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Romantizada ou invisível: a gravidez em mulheres brancas e negras

Desde que engravidei, tenho pensado em como a gravidez é romantizada pela sociedade, especialmente quando a gente está inserida num contexto evangélico. Afinal de contas, para o sistema machista e patriarcal, ser mãe é a função primordial da mulher, logo, é necessário que haja toda uma mítica em torno da maternidade e da gestação para que ela queira engravidar e desempenhar seu papel reprodutivo. O discurso conservador pró-família da igreja ajuda a reforçar isso, mas não dá pra desprezar o papel das mídias, da indústria do entretenimento e da maternidade e, claro, das redes sociais.

Enquanto eu encarava a dureza de um início sofrido de gestação, com muitos enjoos, falta de disposição e desânimo, pensava em como as fotos no instagram só mostram mães plenas, passeando em bosques com suas coroas de flores e seu barrigão à mostra, falando sobre como é mágico gerar uma vida e quanta felicidade isso traz. Mas eu não sabia que existia um outro lado e me questionava o porquê de tanta glamourização.

Então eu me dei conta de que estava analisando essa realidade a partir da minha ótica privilegiada de mulher branca, de classe média, evangélica, que vive um casamento estável. Para mulheres como eu, sim, a gravidez é romantizada.

No Brasil, a mulher branca é o estereótipo da mãe ideal desde a colonização. Ela, sim, é alvo de todos os esforços para que gere herdeiros e dê continuidade à descendência do marido. Seus filhos brancos vão tocar os negócios da família, além de atestar a virilidade do pai e o bom cumprimento da função da mãe. Por isso, em torno da gestação da mulher branca se cria um universo de fantasia, para torná-la uma função atraente. Impera o discurso de que é uma fase plena, composta por nove meses de pura felicidade, em que a mulher desfruta do privilégio de gerar uma vida – o que muitas vezes passa bem longe da realidade. O patriarcado impõe, a sociedade cobra, a igreja abençoa e assim se garante a continuidade do sistema.

Essa romantização da gravidez da mulher branca e de classes mais abastadas, além de desempenhar o papel de incentivar a reprodução da espécie, também tem a função de aprisionar e controlar seus corpos. A mulher branca grávida, dentro de uma sociedade machista e patriarcal, é quase uma santa: além de poder gerar uma vida (privilégio lido como uma capacidade milagrosa), ela também já pode carregar consigo o título mais recatado que uma mulher pode ter, que é o de mãe. Todo o estereótipo de pureza, perfeição e santidade que está arraigado no conceito de maternidade é colado nela automaticamente assim que se descobre a sua condição.

Não foi por acaso que Leila Diniz chocou a sociedade ao aparecer grávida e de biquíni em 1971: ali ela mostrou que por trás de uma barriga existe uma mulher. Grávida, sim, mas sem perder a sua sensualidade e sem vergonha de ostentar algo que é fruto, obviamente, de uma vida sexual ativa – algo impensável para alguém que já é mãe, né? Em pleno regime militar, onde o conservadorismo imperava com mão de ferro, uma grávida que ousava mostrar seu corpo publicamente não estava à altura da maternidade porque não se encaixava dentro da imagem de recato e assexualidade que se esperava dela (o que não mudou muito nos dias de hoje).

Assim, a mulher branca grávida costuma sofrer com a falta de informação sobre a gestação, que lhe é apresentada de forma totalmente deturpada, e com as pressões e cobranças que sofre para ser, desde aquele momento, uma mãe exemplar, dedicada, resignada, pura e casta.


 

A realidade das mulheres negras

 


Mas e quando se trata da gestação de uma mulher negra? Essa romantização persiste? Sem querer usurpar o lugar de fala das mulheres negras, não precisa fazer muito esforço para ver que não, né?

Corpos negros são vistos desde o Brasil-colônia como máquinas de trabalho. A escravidão nos deixou de herança a sua desumanização e a crença de que negros são fortes e suportam muito mais do que um ser humano poderia suportar. Logo, uma mulher negra grávida geralmente não está dentro do universo romântico que envolve a gravidez da mulher branca.

Primeiro porque os negros são maioria entre os mais pobres: uma pesquisa do IBGE divulgada em 2019 mostrou que eles são 75% entre os que têm menores rendimentos no país. Na pirâmide salarial, as mulheres negras são as que ganham menos, independente do seu grau de instrução, como apontam pesquisas realizadas em diferentes épocas. Portanto, a sua condição financeira lhe coloca numa realidade totalmente diferente, na qual é necessário exercer trabalhos mais pesados e insalubres muitas vezes até o dia de dar à luz.

