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Tá lá o corpo estendido no chão

Certa vez, caminhando numa praia de Ilhéus, eu meu marido nos deparamos com um corpo de um jovem. Sim, um corpo morto. Estava estendido na areia, enrijecido, com os braços erguidos e coberto por um lençol. De longe eu achei que fosse alguma brincadeira, mas quando me aproximei percebi que se tratava de um cadáver mesmo. No entorno, ali bem próximo, crianças brincando, pessoas deitadas se bronzeando, comendo, conversando e até jogando bola. Ninguém parecia se importar com aquele corpo sem vida no meio da praia.

Fiquei estarrecida com essa cena e à noite custei a pegar no sono. Quem era aquele rapaz? Como foi parar ali? Em que circunstâncias ele morreu para que o seu corpo se enrijecesse com os braços erguidos? Como as pessoas conseguiam se divertir ao lado de uma pessoa morta? Será que isso era um fato frequente naquela praia? Várias perguntas sem resposta e uma única certeza: sem que percebamos, a nossa indiferença cresce a passos largos diante das mazelas sociais.

Assim como as pessoas que jogavam, comiam e se divertiam em torno daquele corpo na praia de Ilhéus, nós também temos agido friamente e adotado a indiferença no cenário de horror em que vivemos. Todos os dias temos Ágathas, Evaldos, Rodrigos e tantos outros (em sua maioria corpos negros) estendidos no chão. Todos os dias, enquanto uns poucos choram a dor de suas perdas, uns muitos minimizam o fato dizendo que é o preço que se paga por tentar combater a violência arraigada em nosso país. E a gente engole essa desculpa: “é verdade… não dá pra fazer omelete sem quebrar os ovos…”. Até que a próxima vítima seja um parente nosso.

Se adotamos a indiferença como principal reação diante da morte brutal de seres humanos inocentes, que nada faziam além de seguir com o ritmo normal de suas vidas, é óbvio que essa postura se estende a tudo mais. Estamos sendo indiferentes com a corrupção instaurada em nosso país em todos os níveis (do presidente ao motoboy); com as mazelas de um sistema que privilegia ricos e nega direitos básicos aos pobres; com o preconceito de todas as ordens que mata centenas por dia; com a infância sendo desvirtuada cada vez mais cedo; com desvios de caráter que subvertem os valores e nos fazem crer que o errado é o certo; com as pessoas sofrendo ao nosso lado, muitas vezes dentro da mesma casa… estamos totalmente ensimesmados, vivendo uma vida egocêntrica, focada nos nossos interesses, nas nossas conquistas, no nosso bem-estar e esquecendo que de nada adianta estar bem se todo o entorno está mal. Não somos seres isolados e tudo que afeta a sociedade nos afeta, sim. Mas parece que esse senso de comunidade se perdeu e a individualidade tem falado mais alto.

 

“E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará.”

 

Essa profecia de Jesus em Mt 24:12 nunca foi tão adequada para definir o momento que vivemos. E o mais chocante é ver que ela está se cumprindo até mesmo nas igrejas, comunidades de fé que deveriam estar inconformadas com a realidade, tal qual Jesus orientou. Ele, que nunca se manteve indiferente aos problemas sociais de sua época e nunca fechou os olhos diante do sofrimento humano, deve estar agora assistindo embasbacado ao show de horrores com o qual a sua igreja tem sido conivente, quando não protagonista.

Não podemos deixar o amor se esfriar. O Evangelho que seguimos não permite apatia, falta de ação, falta de coragem, omissão. Não permite que nos calemos diante do que está errado. Pode até não parecer, mas o corpo estendido no chão também é meu e é seu, porque em Cristo somos um só (Rm 12:5). Cada corpo que sucumbe é um tiro na cruz de Cristo, matando-o de novo, de novo e de novo, negando todo o Seu sacrifício e as vidas a quem Ele dignificou e amou. Neste cenário de corpos reais e metafóricos, que não seja a igreja aquela que brinca, come e se diverte em meio aos cadáveres. Nosso papel é fazer a diferença. Estamos fazendo?

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