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Com certeza você já ouviu a expressão “princesa do Senhor” numa referência a nós, mulheres. É muito comum sermos chamadas de princesas no meio evangélico e esse é um jargão muito batido por pastores, lideranças midiáticas, cantoras e pessoas de expressividade no segmento cristão. Talvez para algumas possa soar como um elogio e eu também já acreditei nisso um dia. Mas hoje entendo que vai muito além de um simples elogio: é uma cobrança.

Vamos voltar à nossa infância e lembrar quem eram as princesas? Eram mulheres que chamavam a atenção pela sua beleza (e beleza aqui quase sempre quer dizer ser branca e ser magra). Elas representavam o lado bom das histórias, mas essa bondade estava estreitamente vinculada à passividade, a uma atitude de constante obediência (lembram da Cinderela?) e à falta de iniciativa. As princesas não tinham opinião e eram bastante vulneráveis, precisavam ser cuidadas, protegidas, para que nenhum mal lhes atingisse (lembram da Bela Adormecida e da Branca de Neve?). O ápice de suas vidas era quando aparecia um príncipe encantando, que se apaixonava e se casava com elas. E aí a história acabava, porque o que poderia acontecer de melhor na vida de uma princesa era casar-se com um príncipe. Depois disso não tinha mais nada de relevante pra contar.

Interessante que esse perfil das princesas é muito semelhante ao perfil que o patriarcado quer de nós: fracas, manipuláveis, obedientes, mas sobretudo bonitas, pois essa é a característica que importa nas mulheres. É como se nos dissessem “preocupem-se com sua beleza e deixem o resto conosco”. Não é à toa essa obsessão pela aparência que vivemos nos dias de hoje – é uma forma de nos manter ocupadas para que deixemos de participar do que realmente importa, como já falei aqui e aqui.

Então quando nos ensinam nas igrejas que somos “princesas do Senhor”, é exatamente isso que esperam de nós: que adotemos essa postura apagada e subserviente, sem esquecer, claro, de cuidar da aparência. Quando dizem que somos princesas, não estão exatamente querendo nos dar um lugar de realeza, não estão falando da nossa importância e muitas vezes nem da nossa beleza. Estão nos cobrando uma postura de subalternidade, de obediência ao masculino, de não questionamento, de dependência.

Mas há ainda um outro fardo carregado pelas princesas: a perfeição. Quando nos classificam como uma, estão também nos dizendo que querem que sejamos perfeitas como elas. Claro que a perfeição patriarcal abrange as características de passividade de que tenho falado aqui, mas compreende também a ausência absoluta de defeitos. E quem não tem defeitos? Nos colocar num altar de adoração é também uma forma de cobrar um comportamento e uma personalidade “ideais”, os quais nunca poderemos alcançar. Por que será que não ensinam aos homens que eles são “príncipes do Senhor”?

No nosso imaginário infantil, ser chamada de princesa era o maior dos elogios. Mas no mundo adulto, será que isso é tão bom assim? Fale a verdade: você se acha parecida com uma princesa?

Talvez seja melhor que esses devaneios de realeza fiquem somente nos sonhos de infância mesmo, pois na vida real não existe mulher perfeita, não é bom para nós que sejamos tão frágeis, passivas e dependentes e, é claro, não existem príncipes encantados. Portanto, não somos “princesas do Senhor” – somos filhas de Deus, com todos os nossos defeitos e qualidades. E Ele nos ama como somos.

4 Comentários

  1. Daiane disse:

    Post esclarecedor, eu na verdade não sabia o porque sempre me senti incomodada com esse termo “princesa do senhor”, na verdades sempre senti mais como uma cobrança do que um elogio e aqui no seu blog eu pude perceber que não sou só eu que não gosto desse termo que mais se parece com uma imposição, pois vejo esse termo ser usado por lideranças evangélicas populares na Internet de maneira se posso dizer assim irresponsável. E pelo visto esse tipo de pensamento incomoda aqueles que querem nos submeter a um padrão de comportamento que excluí totalmente nossas individualidades e que nada tem haver com nossos direitos e responsabilidades como filhas de Deus, apenas nos adequando a padrões “mundanos” de como devemos ser e nos comportar.

