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Teologia de vida ou teologia de morte?

Há muito a se falar sobre o desejo de vida e o desejo de morte.

Escrevo inspirada por mais uma notícia de suicídio, dessa vez de uma pastora evangélica. Sem desconsiderar as doenças mentais e outras possíveis situações que levam as pessoas a esta decisão desesperada, defendo que precisamos pensar e falar mais sobre a contribuição das crenças religiosas neste contexto. Desconheço a história dessa pastora e suas razões. Não vou tratar do caso em específico. Vou falar de um lugar muito particular, dentro do campo evangélico, ao qual pertenço.

Não podemos negar o poder e a influência das crenças religiosas sobre o corpo, a mente e o espírito – e, em consequência, sobre a saúde e a doença, sobre a vida e a morte. Tenho aprendido com as teólogas e teólogos que, em se tratando de teologia, toda ela é uma forma de discurso limitado que visa explicar o ilimitado e o inexplicável. E são tantas as teologias quanto são os discursos.

Assim sendo, precisamos considerar que estamos sujeitos a discursos religiosos e teologia(s) que podem maltratar o corpo, alienar a mente e aprisionar o espírito. Assim como o discurso ou a palavra que entra pode adoecer, o discurso ou a palavra que sai pode curar, ensinam as psicólogas e psicólogos. Por isso, entendo que precisamos falar, reconhecer e denunciar discursos nocivos como parte dos processos preventivo e curativo.

Precisamos falar de como são nocivas as interpretações bíblicas descontextualizadas e do poder que estas têm de murchar o espírito e amaldiçoar o corpo. Precisamos falar das regras e dogmas que muito proíbem e nos tiram as alegrias da vida, dos usos e costumes que desconsideram nossas individualidades.

Precisamos falar e reconhecer que nós, cristãos, não somos os donos da verdade, que não entendemos tudo de Bíblia, que nem sempre sabemos agradar a Deus, que nem sempre Deus pensa como nós e está a nosso favor (por vezes merecemos mesmo uma boa lição!), que não somos seres superiores aos que têm outras crenças ou não as têm, que o céu não nos pertence. Precisamos reconhecer ainda que a Ceia não é só nossa e que a Igreja é muito mais do que visualizamos.

Precisamos falar e denunciar os líderes religiosos covardes e fraudulentos que não se posicionam em favor dos oprimidos, que tiram dinheiro do pobre e da viúva, que defendem a bancada evangélica aliada ao que há de pior no nosso país, aqueles que manipulam politicamente os crentes em favor dos seus candidatos, os que vendem bênçãos, os que não libertam mulheres sofridas e maltratadas em seus casamentos, os que não chamam homens a uma masculinidade sadia, os que recusam a reconhecer oficialmente a liderança feminina, os que abusam da mão de obra feminina, os que demonizam a teologia feminista, negra e as outras religiões.

Precisamos falar e admitir a politicagem eclesiástica no “seio” da igreja, a inveja e as “puxadas de tapetes” entre pastores, as estratégias duvidosas dos ministérios tão moderninhos, a busca de vantagens tributárias da igreja evangélica junto ao Congresso. Precisamos falar sobre nosso ídolo “gospel”, sobre os milagres e os testemunhos “fakes”, precisamos falar mais e admitir as nossas desilusões com a igreja institucionalizada, com os irmãos; falar e admitir a frustração das nossas expectativas, a frustração com as coisas tão sem sentido que nos ensinaram como verdades.

Precisamos falar e admitir as nossas limitações e erros como cristãos bem-intencionados. As nossas fragilidades, depressões, ansiedades, vaidades, solidão, as dúvidas teológicas perturbadoras, a fé por vezes vacilante, o gosto pelo pecado, a tentação de uma vida ambígua e dúbia; nossa estratégia de evangelização invasiva, colonizadora e desrespeitosa; a nossa incapacidade de lidar com o diferente, o desconhecido, demonizando-o.

Precisamos falar e admitir que estamos sedentas e sedentos por uma teologia da vida, que celebre a verdade, a liberdade, a alegria, a tolerância, a aceitação própria, aceitação do outro, a generosidade e a misericórdia. Uma teologia que  liberte nossos corpos, mentes e espírito de falsas crenças limitantes.  Essa teologia sincera e generosa cheira a vida!

 

 

Leilane de Moura Paegle é mulher, mãe solo, arquiteta, cristã feminista, articuladora da Evangélicas pela Igualdade de Gênero em Belo Horizonte e está sempre revendo se a sua teologia cheira a Vida.    

6 Comentários

  1. Flávia disse:

    Leilane! Seu texto é oportuno! Precisamos falar sobre isso! Sua mensagem nos abraça e nos ajuda a reconhecer nossas dificuldades! É muito triste que mulheres estejam desistindo por causa da força opressora dos líderes das igrejas! Estamos juntas nessa! Precisamos abrir as fendas!

  2. Vera Lucia Santos Gentil disse:

    Amei o seu texto e concordo com o que li. Parabéns

  3. Silvano Rodrigues Filho disse:

    O que dá pra se notar em meio a este turbilhão de insegurança e desequilíbrio em meio a religiosos ou não é a substituição do alicerce da pedra fundamental que é Cristo Jesus, por conceitos e fundamentos humanos que só trazem ruína ao ser humano.
    Por isso Jesus afirmou que somente ele veio para que tenhamos vida e para isto acontecer temos que buscar seu Espírito e sermos gerados de novo e gozarmos da verdadeira vida.

  4. Ondina disse:

    Leilane,

    Gostei muito de seu artigo, que reflete suas reflexões!

    Conheçi você criança, morando no Estreito. Lembra-se de mim? Sou casada com o Waldir.

    Continue escrevendo!

    Abraços,

    Ondina Berndt

  5. Maria Lúcia disse:

    Texto maravilhoso, parabéns!
    Sou mãe solteira, teóloga e professora. Sempre que tenho oportunidade falo às mulheres sob a perspectiva de uma teologia libertadora e que tenha aroma e sabor de vida.

  6. Vacy disse:

    Muito boa sua reflexão Leilane, parabéns pelo texto.

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