A mulher negra grávida, em geral, não possui plano de saúde, não tem acesso a um pré-natal adequado, não pode tirar férias ou licença médica nos meses mais difíceis da gestação, não é alvo da complacência de patrões nem da sociedade. Dentro do sistema machista e racista que nós vivemos, seu corpo é visto como um corpo que tem que trabalhar e as dificuldades típicas da gravidez são nele desconsideradas, já que ainda existe a cultura de que a mulher negra é forte e resistente. Além disso, sobre elas também recai o estigma da pobreza, que torna a sua gestação socialmente condenável – porque pra muita gente, pobre não tem que ter filho e se engravida é porque é irresponsável. Muitas vezes parece que, para a mulher negra, o sonho da maternidade, o direito de comemorar a gestação, de planejar sua família e até de sentir as dificuldades que toda mulher grávida sente lhes são negados.

Mas as diferenças não param por aí: mulheres negras morrem mais que as brancas em decorrência de complicações na gestação, já que muitas vezes não possuem acompanhamento médico adequado. Elas também são mais atingidas pela violência obstétrica, justamente por causa do mito de que são mais resistentes. Com frequência elas têm medicamentos, procedimentos e até atendimento negados nas instituições de saúde com base nessa crença absurda, conforme mostra essa matéria da revista Crescer.

Nesse contexto, dá pra perceber que existe uma diferença enorme entre uma mulher branca grávida e uma mulher negra grávida. Enquanto uma sofre com o excesso de romantização, a outra sofre com a invisibilidade da sua gestação – o que, obviamente, traz danos muito maiores, já que aumenta o índice de mortalidade materna. Mas em ambos os casos, é possível perceber que a visão da sociedade sobre a gravidez é bem distorcida e precisa de uma atualização urgente!


 

Na vida real é diferente


 

Gravidez não é doença – não é o que costumam dizer? Mais ou menos. De fato, não é doença, mas em muitos momentos nos sentimos como se estivéssemos doentes, sim. Ficamos debilitadas, mais frágeis, com muitas limitações. O nosso corpo está gerando outra vida e isso exige uma sobrecarga de trabalho nunca antes exigida. É claro que a nossa energia e a nossa disposição não serão as mesmas, independente da cor da pele. Para a maioria das mulheres, não tem como manter o ritmo e a produtividade, por isso as suas atribuições em casa e no trabalho precisam ser adaptadas. Daí vem a necessidade de se discutir mais e conscientizar os homens em relação a esse assunto, pois muitos companheiros não levam isso em consideração e os empregadores costuma ser impiedosos com as grávidas, como se quisessem compensar os meses em que elas estarão de licença-maternidade.

É preciso desenvolver um olhar mais atento e realista para a mulher grávida, expurgando também o racismo que impregna esse olhar sobre boa parte das gestantes. Ainda não há um debate público fortalecido o suficiente para informar à sociedade o quanto a gravidez pode ser difícil e limitadora para a mulher. Muitas vezes só aprendemos isso quando passamos pela experiência e a maioria dos homens não faz a menor ideia do que enfrentamos, agindo muitas vezes de forma rude, desrespeitosa e até violenta. Já ouvi gente comentar no metrô que não ia ceder seu lugar para nenhuma grávida, pois a mulher engravida porque quer. Também já ouvi relatos de mulheres que tiveram que exercer trabalhos pesados durante a gestação, sem nenhum tipo de compreensão por parte dos patrões. Atitudes como essas só demonstram o tamanho da ignorância que ainda paira na sociedade quando o assunto é gravidez. Ainda que existam leis para resguardar os direitos da gestante, frequentemente elas são ignoradas, o que comprova mais ainda a necessidade de conscientização – além de mais rigor na aplicabilidade dessas leis.

É importante que as pessoas saibam que mulheres grávidas não são santas nem assexuadas, elas continuam sendo mulheres e suas necessidades não deixam de existir. Também não estão vivendo uma fase de plenitude e felicidade total. Seus corpos estão trabalhando muito e, mesmo que seja uma gravidez planejada e desejada, ainda assim ela pode gerar muito sofrimento. A gravidez não deve, jamais, ser invisibilizada, pois durante nove meses é ela quem vai determinar a disposição, a força, o ritmo e o humor da mulher, afetando todas as áreas da sua vida. Corpos negros padecem tanto quanto os brancos e desconsiderar as dificuldades da mulher negra grávida é uma violência contra ela e contra a criança que está sendo gerada.

Se como cristãs e cristãos acreditamos que a base da sociedade é a família, não podemos reforçar um olhar adoecido sobre a gestação, que é uma fase tão importante para as mães e para o desenvolvimento da saúde física e mental dos bebês. Mais respeito, mais empatia, menos romantização e menos indiferença. Só assim poderemos ajudar a tornar a gravidez uma fase mais leve e mais segura para todas as mulheres.



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