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Sete mulheres transgressoras na Bíblia

Nem só de mulheres recatadas se faz o Cristianismo. Apesar de a igreja querer impor como correto um perfil único de mulher, sabemos que a Bíblia traz uma pluralidade feminina em suas narrativas. E uma coisa curiosa de se notar é que nem sempre as que fogem do modelo submisso e obediente são vilãs; nem sempre aquelas que a gente acha que já conhece bem são do jeito que nos ensinaram. Confira nesse texto sete mulheres bíblicas que transgrediram normas, venceram barreiras e nos deixaram bons exemplos de fé e atitude cristã.

1) Raabe: ela era prostituta em Jericó e isso, por si só, já é uma transgressão. Mas Raabe foi além. Ela recebeu em sua casa os soldados israelitas, que foram lá para espionar a cidade e planejar a invasão do povo de Deus. Quando os soldados do rei de Jericó bateram em sua porta para obrigá-la a entregar os espiões, ela negou que eles estivessem lá, arriscando a própria vida e a de seus familiares. Por causa desse ato de desobediência em favor do povo de Deus, Raabe foi abençoada e teve a sua casa e toda a sua família preservadas na invasão de Jericó. Ela deixou a prostituição, se casou com um príncipe israelita e se tornou mãe de Boaz, entrando, assim, para a linhagem de Davi e de Jesus. Raabe transgrediu e nos mostrou que Deus não faz acepção de pessoas: Ele usa e abençoa quem quer, independente da posição social e conduta moral. (Js 2:1-22, 6:17-25)

2) Ester: órfã e judia, ela foi escolhida pelo rei Xerxes entre as moças virgens mais bonitas do reino e foi coroada rainha. Mas quando ele, influenciado por Hamã (seu oficial mais poderoso), assinou um decreto autorizando a matança do povo judeu, Ester ficou entre a cruz e a espada. Mordecai, seu primo que a criou como filha, mandou uma carta pedindo que ela intercedesse junto ao rei pelo seu povo. Ester sabia que não lhe era permitido procurar o rei ou entrar no pátio em que ele ficava sem ser chamada. Sabia que se fizesse isso, poderia ser punida com pena de morte, a não ser que o rei desse permissão (o que dependia muito do seu humor). Num primeiro momento, Ester negou o pedido temendo por sua vida, mas a insistência de Mordecai, o homem que havia sido um pai para ela, a fez mudar de ideia. Mesmo com muito medo, Ester pediu que os judeus de Suzã (sua terra natal) e suas criadas do palácio jejuassem por ela durante três dias e três noites. Passado esse período, ela decidiu desobedecer a lei e arriscar sua vida para interceder pelo seu povo. Ao entrar no pátio do rei, Ester obteve a permissão dele e, a partir daí, uma série de acontecimentos a favoreceram e fizeram com que seu pedido fosse ouvido, resultado na suspensão do decreto e no livramento do povo judeu. Ester tinha muito medo, mas decidiu descumprir a lei para fazer o bem. Ela não precisava correr esse risco, pois o rei não sabia que ela era judia e o fato de estar no palácio real já salvaria a sua vida. Mas por causa da sua decisão corajosa e altruísta, Deus foi abrindo caminho e agiu para que ela fosse ouvida. Ester transgrediu e nos deixou o exemplo de alguém que usou seu privilégio pelo bem da coletividade, tendo sido honrada por Deus por causa da sua postura não-egoísta. (A história completa se encontra no livro de Ester, no Antigo Testamento.)

3) Maria: quer maior transgressão do que aceitar ser mãe solteira numa sociedade severamente patriarcal e pôr em risco a própria vida? Pois foi isso que Maria fez. Ela era apenas uma adolescente virgem que estava prestes a se casar quando recebeu a proposta do anjo de carregar em seu ventre o Salvador. Maria não foi obrigada, poderia ter dito não. Mas corajosamente ela disse sim aos planos de Deus e, mesmo correndo o risco de ser apedrejada, entregou sua vida a Ele e entrou para a história como a mãe de Jesus. Maria enfrentou os costumes, as maledicências em torno da sua gravidez, a tentativa de matar o seu bebê, as perseguições a Jesus em seu ministério e encarou bravamente a tortura e a morte do próprio filho, acompanhando-o em toda a sua caminhada ao Calvário. Maria transgrediu e nos deixou seu exemplo de força, coragem e fé.  (Lc 1:26-38)

4) Madalena: oprimida por sete demônios: foi assim que Jesus a encontrou e mudou para sempre a sua vida. Depois de ser libertada dos demônios, Madalena, também conhecida como Maria de Magdala, resolveu largar tudo para seguir Jesus. Casa, família, um futuro casamento, possíveis filhos… ela rompeu com todas as expectativas em torno das mulheres de sua época e arriscou sua reputação e segurança quando decidiu acompanhar o Salvador. Já imaginou, há dois mil anos, uma mulher vivendo como errante junto a um grupo de homens? Quantas difamações e riscos ela não sofreu? Naquele tempo, uma mulher sozinha viajando de cidade em cidade era alvo fácil para estupros. Mas Madalena não levou nada disso em consideração e dedicou sua vida a seguir Jesus. A recompensa? Ela foi a primeira a vê-lo ressuscitado e recebeu dEle a missão de anunciar a boa nova. Logo ela, uma mulher, ex-endemoniada e de reputação duvidosa…! Madalena transgrediu e foi protegida, dignificada e honrada para sempre na história do Cristianismo. (Lc 8:2-3, Mc 16:9, Mc 15:40, Mt 28:1-10, Mc 16:1-9)

