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Reflexões sobre trabalho e um sistema que nos oprime

Cena do filme "Tempos Modernos", de Charles Chaplin (1936)

Ao final da primeira semana da quarentena, percebi como as coisas que eu precisava comprar naquele mês ficaram desnecessárias de repente. Nesses vinte dias que estou em casa, pude constatar algo de que já desconfiava, mas nunca tinha parado pra racionalizar: boa parte dos meus gastos e necessidades estão diretamente relacionados ao trabalho. Então comecei a refletir sobre esse sistema de super-exploração em que vivemos.

Como sou jornalista de rádio e TV, uma parte considerável do meu salário vai para comprar roupas, sapatos e maquiagem para trabalhar. Não, não é drama nem futilidade. As pessoas pensam que jornalista de TV tem muitas regalias, usa roupas emprestadas e tem maquiador, mas a realidade é bem diferente. Essas regalias são restritas às estrelas, a maioria dos repórteres usa suas próprias roupas e faz sua própria maquiagem. E por mais que a gente tente economizar não comprando marcas nem grifes famosas, o custo é alto! Sem contar com cabelos e unhas, que têm que estar sempre arrumados. Eu não gosto de salão e faço tudo em casa, mas ainda assim perco uma parcela relativamente alta de tempo e dinheiro com cremes de cabelo, esmalte, secador, prancha e todo o aparato para a auto-produção. Não estou reclamando da minha profissão, não, eu adoro! Mas em muitos momentos me vejo pagando pra trabalhar e sei que isso não acontece só comigo – todas as profissões têm seu custo, em alguma medida. Todo mundo paga alguma coisa pra trabalhar e isso não faz sentido algum!

Além dos gastos financeiros, o tempo é uma coisa que pesa bastante! O sistema capitalista nos obriga a trabalhar oito horas por dia, só que se pararmos pra analisar bem, não gastamos apenas oito horas com o trabalho. Tem o tempo que a gente passa se arrumando pra sair, o tempo de deslocamento e ainda o tempo que a gente gasta preparando as coisas pro dia seguinte (separando e passando roupa, preparando marmita etc.). Pra mim, que moro perto do trabalho, são em média onze horas do meu dia dedicadas a ele. Quem mora longe e ainda tem que enfrentar trânsito, gasta muito mais. Essa quantidade imensa de horas que a gente perde para o trabalho todos os dias significa perda de vida. Se o dia tem 24 horas e pelo menos onze a gente gasta com ele, considerando que temos que dormir também, nos sobram, no máximo, seis horas para fazer tudo mais que precisamos: cuidar da casa, dar atenção aos filhos, ter momentos de lazer, estudar, ir ao médico, resolver problemas, fazer atividade física, ir à igreja etc.. Aí muitos coachs costumam dizer: “ah, mas seis horas é muito tempo, se você se organizar consegue fazer muita coisa!”. Mas considere que essas seis horas que nos restam são residuais, é o que sobra quando se tira o trabalho e a noite de sono. São horas em que normalmente já estamos cansados porque gastamos toda a nossa energia e criatividade nas oito horas que passamos trabalhando. Logo, é um período em que fatalmente estaremos menos dispostos até para as atividades mais prazerosas.

Diante disso tudo, como manter a empolgação com a profissão, por mais que você goste do que faz? É impossível não pensar que estamos desperdiçando nossas vidas! Na teoria, precisamos de um trabalho pra nos sustentar e ter independência financeira pra fazer as coisas que gostamos. Mas na prática, temos um trabalho que suga as principais horas da nossa vida e nos faz ter gastos para mantê-lo. Em vários momentos já me perguntei se trabalho pra viver ou se vivo pra trabalhar. Isso é injusto, desumano e desnecessário.




Não precisa ser assim

 


Há dois anos li um livro que marcou a minha vida e fez aumentar ainda mais a minha revolta com esse sistema de exploração: O Ócio Criativo, de Domenico De Masi. Neste livro o autor mostra claramente que o capitalismo, além de ganancioso, é burro, porque tem como premissa botar o trabalhador para produzir pelo máximo de tempo possível para aumentar seus lucros o máximo possível. Só que na realidade o efeito é contrário: uma pessoa obrigada a trabalhar oito horas por dia ou mais (se considerarmos as horas extras e os trabalhos precarizados) não produz por esse tempo todo. Já é comprovado cientificamente que nosso cérebro não aguenta, é cansativo e a gente sente necessidade de parar e distrair um pouco. E isso vale também para quem faz trabalhos considerados braçais.