  2. Olá, Bruno!
    Obrigada pelo comentário. Apesar de não concordar com você, respeito sua opinião e agradeço as críticas construtivas. Minha maior preocupação sempre foi embasar meus argumentos na Palavra, com as devidas interpretações contextuais, pois não quero desvirtuar ninguém (ao contrário, quero mostrar que o Evangelho é muito mais do que o que fazem dele, é libertador, e não aprisionador). Não tenho raiva nem aversão aos homens, muito pelo contrário, inclusive sou casada há quatro anos e vivo muito bem com meu marido. Mas reconheço que alguns textos meus dão essa impressão, especialmente os mais antigos, que foram escritos bem antes de eu colocar o blog no ar. Com o tempo a gente vai amadurecendo e tenho tentado dosar meu estilo de escrita para melhorar isso, que também é uma preocupação minha (acredito que os mais recentes já não têm essa característica). Minha intenção não é, de forma alguma, promover o ódio, mas sim o amor e o respeito entre os iguais e diferentes. Agradeço mais uma vez sua contribuição. Abçs!

  3. Bruno disse:

    “Então quando nos ensinam nas igrejas que somos “princesas do Senhor”, é EXTAMENTE isso que esperam de nós:”

    Só esqueceu de citar que, NEM SEMPRE, é isso que esperam de vcs, como explicitamente dito no texto.
    Li uns 4 artigos seus e pude perceber que vc tem uma certa, digamos, talvez raiva, aversão aos homens, (ou pelo menos algo do tipo) não sei bem ao certo o que é, me desculpe, mas é sem dúvida a impressão que vc esta passando aos seus leitores. Peço que ore a respeito pra que Deus lhe mostre o que realmente é isso.

    A questão é que o sistema patriarcal existe e é bíblico! O que é óbvio não tem a ver com esse exagero masculino, vulgo machismo, que começou lá atrás e ainda restam resquícios.. E que se não fossem as mulheres lutarem contra esses exageros, vcs estariam até hoje presas a esses diversos e ridículos tabus.
    Veja, não estou dizendo que é errado ser feminista, estou dizendo que é errado ser feminazi (e ser feminazi não é só sair mostrando os peitos na rua, vc pode não fazer nada disso, mas suas ideias e conceitos serem totalmente iguais as dessas retardadas – retardada no sentido literal – ). Tem que ficar muito atenta.
    Também estou dizendo que é óbvio que não é certo ser ser patriarcal/machista. O correto é o patriarcalismo bíblico. O patriarcalismo deste séc XXI é que esta contaminado com esses homens sem Deus, sem seus valores. O patriarcalismo bíblico tem limites, e a Bíblia mostra quel é (não recorra ao antigo testamento e aqueles versículos isalados de que mulher tem que ficar alada na igreja e mais um monte de bla blas, por favor. Creio que vc entende isso, se não, vou ter que usar o aparelho de apagar memória do MIB e pedir pra vc começar a ler a Bíblia tuuudo de novo, dessa vez do jeito certo. Um cristão de verdade sabe que Jesus já transpassou o antigo testamento já fazem 2 mil anos)

    Patriarcalismo bíblico, ok.
    Feminismo, ok.

    Pseudo-Patriarcalismo (o não bíblico, exagerado e machista) FORA!
    Pseudo-feministas (as que lutam contra o machismo usando e impondo justamente os mesmos métodos que os machistas usam, ou seja: hipocrisia.) FORA também!

    Pelo que pude ver, na minha humilde opinião, a grande maioria que vc escreve esta corretíssimo, mas vc peca em alguns momentos quando exagera ou generaliza, tipo, ta faltando um pouquinho mais de Cristo (e calma) nas suas palavras.
    No mais, que Deus possa continuar te usando, e que minhas palavras não sejam interpretadas como afronta, e sim como conselho, crítica construtiva, de uma pessoa que ja estudou bastante a respeito e que é casado com uma feminista (correta) e cristã também. Me desculpe qualquer coisa, se falei ríspido ou algo errado..
    Deus te abençoe!

    Dois vídeos bem legais de apoio:

    https://youtu.be/k2Uf_ZDmLRc

    https://youtu.be/G-NP40m_M-Y

  4. Leilane. disse:

    Parabéns Isabelle, já escrevi sobre isso no meu facebook porque acho que este assunto é extremamente relevante. Influenciar as meninas para serem princesas só traz desgostos, pois não existem principes, não é verdade? Preparemos as nossas meninas para um mundo real a ser transformado por todos e todas nós!

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