicionalmente como Pai / Mãe, mostrando-nos que é possível amar filhos adotivos como se fossem biológicos. Em Isaías 49:15 ele mostra o quão poderoso é esse amor: “Será que uma mãe poderia esquecer do seu filho que ainda mama e deixar de ter compaixão do próprio filho? Mesmo que isso acontecesse, eu nunca me esqueceria de você!”

Sabendo de tudo isso, não podemos deixar de incluir o tema adoção nas discussões dos ministérios de família em nossas igrejas. Temos que ser os maiores incentivadores e trabalhar duro para desconstruir todos os preconceitos em torno do assunto. Adoção é um ato de amor e uma forma legítima de constituir família. Foi por meio dela que Deus traçou para nós o seu plano de salvação. A igreja não pode e não deve desprezar isso.





*Agradeço à leitora Erica Bispo pela sugestão de tema.

1 Comentário

  1. Jefferson disse:

    Excelente artigo! Estava conversando sobre isso, um tempo atrás com alguns amigos cristãos. Infelizmente o que percebo dentro do cenário cristão, é que há uma redoma de triunfalismo envolvendo a teologia de muitos. Uma igreja que SEMPRE vive as “promessas de Deus” para suas vidas e nisso se inclui o fato de gerar filhos próprios. Dai vemos casais inférteis dentro das igrejas que não optam por adotar porque crêem que em algum momento a “benção” vai chegar e o casal vai engravidar. E se optar por adoção, está se apressando e impedindo Deus de trabalhar, vão dizer que a pessoa não sabe esperar no Senhor e outras justificativas dentro deste ambiente do absurdo. Há muito disso também.

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