Pai, afasta de nós esse “cale-se”!
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Uma vez fui a um casamento e ouvi o pastor pregar que os noivos teriam que ter filhos, senão eles não seriam uma família, seriam apenas um casal. Fiquei pensando nos casais ali presentes que não quiseram ou não puderam tê-los – certamente essa afirmação soou como uma ofensa ou, no mínimo, uma insinuação de culpa.

Quem é casada sabe que logo após o casamento uma das maiores cobranças que se faz é por filhos. É como se no inconsciente das pessoas houvesse uma sequência de tarefas que todo mundo tem obrigação de cumprir e rápido: namoro-noivado-casamento-gravidez. É quase como um “vai logo que se pensar muito não faz”.

Mas um dos conselhos mais valiosos que recebi na igreja antes de casar foi: aproveite seu casamento antes de ter um filho. Parece bobagem, mas não é. A vida de um casal recém-casado requer ajustes e adaptações, afinal, são duas pessoas diferentes, com históricos, hábitos e formas diferentes de pensar, além das novas responsabilidades assumidas. É importante que eles estejam sós para fazer esses ajustes, se adequar um ao outro e, claro, aproveitar a liberdade do casamento e da vida independente sem maiores preocupações. Um filho nesta fase inicial pode trazer algumas dificuldades que talvez o casal ainda não tenha maturidade para encarar, justamente pelo pouco tempo de vida conjugal. Filho muda completamente a rotina, diminui o tempo de dedicação a si e ao outro, além de ser bastante exaustivo nos primeiros anos. É sempre bom lembrar também que essa é uma decisão irreversível: não dá pra colocá-lo de volta no útero se as coisas começarem a dar errado. Logo, é preciso preparo (em todos os sentidos) e, claro, vontade.

Por outro lado, ter filhos não é uma obrigação pra todo mundo e Simone de Beauvoir já provou que o espírito materno não faz parte da essência feminina – tem mulheres que querem ser mães, mas tem outras que não querem e não tem nada demais nisso, como já falei aqui. Mas é difícil sustentar a própria vontade quando ela está na contramão das imposições sociais – e os casais sem filhos conhecem bem essa dificuldade.

Só que além da questão de querer ou não querer ter filhos, que é uma escolha de cada um, existe outro fator que se deve levar em conta: o tempo. Cada casal tem seu momento ideal para ter filhos, algo que não é definido por terceiros, mas única e exclusivamente por eles. Fazer cobranças não ajuda em nada – ao contrário, só incentiva que uma decisão tão importante seja tomada fora do seu momento.

Muitas pessoas não pensam na responsabilidade que é trazer uma vida ao mundo e cobram isso das outras como se fosse algo banal. Elas não querem saber se o casal tem estrutura, se tem preparo emocional, disponibilidade de tempo, vontade… parece que nada disso interessa mais do que o cumprimento de uma convenção social. Por isso, precisamos ter cuidado para não ceder a essas pressões e acabar agindo de forma precipitada. Na hora em que sentirmos o peso dessa responsabilidade, será que os “cobradores de filho” estarão ao nosso lado para ajudar?

O momento de ser mãe e pai é uma decisão do casal, nunca de alguém de fora. Também não é uma decisão da mulher, como muitos falam por aí, muito menos do homem – repito: é algo que tem que partir dos dois. Uma mulher que resolve engravidar sem acordo com o marido está cometendo um ato extremamente egoísta, obrigando o outro a assumir uma responsabilidade pra vida toda sem saber se ele está preparado. Da mesma forma, o homem que obriga sua esposa a engravidar está desrespeitando o seu corpo e a sua vontade, impondo essa decisão da pior forma possível. Em ambos os casos, essa violência contribui para a separação do casal e não raramente leva à rejeição do filho (que não tem nada a ver com a imaturidade dos pais, mas que acaba pagando o preço).

Para os casais que querem viver a maternidade e a paternidade, o momento ideal sempre vai chegar, sem precisar precipitar as coisas. É aquele momento em que os dois se sentem seguros para dar esse passo, quando sentem que a relação está fortalecida o suficiente pra trazer mais um membro pra família. É quando esse sonho deixa de ser um plano pro futuro e passa a ser um desejo pro agora, uma vontade sincera, uma expectativa que mal pode esperar pra virar realidade. Esse é o momento. Claro que a preparação material e financeira também contam, pois para além do sonho, existe um lado prático da coisa, que é o lado de que ter filho envolve custos. Mas de nada adianta poder oferecer berço de ouro se não existe a vontade de cuidar, de acompanhar o crescimento, de brincar junto, de levar pra passear… de ser verdadeiramente mãe e pai. E isso ninguém pode dar ao casal, é algo que tem que partir deles.

Como mulher, sinto na pele que essa cobrança pesa muito mais sobre nós do que sobre os homens. É como se houvesse uma legitimação tácita da ideia de que quem define a hora de ter filho somos nós. Não concordo com isso e jamais passaria por cima da vontade do meu marido, mas já ouvi muitos conselhos do tipo “não espere por ele, pois você tem um prazo pra engravidar”. Sim, é verdade, nós mulheres temos uma limitação biológica e não podemos adiar muito a maternidade. Mas isso não me dá o direito de violar o tempo do meu companheiro, ao mesmo tempo que não pode servir como justificativa para desprezar o nosso momento: queremos viver essa experiência, mas ainda não nos sentimos preparados. “Há tempo para todas as coisas debaixo do céu” (Ec. 3:1).

Por isso, acho importante reforçar a ideia de que não podemos ceder às pressões. Quem sabe da nossa realidade, das nossas deficiências e necessidades somos nós. Ter filhos é uma bênção que nos foi concedida por Deus, por isso não podemos permitir que essa bênção se transforme em um fardo, uma obrigação. Essa decisão tem que ser planejada, bem acordada entre o casal, para que a criança não venha a sofrer as consequências. Quando se fala em engravidar, é de uma vida que se está falando, não de uma festa para agradar aos outros. Pedir a Deus sabedoria para reconhecer a melhor hora e dialogar com o cônjuge a respeito são duas coisas essenciais antes de dar esse passo.

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