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Ao cunhar essa expressão em um dos seus mais famosos poemas, talvez Carlos Drummond de Andrade não imaginasse que ela faria cada vez mais sentido com o passar dos anos. “Os ombros suportam o mundo” é uma poesia que serve muito bem para traduzir um problema que tem crescido assustadoramente em nossa sociedade: a depressão.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, a doença atinge 322 milhões de pessoas no mundo e é a principal causa de morte por suicídio, com aproximadamente 800 mil casos por ano. No Brasil, a depressão afeta 5,8% da população, o que lhe garante o primeiro lugar no ranking de países mais afetados da América Latina. Considerando todos os países das Américas, somos o segundo mais deprimido, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Saindo das estatísticas para a experiência empírica, há um bom tempo me impressiona a quantidade de pessoas próximas a mim que têm desenvolvido depressão. Não raro são pessoas que eu imaginava imunes à doença pela sua leveza, sabedoria e alegria de vida. Certamente eu não sou a única que tem se surpreendido com isso e a vivência tem me mostrado que não existe imunidade.

 

“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem”

 

Os males do mundo estão aí e só se agravam: desigualdade social, violência, corrupção, preconceitos, dias exaustivos de trabalho, exigência de produtividade, pouco tempo para as pessoas queridas, solidão, alienação, falta de amor… ficamos presos em nossa rotina de obrigações e parece não sobrar tempo pra mais nada – “as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco”.  Em meio a tudo isso, ainda temos que suportar as pressões sociais para que sejamos “normais”, bonitos, felizes e bem sucedidos.

Talvez não seja algo que se perceba à primeira vista, mas o estilo de vida que temos levado é enlouquecedor. A nossa sociedade está doente e seus valores provam isso todos os dias. Numa afirmação profética, Drummond disse que “prefeririam (os delicados) morrer”, quase que prevendo os altos índices de suicídio que teríamos hoje. Mas ele mesmo sentenciou: “Chegou um tempo em que não adianta morrer”. A morte não é uma solução pra este mundo sem amor.

 

E Deus no meio disso?

 

Não quero aqui, de forma alguma, reduzir a depressão à falta de Deus, como fazem muitos religiosos por aí. Depressão é doença e como tal precisa ser tratada. Mas creio que o surgimento desse ambiente que vivemos hoje, propício para a epidemia depressiva, passa, sim, pela falta de temor e conhecimento de Deus.

Nesse mundo de angústias, a medicina trata do corpo e da mente, mas só Deus pode tratar da alma. Diante de um quadro de depressão, é preciso encaminhar para um tratamento médico e psiquiátrico adequados, mas também apontar para um caminho que ofereça consolo e libertação à alma. E é aí que entra a nossa missão de apresentar o Evangelho restaurador que nós conhecemos. E como o Evangelho é, acima de tudo, prático, não podemos nos deixar aprisionar pela dura rotina de obrigações, usando a falta de tempo como desculpa: devemos seguir o exemplo de Jesus e consolidar nossas relações, estar atentos aos que estão à nossa volta, nos dedicar mais às pessoas, reconstruir os laços quebrados… dar valor não só à nossa vida, mas também à vida do outro, como Ele deu.

Foi Jesus quem disse “venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados e eu lhes darei descanso” (Mt. 11:28). Mas quantas pessoas sabem disso? Quantas pessoas sabem que Ele foi enviado para consolar os que estão com o coração quebrantado (Lc 4:18)? Que Ele prometeu estar conosco todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28:20)? Quantos sabem que o Evangelho é boa nova de salvação e que tem poder restaurador? Muitos ainda não sabem. Cabe a nós, cristãos, oferecer esse refrigério à alma de quem mais precisa – e o amor é o caminho. 

Não há problema maior do que a força que Deus tem para nos dar. “Peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam e a porta se abrirá” (Lc 11:9). Somente com Deus ao nosso lado podemos perceber que, mesmo quando “os ombros suportam o mundo”, “ele não pesa mais que a mão de uma criança”.

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