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Sororidade: nós precisamos disso

Certamente você já julgou ou condenou outra mulher. Eu também. Todas nós já fizemos isso um dia, pelos mais diversos motivos.

Vivemos numa sociedade onde a mulher anda constantemente numa corda bamba. Se em algum momento ela põe um pé para fora, é imediatamente apedrejada por uma plateia intolerante e impiedosa. O machismo nos ensina desde cedo a vigiarmos umas às outras e a apontarmos sem dó para as que supostamente desviam da conduta considerada “adequada”. Bela, recatada e do lar: é assim que nos querem, é assim que nos obrigam a ser. E essa vigilância constante nos transforma em capitãs do mato da contemporaneidade, pois somos mulheres perseguindo mulheres, assim como os negros capangas que perseguiam outros negros.

Quem ganha com isso? Sinceramente, não sei. Mas sei que quem perde somos nós, mulheres. Toda vez que abrimos a boca para condenar ou julgar outra mulher, estamos fortalecendo um discurso dominante que um dia irá se voltar contra nós mesmas. A mulher vulgar, a mãe desnaturada, a esposa preguiçosa e tantas outras personagens condenáveis amanhã podem ser você, pois acredite: o machismo possui critérios muito amplos para abarcar todas nós. A mulher vagabunda pode ser tanto aquela que se relaciona com vários homens quanto aquela que não quer mais se relacionar com um determinado homem. Em algum momento de nossas vidas, todas seremos atingidas, não importa o lado em que estejamos. Será que vale a pena defender os interesses desse senhor de engenho chamado machismo?

Nós já temos gente demais para nos apontar o dedo. Precisamos agora é de gente que nos estenda a mão, que seja solidária e que não nos condene, ainda que não concorde com nossos atos. Não existe ninguém que compreenda melhor os problemas de uma mulher do que outra mulher, pois geralmente eles são os mesmos, o que muda é o cenário. Por isso, ao invés de nos mantermos separadas por um muro de moralismo e indiferença, que tal darmos as mãos e compartilharmos nossas vivências? Precisamos exercer a sororidade, que é a empatia entre mulheres, a capacidade de nos colocarmos umas nos lugares das outras e nos acolhermos, seja encorajando, seja oferecendo ajuda ou apenas aconselhando. Esse simples gesto só nos fortalece, ao mesmo tempo em que enfraquece o machismo. Ao invés de me unir aos que condenam mulheres (muitas vezes sem conhecê-las ou sem conhecer as suas circunstâncias), serei uma voz a menos nesse coro de julgamentos. Posso também ser uma voz a mais para exigir respeito, para demonstrar minha insatisfação com a hipocrisia machista. E posso ainda cortar o assunto, não deixá-lo render na boca dos maledicentes.  

A nossa força está na nossa união. As histórias de que mulher não é amiga de mulher e de que temos inveja umas das outras não passam de mitos que servem para nos desunir e impedir que troquemos experiências. Assim, ficamos isoladas, sem informação sobre o nosso próprio universo e, portanto, mais vulneráveis aos ataques e mais tentadas a passar para o lado de lá. Mas lembremos que o lado de lá não tem nada a nos oferecer além de vigilância e julgamentos.

Está na hora de escolhermos nosso lugar. Queremos ser a mulher na corda bamba ou queremos fazer parte da plateia impiedosa que grita e apedreja quando ela ameaça se desequilibrar? Nem um nem outro. Podemos simplesmente ser aquelas que estendem a mão e ajudam a descer da corda. Foi isso que Jesus fez com Maria Madalena e, como cristãs, é esse o exemplo que temos que seguir.

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