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Porta dos Fundos e a fúria controversa dos cristãos

A polêmica desta semana foi o lançamento na Netflix do especial de Natal do grupo de comédia Porta dos Fundos. Nas redes sociais não faltaram manifestos indignados com a falta de respeito dos comediantes e houve até uma tentativa de boicote ao serviço de streaming, incentivando os cristãos a cancelarem suas contas. Nada me surpreendeu – nem a ousadia do grupo, nem a reação dos cristãos.

O Porta dos Fundos surgiu em 2012 e de lá pra cá tenho acompanhado todos os vídeos. Os que faziam referência ao cristianismo sempre geraram polêmicas e muita indignação, em oposição aos que brincavam com o candomblé e com o islamismo, por exemplo, que passaram batidos (sim, eles já fizeram vídeo com o islamismo, pra quem não sabe). Eu nunca me senti ofendida com nenhum deles, ao contrário: eram pra mim os melhores, não porque desrespeitassem Deus ou algo do tipo, mas porque eram ácidas críticas aos cristãos e sua religiosidade hipócrita e utilitarista. Acho que o fato deles colocarem o dedo na nossa ferida, acertando em cheio nossos pontos fracos, nos incomoda muito mais do que qualquer blasfêmia da qual são acusados. Não gostamos de ver quem de fato somos e no que o cristianismo se transformou.

Quando eles começaram a fazer especiais de Natal, em 2013, achei divertido e criativo, na mesma pegada dos esquetes. Mas no ano passado, ao assistir o Se beber, não ceie, fiquei um pouco incomodada, sim, e senti que eles pesaram a mão. Não vi graça. Este ano, com toda essa polêmica envolvida (sem dúvida a maior que eles já causaram), não tive vontade de assistir ainda. Não que me incomode com um Jesus gay, como parece ter sido o maior problema de quem tem criticado. Mas a julgar pelo especial do ano passado, acho que eles tomaram um rumo que pra mim, enquanto cristã, não é legal. Continuo gostando e acompanhando o grupo no Youtube, mas como consumidora dos seus produtos, sei que eles acertam muito, mas também erram. Nem todos os esquetes são geniais e engraçados. Nem todos os especiais também. E tudo bem, vida que segue, ninguém consegue agradar a todos o tempo inteiro.

Mas toda essa discussão gerada em torno do especial esse ano me fez pensar que nós, cristãos, somos os principais responsáveis pelo fato da coisa ter chegado onde chegou. Quando começaram com esquetes alusivas ao cristianismo, eles sentiram a fúria dos cristãos se transformarem em… visualizações dos vídeos! Visualizações atraem anúncios e geram dinheiro. Como comunicadora, sei que muitas vezes a crítica negativa é a melhor propaganda, por isso muitos produtores, diretores de cinema e TV e principalmente youtubers vivem buscando um caminho para “viralizar” seu conteúdo, mesmo que seja de forma negativa, porque isso dá muito certo em vários casos. Logo, os cristãos alavancaram a audiência do Porta dos Fundos em vários momentos, com críticas nada razoáveis, em que se percebe facilmente que a mensagem não foi entendida – basta ler os comentários dos vídeos. Como falei antes, é difícil pra gente se ver no espelho e fazer uma autocrítica e o Porta dos Fundos sempre trouxe muito bem esse espelho realista da nossa religiosidade.

Gregório Duvivier, um dos integrantes do grupo, já chegou a afirmar em entrevistas que os esquetes que brincam com o cristianismo são os que alcançam maior número de visualizações facilmente. Pra quem é dono de um canal, isso é sucesso! Ver os acessos crescerem rapidamente, as pessoas compartilhando nas redes sociais (mesmo que seja falando mal) e os milhares de comentários que eles geram é o sonho de qualquer pessoa que queira ganhar dinheiro com o Youtube. Claro que diante desse resultado, eles vão investir cada vez mais nesse tipo de conteúdo. De esquetes de três, quatro minutos, passaram a fazer especiais de dezesseis minutos, que este ano chegou a 45! Adivinha quem ajudou na divulgação? Os cristãos, claro! E de graça!

Não quero entrar no mérito dos fanatismos e preconceitos envolvidos na indignação cristã contra o especial, até porque muitos já fizeram essa análise e muito bem. Quero apenas mostrar que o nosso fanatismo nos deixa tão cegos e burros que trabalhamos para alcançar o efeito contrário ao que queremos. Se tivéssemos simplesmente ignorado os esquetes ao longo desses anos, talvez eles não tivessem virado um especial da Netflix hoje. Se tivéssemos nos ocupando com coisas que são muito mais importantes para o cristianismo, como as questões sociais, por exemplo, não teríamos tempo para nos revoltarmos com as brincadeiras de um grupo de humoristas ateus. Nossas prioridades estão totalmente invertidas e é impressionante como não percebemos isso! Todo esse estardalhaço que gostamos de fazer com as pautas morais da igreja, deixando de lado questões primordiais, só prova que o Porta dos Fundos tem razão nas suas críticas! Que testemunho é esse que estamos dando?

Pra finalizar, quero deixar aqui três recados: 1º) a arte é livre, não podemos ser a favor da censura. Quem gosta, consome, quem não gosta, não consome e tem arte pra todos os gostos. Mas liberdade de expressão, sempre; 2º) o cancelamento da assinatura da Netflix por um grupo pequeno como forma de protesto não faz nem cócegas no faturamente deles; e por último, mas não menos importante: Deus tem mais o que fazer! Ele não tá nem aí pro que estão falando dEle e não precisa de defensores. O que Deus quer é verdadeiros adoradores, servos fieis que abracem sua causa e lutem pelas bandeiras que Jesus lutou. Temos feito isso?



1 Comentário

  1. Luzinete Fernandes disse:

    Parabéns, muito bom o texto. Concordo!!!

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