Instinto sexual masculino X autocontrole feminino
11 de janeiro de 2017
O milagre do “casamento-cura-tudo”
24 de janeiro de 2017

Já faz alguns anos que eu venho percebendo o quanto a igreja manipula Deus e faz um mau uso de Sua Palavra para garantir certos privilégios a poucos. Isso acontece em vários vieses, mas é na questão de gênero que essa manipulação ganha a sua fantasia mais caprichada. As mulheres evangélicas têm sofrido caladas com um discurso sexista que predomina dentro de nossas igrejas, mas o pior de tudo é que muitas vezes elas nem sabem que seu sofrimento é oriundo desse tipo de discurso.

Desde adolescente eu ouço de pastores e líderes pregações que ensinam sobre o papel da mulher na família, na igreja e na sociedade. Esses ensinos são repetidos exaustivamente como se fossem algo que devemos aprender e obedecer cegamente porque são “bíblicos”, mas na verdade não passam de manipulação barata do Evangelho e distorção da Palavra de Deus para nos colocar “em nosso lugar”. Quantas vezes você já ouviu na igreja que a mulher deve ser submissa (no pior sentido da palavra)? Quantas vezes já ouviu que a mulher deve abrir mão da sua vida profissional para se dedicar aos filhos e ao marido? Que ela é a responsável pelo sucesso do seu casamento, independente da postura que o seu marido assuma? Quantas vezes já ouviu pregações inteiras dedicadas a regulamentar as vestimentas femininas para que estas não levem os “pobres homens indefesos” a pecar? E quantas vezes já foi ensinada a como se comportar como “mulher de verdade” (o que muitas vezes se resume a “seja passiva e obediente”)? Eu poderia citar aqui inúmeros exemplos de como a nossa dignidade e o nosso valor enquanto seres humanos é ferido diariamente em nossas próprias igrejas, seja por líderes, seja por irmãos com quem convivemos.

É muito doloroso constatar que a igreja evangélica, da qual eu faço parte, dedica boa parte do seu tempo para reforçar as relações de dominação entre homens e mulheres, coisa que já é feita tão brutalmente pelo mundo secular e que deveria estar sendo desfeita por nós, conhecedores da Verdade (afinal, o que queremos não é viver na contramão do mundo, como Jesus nos ensinou?). E é mais doloroso ainda perceber como esse discurso de dominação da mulher é travestido de honra, para nos fazer pensar que aceitar sermos subjugadas pelos homens é algo glorioso, divino, um cumprimento do propósito de Deus. Prova disso é o famoso chavão da “mulher virtuosa” que as igrejas manipulam tão bem. Ora, qual de nós não quer ser reconhecida como uma mulher virtuosa? O problema é que para alcançar esse título precisamos seguir a cartilha machista da igreja. E infelizmente ela tem conseguido empurrar essa cartilha goela abaixo para muitas de nós, que a aceitam com a felicidade de quem recebe um prêmio.

No entanto, eu me alegro quando leio a Bíblia e vejo que o que está lá é o oposto do que pregam nas igrejas, pois Jesus nunca discriminou as mulheres. Ele andava com elas, curava, ensinava e perdoava da mesma forma como fazia com os homens, deixando bem claro que Deus não faz acepção de pessoas. Jesus defendeu uma mulher pega em adultério quando a lei dizia que ela deveria ser apedrejada (Jo 8:1-11). Sendo judeu, Ele conversou com uma mulher samaritana quando todos os homens judeus da época consideravam que elas eram indignas (Jo 4:5-30). Jesus condenou o divórcio (Mt 19:3-12) para defender as mulheres da arbitrariedade dos homens, que se divorciavam por qualquer motivo, deixando a esposa à míngua numa época em que mulher divorciada valia menos do que um saco de lixo (sim, foi por isso que Jesus pregou contra o divórcio, e não para oprimir a mulher num casamento destruído, como fazem os fariseus de hoje). Quando Jesus ressuscitou, foi a duas mulheres que Ele se revelou primeiro (Mt 28:1-10). Enfim, o Novo Testamento está cheio de passagens que mostram que Jesus veio para valorizar a dignidade da pessoa humana, independente de sexo.

É muito cruel quando uma mensagem de libertação como a do Evangelho é deturpada para favorecer interesses mesquinhos de supremacia de gênero. É uma afronta usar Deus como justificativa para subjugar e desvalorizar as mulheres dentro da igreja que Ele próprio instituiu. Gloria Josefina Viero, em sua tese de doutorado intitulada Inculturação da fé no contexto do Feminismo, chama isso de “ideologização da experiência de Deus” e explica de uma forma bem elucidativa:

 

“A ideologização da experiência de Deus se dá quando ela é encaminhada para estabelecer e sustentar relações de dominação e subordinação em circunstâncias particulares. É próprio da ideologia ocultar a dominação, fazendo com que ela seja assimilada no senso comum, tornando-a ‘natural’. Não só se estabelecem relações de dominação e subordinação entre classes, como enfatizou Marx, mas também entre os sexos, entre os grupos étnicos e outros.”

(Inculturação da fé no contexto do Feminismo, p. 70)

 

Portanto, apesar de estarmos tratando neste texto apenas dos interesses de gênero, essa ideologização da fé serve também a interesses outros, marcando, por exemplo, a exploração de uma classe pela outra, a legitimação dos brancos no poder e a exclusão dos negros, além de muitas outras aberrações que também acontecem na igreja.

Precisamos aprender a deixar a ingenuidade de lado e nos defender. Não podemos mais permitir que a Palavra de Deus seja usada para estabelecer uma relação de dominação de um grupo sobre o outro, afinal, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão.” (Gl. 5:1)

1 Comentário

  1. Júlia blakeney disse:

    Maravilhoso. Tô AMANDO seu blog. Continue.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *