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Sobre a hipocrisia que é ser cristão

Segundo dados do último Censo religioso divulgado pelo IBGE (2010), 86,8% dos brasileiros se declaram cristãos, sendo 64,6% católicos e 22,2% evangélicos. Tudo indica que no próximo Censo, previsto para 2020, o número de evangélicos aumentará expressivamente, dado o ritmo acelerado de expansão da igreja evangélica.

Apesar do crescimento de outras religiões e também do ateísmo, ainda somos um país majoritariamente cristão. Aqui a gente defende a família acima de tudo, mas temos 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento. De 2005 para 2015, o número de famílias compostas por mães solo cresceu 1,1 milhão. Isso sem contar os inúmeros casos em que os pais registram os filhos, mas não dão assistência alguma.

Nossos princípios cristãos nos levam a um zelo excessivo pela moral e pelos bons costumes, mas o disque 100 recebe em média 50 denúncias por dia de crimes sexuais contra menores – e a maior parte dos abusadores/ estupradores está dentro da família.

Professamos uma fé que prega o amor ao próximo, mas nossa taxa de homicídios é 30,3 por 100 mil habitantes, o que nos coloca entre os países mais violentos do mundo. Entre os jovens, essa taxa cresce para 65,5 por 100 mil (é mais que o dobro e nos mostra o quanto os jovens são vulneráveis em nosso país).

A mensagem do Evangelho que dizemos seguir não é suficiente para nos tornar inconformados com este mundo (Rm 12:2), para destruir a nossa indiferença em relação à fome e à miséria que nos cercam nem para nos fazer entender que somos todos iguais diante de Deus (não importa a cor, a idade, o gênero, a orientação sexual ou a renda mensal).

Não, o nosso cristianismo não nos permite abandonar o velho homem que mantém seu casamento na base da violência ao invés do amor; que demonstra profundo ódio contra os que lutam pelos direitos humanos (algo que Jesus fez, por sinal); que não tolera a corrupção, mas defende milicianos; que se indigna contra a luta por direitos das minorias porque quer resguardar o seu direito de discriminar; enfim, um velho homem que diz agir “por Deus, pela família e pela nação”, mas na verdade está agindo em nome do seu próprio egoísmo, usurpando o lugar de Deus e ridicularizando a mensagem do Evangelho.

De que adianta sermos um país cristão e estarmos mergulhados num oceano de mazelas sociais e morais? De que vale estar na igreja todo domingo se a palavra de Deus não chacoalha a nossa mente e o nosso coração, nos levando a uma mudança de atitude diante da vida e do próximo? Temos motivos para nos orgulhar desse cristianismo que vivemos?

86,8% dos brasileiros se dizem cristãos, mas ainda temos fome, analfabetismo, abandono, violência, preconceito, indiferença e corrupção pra dar e vender. Que cristianismo é esse que não muda a nossa realidade e que só serve para ser proferido com ar de superioridade nas igrejas, na TV, nas reuniões de família e nos palanques políticos? Tem algo de errado nesse cristianismo que vivemos…. por onde Jesus passou, deixou um rastro de transformação e libertação. Por que nós, que dizemos ser seus seguidores, não conseguimos fazer o mesmo?

A mensagem do Evangelho é perfeita e, quando praticada, produz mudança de mentalidade e uma nova postura diante do mundo que nos cerca. O verdadeiro cristianismo gera vida e ninguém, depois de ter um encontro real com Jesus, permanece igual. Portanto, o problema não está nos ensinamentos de Cristo nem no Evangelho. O problema está em nós, que professamos a fé cristã e, vergonhosamente, insistimos na incoerência, alimentando um mundo de hipocrisia e falso moralismo.

Exercer o cristianismo exige coragem para subverter a ordem, pois é loucura e fraqueza para os homens (1 Co 1:27). Não é algo simples, nunca foi e Jesus nunca prometeu que seria, talvez por isso seja mais fácil fingir que é do que ser de fato. E nós, brasileiros que somos, nos acostumamos a dar um “jeitinho” até mesmo na prática da fé. Até podemos enganar alguns, mas Jesus nos ensinou que pelo fruto se conhece a árvore (Mt 12:33). E aí: dá pra ter orgulho dos frutos que o cristianismo tem dado em nosso país? Será que não está na hora de revermos a nossa religiosidade vazia?

Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. (Mt 7:22-23)

2 Comentários

  1. Aline disse:

    Sensacional! É isso que tenho trazido para as conversas nas igrejas e com amigos .. precisamos deixar de ser hipócrita, seguir a Cristo requer renuncia da nossa zona de conforto, e muito poucos vivem essa realidade l Avante, se queremos verdadeiro envangelho devemos abrir mão da relativizacao dos discursos, devemos respeitar ao próximo, mas continuar seguindo para o Alvo que um só!

  2. Talita Costa disse:

    Uauuu, que texto reflexivo! Que a nossa auto análise possa ser constante, para que haja mudança. Parabéns pelo post!!!

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