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Sobre ter pena da noiva

Você já foi a algum casamento em que sentiu pena da noiva? Eu já. Infelizmente isso é muito frequente dentro da igreja e poucas são as pessoas que conseguem perceber E fazer algo para mudar essa situação (muitas percebem, mas não fazem nada).

Você pode estar se perguntando: “mas como assim ‘sentir pena da noiva’? Noivas sempre estão felizes!”. Acontece que precisamos desenvolver um olhar mais amplo para o casamento, e não apenas nos limitar à visão da felicidade dos noivos. A igreja é um lugar de cura, libertação e edificação espiritual, mas às vezes acaba sendo também lugar de opressão e precisamos tocar nessa ferida para que erros sejam corrigidos. Um desses erros consiste em empurrar mulheres para o altar.

É muito comum nas igrejas as meninas serem orientadas desde cedo a buscar um compromisso sério que tenha como finalidade o casamento. Alguns líderes ensinam o absurdo de que o ideal é que a moça tenha apenas um namorado e que se case com ele (ou seja, a mulher não pode ter muita opção de escolha). Na adolescência as perguntas e pressões se tornam mais frequentes. Então quando elas iniciam um relacionamento, começam a cobrar o casamento, independente do tempo de namoro – pode ser 1 mês ou 10 anos, tanto faz. Se terminam com o namorado, logo começam a procurar um novo para elas e a história se repete.

Porém, a coisa fica séria mesmo quando as mulheres chegam perto dos 30 anos e não têm namorado. Nessa fase, as cobranças são mais enfáticas e às vezes isso vira até motivo de oração para o grupo em que elas estão inseridas, afinal de contas, já estão na idade de casar e TÊM que casar. Já ouvi perguntas do tipo “mas afinal, por que você está sozinha mesmo? Não está escolhendo demais não?” (como se, depois de uma certa idade, não pudéssemos mais escolher). Também já ouvi absurdos como “Deus me revelou que você vai casar ainda esse ano!” (isso foi dito a uma moça que nem namorado tinha!).

Eu sei que não é somente dentro da igreja que isso acontece, mas me parece que a igreja enfatiza ainda mais essas pressões por conta da cultura de valorização da família e do casamento, típica do meio cristão. O que era pra ser uma qualidade acaba se transformando numa histeria.

Muitas vezes não dá para perceber o quanto essa pressão machuca aquelas que têm vontade de casar mas não tiveram a sorte ainda de achar a pessoa certa. E o pior de tudo é colocar a culpa sobre elas: “se você não casou, é porque não quis. Tá ‘assim’ de homem atrás de você”, como se bastasse o cara querer e pronto, a vontade delas não conta. E ainda tem gente que apela: “Você tem que casar porque daqui a pouco tá na hora de ter filhos!”. E aí a mulher que sonha com tudo isso começa a pirar, começa a achar que o problema é ela, que todo mundo consegue (menos ela) e começa a entrar em desespero.

No meio dessa pressão louca, fica muito difícil perceber que o problema está numa cultura machista, na qual as pessoas são obcecadas por casar a mulher a todo custo e colocam o casamento como prioridade na vida dela (como nos séculos passados). A crença primitiva de que a mulher precisa de um homem para ser realizada na vida, não importando a qualidade desse homem, ainda está presente em nossos dias e isso tem prejudicado e traumatizado muitas de nós. Além desse fator estrutural, dentro da igreja há também o pensamento perverso de que mulher com mais de 30 anos e solteira ou está fornicando ou representa um perigo para os maridos das que estão casadas.

A consequência dessa opressão é trágica: mulheres casando com homens imaturos ou que mal conhecem só por medo de ficar “encalhadas”; mulheres casando só para atender às suas necessidades sexuais sem que a igreja as persiga; mulheres casando para realizar o sonho de ter filhos antes que seja tarde demais; mulheres que se deixam influenciar por “profetadas” e “revelamentos” de estranhos sobre sua vida pessoal e, por desespero, se permitem cair na cilada de um casamento falsamente revelado por Deus; enfim, mulheres casando SEM AMOR. É claro que essa não é uma boa forma de começar uma família!