Portanto, das oito horas que passamos no trabalho, quando conseguimos realmente produzir durante cinco delas, já é muita coisa! No resto do tempo a gente faz algo que todo mundo sabe muito bem: procrastina. Conversa com os colegas, olha as redes sociais, responde whatsapp, vai ao banheiro e leva vinte minutos lá, sai pra comprar um lanche, para pra ler um jornal… e tudo isso não é porque somos indolentes, não. É porque realmente o nosso corpo não dá conta de tanto tempo trabalhando sem parar. E se o trabalho exigir concentração e criatividade, pior ainda. O cérebro para e tem momentos que a gente simplesmente não consegue pensar em nada! Mas como temos que cumprir as nossas oito horas, ficamos lá, olhando pro relógio e torcendo pra passar rápido. Tendo que repetir essa saga diariamente, a maioria das pessoas acaba desenvolvendo uma certa aversão ao trabalho e tem gente que até adoece (não por acaso a sexta-feira é o dia mais esperado da semana. Por que será?).

No livro, Domenico De Masi comprova com dados e estudos que quando a jornada do trabalhador é reduzida e ele tem mais tempo para se dedicar à família e às atividades que lhe são prazerosas, ele passa a ser mais criativo, mais proativo e mais dedicado ao trabalho. A lógica é simples: se o seu trabalho lhe permite levar os filhos à escola, dar mais atenção à família e até ter momentos de lazer durante a semana, você terá um cérebro mais oxigenado, estará mais exposto a situações que estimulam a criatividade e tudo isso, logicamente, será refletido na qualidade do serviço que você presta. De Masi exemplifica dizendo que grandes insights e até soluções para problemas na empresa são obtidos fora do ambiente de trabalho, nos momentos de folga ou nas férias. É quando o trabalhador está relaxado, sem pressão, que ele consegue, até sem querer, ter as melhores ideias. Quem nunca viveu isso?

O Ócio Criativo mostra que, para uma empresa ter mais lucros, ela precisa diminuir a jornada dos seus trabalhadores e permitir que tenham mais tempo de ócio. Como consequência, eles ficarão mais satisfeitos por não viverem uma vida sobrecarregada, serão mais objetivos em sua rotina de trabalho (já que a jornada será menor) e ainda serão mais criativos, por terem um tempo maior para o lazer e o descanso. No entanto, a maioria dos países vai na contramão disso tudo, obriga as pessoas a passarem o dia todo no trabalho (mesmo que não estejam, de fato, produzindo o dia todo), paga mal e desconsidera suas necessidades humanas. Com isso, gera insatisfação nos funcionários e estimula, assim, práticas de procrastinação, absenteísmo (faltas em excesso) e descompromisso.

Então por que ainda se insiste na super-exploração do trabalhador, já que ela é contraproducente? Apesar de dar algumas pistas, o livro não responde essa pergunta, mas coloca a cultura do presenteísmo como algo muito forte e difícil de quebrar. É complicado convencer um grande empresário de que seus funcionários lhe darão mais resultados se trabalharem duas ou três horas a menos por dia. Por mais que existam estudos que apontem isso, poucas empresas têm a coragem de colocar em prática.

Na minha opinião, acredito que existe também uma necessidade egocêntrica de controlar as pessoas e de submetê-las a uma rotina exaustiva, para deixar bem claro que existe uma diferença abissal entre ricos e pobres, entre empregadores e empregados. A desigualdade é a base sólida do capitalismo, só por meio dela que ele consegue se manter. Logo, não há interesse em proporcionar qualidade de vida para os menos favorecidos – isso é privilégio de poucos e precisa ficar bem explícito quem é quem.

Também acredito no trabalho como forma de alienação e certamente esse é o principal motivo para manter os trabalhadores numa jornada extensa. Uma pessoa cansada demais, que trabalha muito pra ganhar pouco e sobreviver, não tem tempo nem energia para prestar atenção na política, se engajar em causas sociais e até mesmo problematizar a situação de exploração em que sem encontra. É aí que está a chave da questão: enquanto estamos ocupados demais tentando botar comida na mesa, canalhas ocupam os postos mais altos do nosso país e nos roubam dinheiro, direitos e dignidade.

O que podemos fazer pra mudar isso? É um caminho complexo que ainda estamos tentando trilhar. Mas de uma coisa eu tenho certeza: pensar e se divertir são dois atos revolucionários. Não deixe isso de lado. Pense. Consuma cultura. Se divirta. Já é um bom começo pra começarmos a questionar com mais força o sistema que nos oprime.




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