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Raul Seixas leu Eclesiastes?

Deixando um pouco de lado todas as polêmicas e escândalos que envolvem o nome do cantor Raul Seixas (principalmente no meio evangélico), gostaria de trazer aqui o que considero uma obra-prima da música brasileira, cuja semelhança com o livro de Eclesiastes me chamou a atenção há alguns anos.

Ouro de Tolo é uma música que escancara a insignificância humana. Além disso, ela faz uma crítica contundente ao fato de gastarmos uma vida inteira construindo coisas que, ao final de tudo, percebemos que não têm lá tanto valor. É o que o Pregador de Eclesiastes chama de “correr atrás do vento” (Ec. 4:4). Parece uma música autobiográfica, feita num momento de desânimo do cantor ao se deparar com a realidade dos fatos:

 

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome
Por dois anos aqui na Cidade Maravilhosa

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto “E daí?”
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

 

Até aqui ele lista diversas coisas que conquistou ao longo da vida e que, aos olhos humanos, são um grande passo para a felicidade: um emprego, um salário alto, uma carreira de artista consolidada, um carro valorizado, uma casa em bairro nobre. Quem não seria feliz com tudo isso? Mas aí ele indica que o que os outros consideram “vencer na vida” para ele é uma piada perigosa, provavelmente porque percebeu que prosperidade material não é sinônimo de ser um vencedor. Depois de tanto batalhar para conquistar seu lugar ao sol, Raul se decepcionou por constatar que isso não é tudo. Conseguir bens materiais e sucesso é relativamente fácil – e efêmero.

Curioso é que essa constatação também dá a tônica do livro de Eclesiastes. O Pregador passa o livro inteiro mostrando o quanto o dinheiro e a prosperidade material são preocupações ilusórias, cuja plenitude nunca conseguimos alcançar: “Quanto mais se tem, mais se gasta. Qual é, então, a vantagem da riqueza senão ver o dinheiro fugir rapidamente de nossas mãos?” (Ec. 5:11). Ele também fala que buscar muito conhecimento é uma ilusão: “Não há limite para fazer livros e o muito estudar é enfado da carne.” (Ec. 12:12). O resumo de tudo isso está no início do livro, em Eclesiastes 2:11:

 

Contudo, quando vi tudo que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforcei a realizar,  compreendi que tudo era uma ilusão! Era como correr atrás do vento! Não havia nenhum proveito nisso debaixo do sol.

 

Quanta semelhança, não? Mas Raul continua sua música:

 

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal

E você ainda acredita
Que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

 

Aqui ele critica severamente a nossa vaidade: não somos nada, somos limitados, não conseguimos sequer usar toda a nossa capacidade intelectual e mesmo assim acreditamos ser muito importantes! Em Eclesiastes, a vaidade também é criticada. A tradução mais usual traz a palavra vaidade no lugar da palavra ilusão, de modo que o Pregador afirma claramente: “Vaidade de vaidade, tudo é vaidade” (Ec. 1:2; Ec. 12:8). Em diversas partes do livro, podemos perceber o quanto a vaidade nos move e o quanto perdemos tempo por causa dela: “Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Ec. 1:14).

Se por um lado Raul nos afirma o quão insignificantes somos, Eclesiastes também nos choca com essa insignificância, mostrando a fragilidade de um corpo que não resiste à ação do tempo:

 

Os seus olhos ficarão tão fracos que não poderão perceber a luz do sol, da lua e das estrelas. […] Os seus braços, que sempre o defenderam, começarão a tremer, e as suas pernas, que agora são fortes, ficarão fracas. Os seus dentes vão cair e você não poderá mastigar direito […]. Você ficará surdo e não poderá ouvir o barulho da rua. […] Os seus cabelos ficarão brancos e você perderá o gosto pelas coisas. Então você irá para o seu lar eterno e os pranteadores o seguirão pelas ruas. (Ec. 12: 2-5)

 

Por fim, Raul encerra a música dizendo:

 

Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

 

Há muita controvérsia sobre o real sentido deste trecho final, mas eu particularmente acredito que ele tem a ver com o fato do cantor não querer se conformar com uma vida ensimesmada e egoísta, voltada para o seu próprio bem estar. É quase que um reforço da frase dita antes: “Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado”. E foi justamente essa busca por coisas grandes que levou o Pregador a escrever o livro de Eclesiastes. Ele buscou conhecimento, sabedoria e riquezas, mas viu que nada disso tinha valor e concluiu: “tema a Deus e obedeça seus mandamentos. Isso é o resumo do que o homem deve fazer.” (Ec. 12:13).

O livro de Eclesiastes, assim como a música de Raul, nos dá um choque de realidade e nos faz colocar os pés no chão. Ambos nos fazem refletir sobre o que temos feito com a nossa vida. Será que temos investido nosso tempo e nossa energia em coisas que realmente têm valor?

 A despeito de todas as interpretações que possam fazer dessa composição, acredito que ela tem muita semelhança com o conteúdo de Eclesiastes, esse livro misterioso mas ao mesmo tempo tão real e profundo. E é interessante notar como um artista secular, aparentemente tão distante das coisas de Deus, conseguiu escrever uma letra tão próxima daquilo que foi revelado num livro sagrado. Por isso, sempre que eu escuto essa música me vem à mente a mesma pergunta: será que Raul leu Eclesiastes?

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