6) A mulher do fluxo de sangue: a Bíblia não fala qual era o seu nome, apenas a identifica por um estigma: o fluxo de sangue. Nos tempos de Jesus, uma mulher com hemorragia ou que estivesse no período menstrual era considerada impura. Tudo que ela tocasse seria contaminado e ninguém podia tocar nela. Essa mulher sofria com um fluxo de sangue há doze anos – imagine o quão solitária era! Contrariando a lei judaica, ela saiu do isolamento e entrou no meio da multidão para tentar tocar em Jesus, pois tinha certeza que Ele era tão poderoso que bastava um toque em Sua roupa para ela ser curada. Ao sentir que dEle saiu poder, Jesus perguntou quem o havia tocado e, amedrontada, a mulher assumiu seu ato. Ela teve que vencer duas barreiras: a primeira, de sair do isolamento e se misturar numa multidão; a segunda, de assumir seu ato de ousadia de tocar em Jesus. Certamente ela era conhecida na região pelo seu problema e as pessoas não perdoariam sua desobediência, afinal, ela tornou todos ao seu redor impuros e ainda contaminou Jesus de forma deliberada! Mas Jesus teve compaixão daquela mulher e não só a curou como também a tranquilizou: “vá em paz e fique livre do seu sofrimento”. A mulher com fluxo de sangue transgrediu e nos mostrou que não devemos aceitar o lugar de inferioridade que nos é dado. Jesus tem vida, liberdade, amor e acolhimento para dar a todos os marginalizados. (Mc 5:25-34)

5) Maria de Betânia: ela e seus irmãos (Marta e Lázaro) eram muito amigos de Jesus e um dia O receberam em sua casa. Marta, sempre muito hospitaleira, pôs-se a trabalhar, a fim de proporcionar a melhor estadia àquela visita tão ilustre; Lázaro provavelmente ficou com Jesus na sala para ouvir o que Ele tinha pra dizer; e Maria, contrariando as convenções, resolveu que também ia ficar aos pés do Mestre. O que a sociedade patriarcal daquela época pregava era que a mulher cuidasse dos trabalhos domésticos, especialmente quando havia visitas. Não era conveniente que as mulheres participassem de rodas de conversa com homens – esse não era o seu espaço e a presença feminina poderia importunar os demais. Mas Maria não quis saber e desobedeceu, pois tinha sede da mensagem de Jesus. Ao perceber isso, Marta tentou intervir e a repreendeu (numa forma também de desculpar-se pelo “incômodo”). Mas Jesus não só reconheceu como legítima aquela atitude de Maria como também indicou que Marta poderia fazer o mesmo. “Há só uma coisa com que devemos nos preocupar. Maria descobriu o que é e ninguém pode tirar isso dela”, Ele disse. Maria transgrediu as normas de hospitalidade da época, ousou desobedecer e descobriu que a mensagem de Jesus também era pra ela e pra todas as mulheres que tivesse sede da Palavra. (Lc 10:38-42) (Mais sobre a história de Maria de Betânia você encontra aqui).

7) A mulher cananéia: Ela era uma mulher cananéia e também siro-fenícia, o que significa que era descendente de povos que causaram muito sofrimento ao povo de Israel. Sua filha era dominada por um espírito imundo e, ao saber que Jesus passaria em sua região, não hesitou em procurá-Lo, clamando por socorro. Por causa das perseguições que vinha sofrendo, Jesus queria passar por ali despercebido e, ao ser abordado pela mulher, permaneceu em silêncio. Mas ela seguiu gritando e chorando atrás dEle, a ponto de incomodar os discípulos, que o pediram que Ele a mandasse embora. Por isso, Jesus resolveu ser direto: “fui enviado para socorrer as ovelhas perdidas de Israel” (querendo dizer, com isso, que ela não era alvo de suas ações). Desesperada, a mulher continuou implorando quando Ele falou a famosa frase: “não é correto tirar o pão das crianças para jogá-lo aos cachorros”. Mais uma vez, Jesus queria deixar claro para aquela mulher que ela não pertencia ao povo escolhido, mas ela deu uma demonstração de humildade quando respondeu: “é verdade, Senhor, mas até mesmo os cachorrinhos embaixo da mesa comem as migalhas das crianças”. Ela só queria as migalhas, pois sabia que isso já era suficiente! Impressionado, Jesus disse: “sua fé é grande e seu pedido será atendido!”.

A mulher cananéia ousou questionar Jesus, argumentou com Ele de forma humilde e, por causa disso, recebeu seu milagre. Ela transgrediu porque qualquer outra em seu lugar provavelmente sairia cabisbaixa, conformada com a negativa recebida. Mas ela mostrou que tinha fé e insistiu para ser alcançada pela graça. Acredito que essa mulher tenha sido usada para mostrar à dimensão humana de Jesus que Ele não tinha vindo apenas para um povo, mas para todos os povos que O buscassem. Ela teve um papel revelador no ministério de Jesus, por isso sua história ficou registrada para sempre nas páginas da Bíblia. (Mc 7:24-30, Mt 15:21-28)

E você, com qual dessas mulheres se identifica mais?

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