Foi por isso que eu falei no início sobre ter pena de algumas noivas. Já tive pena, sim, por perceber que muitas mulheres ainda caem nessa armadilha maldita de gente que quer qualquer coisa, menos vê-las felizes – quer ter uma festa pra ir, quer mostrar o quanto sua igreja é casamenteira, quer ter controle sobre a vida sexual das mulheres, quer ter a certeza de que elas terão um homem para dominá-las e não ficarão por aí tentando os maridos alheios…. qualquer coisa MESMO, menos a felicidade delas. E depois do casamento, essas mulheres se veem sozinhas numa relação sem amor, sem maturidade, sem companheirismo… e mais uma vez são pressionadas pela igreja a lutar por seus casamentos, a não desistir, enquanto os maridos permanecem intocados em seus altares.

O pior é saber que enquanto a maioria das mulheres é ensinada a ser uma esposa apagada e nula desde a pré-adolescência, a maioria dos homens só recebe orientação para o casamento na idade adulta e ainda são ensinados a mandar nas suas esposas e ter domínio sobre elas. Enquanto as mulheres são vigiadas para namorar pouco e cobradas para que arranjem logo um marido, os homens ficam livres para namorar com quantas quiserem e casar quando acharem que devem.

Até quando a igreja vai empurrar suas mulheres para esse tipo de inferno?  Até quando vamos aceitar que terceiros decidam nossa vida? Nós temos direito de escolher com quem vamos nos relacionar, não podemos ser obrigadas a casar com qualquer um porque a igreja quer nos ver casadas. Nós temos também o direito de não querer casar e sermos respeitadas por isso (afinal, casamento é ministério e nem todos têm esse chamado). Temos o direito de dizer não às falsas profecias e revelações sobre nossa vida pessoal, mesmo que elas venham do pastor – pois Deus não revela a estranhos algo tão íntimo que Ele pode revelar a nós mesmas. A igreja precisa entender que a escolha do casamento é pessoal e que muitas vezes não depende apenas da nossa vontade. Às vezes não aparece mesmo a pessoa ideal, e aí? Estamos condenadas a casar com o primeiro que apareça para evitar a “vergonha” de ser solteira? Não! Só precisamos de respeito. Respeito à nossa individualidade, respeito à nossa vontade, respeito à nossa relação com Deus e à nossa história de vida.

Meu desejo é ver as igrejas respeitando a mulher, desenvolvendo um trabalho sério de preparação para o casamento tanto para elas quanto para os homens, dando orientações bíblicas sobre isso e acompanhando os casais de namorados, afinal, a família começa no namoro. Meu desejo é ser convidada para casamentos nos quais eu me sinta feliz pela noiva, e não com pena dela por saber que ela tomou essa decisão tão importante nas circunstâncias que descrevi aqui. Meu desejo é também ver as mulheres se impondo e não permitindo que esse tipo de violência seja cometido contra elas. Não podemos sucumbir diante de um monstro ideológico que quer apenas ter controle sobre nossas vidas. Não podemos permitir que nos meçam apenas pelo fato de sermos casadas ou não.

2 Comentários

  1. Dinalva Fernandes disse:

    Assunto atualíssimo, infelizmente!!!
    Glória a Deus pela sua vida, Isabela, pois Ele está te inspirando nestas abordagens! Certamente, o objetivo de ampliar a visão das mulheres, dos líderes, da igreja em geral
    setá alcançado, no nome de Jesus!
    Já sofri muito com estas discriminações e quase fui uma dessas noivas, digna de pena. Louvo a Deus, pq ao invés de um mal casamento, me proporcionou a experiência de vários livramentos, e, consequentemente, a libertação da influência destas cobranças.

  2. Ana Souza disse:

    Perfeito raciocínio. Essa cultura está nas entranhas de muitas igrejas, infelizmente. A “obrigatoriedade” de casar é um assunto tão sério, que interfere (e muito!) na vida de uma mulher e de suas escolhas. Se a decisao resultar em um bem, ótimo. Se não, é uma carga bem pesada para se levar durante essa nossa vida tão curta e passageira, pois geralmente gera frustrações e decepções que podem prejudicar, inclusive, a comunhão com Deus.

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