E se fosse com você?
16 de outubro de 2017
Pai, afasta de nós esse “cale-se”!
3 de novembro de 2017

Não se deixar levar pelas pressões sociais não é nada fácil. Elas existem para todos, mas para as mulheres parece que são mais intensas. É muita gente pra dizer o que é melhor pra nós, como se sozinhas não fôssemos capazes de decidir. Faculdade, casamento, filhos, emprego dos sonhos… todo mundo tem uma cobrança pra nos fazer. Muitas vezes a gente leva na brincadeira, mas nem sempre o nosso inconsciente leva, e aí fica aquela impressão de “será que eu tô errada?”. Então resolvi falar sobre isso aqui, na série Pressões Sociais, começando pela vida profissional.

Falando de mim

Tenho uma história privilegiada, confesso. Entrei na faculdade cedo, com 23 anos passei num concurso público e com 26 já tinha duas profissões. Mas isso não significa que tive uma trajetória tranquila e sem angústias, ao contrário do que muitos pensam.

As pressões sempre me cercaram desde muito cedo: “você vai estudar comunicação?”, “isso não dá futuro!”, “faça medicina!”. As pessoas insistem na ideia de que profissão boa é a que dá dinheiro e desprezam a vocação e a realização pessoal. Com a ousadia dos meus 17 anos, insisti: “vou estudar o que eu gosto. Dinheiro é consequência”. Sempre achei que quando a gente faz o que gosta não fica sem emprego – ilusão adolescente que eu tive que repensar mais tarde, pois a realidade do mercado de trabalho é bem cruel. Mas ainda assim não acho que pensar no dinheiro tenha que ser prioridade na escolha de uma profissão.

Fiz a primeira faculdade, de Relações Públicas, sob o olhar incrédulo de todos ao meu redor: “essa faculdade dela não presta pra nada!”. Comecei a ser pressionada a estudar pra concurso pra não ficar desempregada, mas nunca foi meu sonho trabalhar em órgão público. Sempre gostei da agitação da minha área e achava que seria o fim me enterrar no marasmo do serviço público. Mas quando me formei e recebi de presente o combo exploração + salário humilhante, me revoltei e passei a devorar livros pra passar num concurso. Cedi.

A faculdade de Jornalismo veio logo após minha formatura. “Outra faculdade na mesma área? Meu Deus, essa menina não aprende!”. Muitas vezes levava na brincadeira, mas outras vezes me faltava paciência: “por acaso é você quem tá pagando?”.

Passei num concurso para Relações Públicas e muitos mal acreditaram como eu tinha conseguido um emprego público numa área tão fraca. No começo, nem eu acreditei! Contrariando todas as expectativas, a minha faculdade “sem futuro” me deu alguma coisa, sim.

Admito que conquistei minha independência cedo graças ao concurso. Também pude terminar minha faculdade de jornalismo com tranquilidade, num emprego estável e que pagava minhas contas. E quando achava que ninguém mais ia se meter na minha vida, que finalmente eu ia fazer o que quisesse, as pressões mudaram de rumo: “você vai se acomodar nesse empreguinho?”, “estude pra um concurso melhor!”, “pra quê estudar tanto se você já tem seu emprego?”… É, as cobranças são muitas e são contraditórias. Não dá pra se livrar delas fácil assim.

Terminei meu curso de jornalismo e vieram mais: “agora você vai pro mestrado, né?”, “agora você tem tempo pra estudar pra um concurso bom!”, “não se acomode!”, “não se acomode!”, “não se acomode!”… estive a ponto de enlouquecer! A essa altura já não estava mais satisfeita com meu emprego e andava desesperada pra dar outro rumo à minha vida. Achei que o mestrado fosse me salvar, mas num processo doloroso de muito estresse, choro, cansaço mental e noites perdidas cheguei à conclusão de que estava errada e desisti. Não foi fácil tomar essa decisão, mas no fundo aquela ideia de adolescente ainda prevalece: não adianta fazer escolhas sem vocação.

Optei por uma especialização, que achei ser mais a minha cara. Mas agora, perto dos 30 anos, vejo a cobrança por filhos se intensificar assustadoramente – inclusive por parte de médicos. Quero ter filhos, mas quero ajustar minha vida profissional primeiro. Será que não tenho esse direito?

Tenho duas profissões que amo, mas não consigo exercê-las de modo eficiente e satisfatório no serviço público. Por outro lado, tenho medo de abrir mão dele e perder a independência que já conquistei. Fico me perguntando se terei mesmo de optar entre realização profissional ou independência financeira – por que não posso ter as duas coisas? Ceder às pressões do concurso não foi de todo mal, mas eu tive que abrir mão de algo valioso pra mim, que é a qualidade do meu trabalho. Sinto como se estivesse engessada, mas muitos não compreendem isso por achar que a estabilidade é o que importa. E aí voltam as cobranças: “você tá reclamando? Tem muita gente desempregada!”

Sim, eu sei que tem muita gente em situação ruim, mas isso não torna a minha situação ideal. E não, não estou reclamando. Apenas acho que não deveria me conformar com um emprego que não me traz realização. Afinal, somos obrigados a passar a maior parte de nossas vidas trabalhando, né? Mas quando falo isso, percebo que ainda sou vista como idealista, infantilizada, inocente. É como se quisessem me provar que a vida não é assim, que o que importa é ter dinheiro pra pagar as contas e sustentar os filhos, mas eu me recuso a acreditar que tenha que ser desta maneira.

Conclusões

Neste momento ainda estou buscando um caminho para tentar resolver meu drama profissional. Não sei se vou conseguir, mas algumas coisas eu aprendi:

1) O dinheiro quase sempre é o parâmetro para nos avaliarem como pessoas bem ou mal sucedidas. Infelizmente a nossa cultura capitalista condiciona todos a acharem que ter dinheiro basta, mas não! A Bíblia nos ensina que o nosso tesouro não está aqui na Terra (Mt 6:19-20) e a busca pelo dinheiro, além de nunca ter fim, ainda pode nos transformar em pessoas frustradas e solitárias. Não devemos cair nessa armadilha.

2) As pressões sociais nunca vão acabar, logo, temos que buscar discernimento e auto-conhecimento para não fazer somente a vontade dos outros e acabar transformando nossa vida num reality show, onde todo mundo pode opinar e decidir – menos nós.

3) As pessoas muitas vezes projetam na gente suas expectativas e frustrações, ainda que seja de forma bem intencionada, na tentativa de nos aconselhar para que não enfrentemos as mesmas dificuldades. Porém, como diz minha avó, “a sorte de Chico não é a de Francisco”. Não necessariamente o que foi bom para outras pessoas será bom pra mim, nem o que elas consideram como fracasso de vida será um fracasso em minha vida. É preciso ser forte para sustentar nossas escolhas que nos fazem bem, ainda que todo mundo ache o contrário.

E você, também enfrenta essas dificuldades em suas escolhas profissionais? Como tem lidado com elas?

1 Comentário

  1. CRISTIANE disse:

    Parabéns pela reflexão! Espero que encontre o equilibrio ideal para sua carreira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *