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Até bem pouco tempo atrás, quando parava pra pensar na minha carreira, eu sempre me via na posição de quem estava aprendendo. A percepção que tinha de mim mesma como profissional era a de uma pessoa esforçada que, apesar de ter diploma, estava tentando ser uma profissional de fato. Essa ideia vinha me acompanhando há anos e eu não me dava conta do quanto ela me sabotava profissionalmente. Mas há poucos dias, durante uma discussão na aula da pós, a ficha caiu: eu tenho dez anos de carreira! Por que falo de mim mesma como se fosse uma estagiária? Como num insight, percebi que estava muito enganada a meu respeito.

Tenho 30 anos de idade, já passei por quatro empresas diferentes, já fiz eventos, assessoria de imprensa, cerimonial, atualmente faço TV e estou começando a trabalhar com rádio… isso não é experiência? Estou formada há oito anos, passei num concurso concorrido, estou fazendo pós-graduação e sempre que encontro alguém que já trabalhou comigo, é comum ouvir elogios a respeito do meu trabalho… isso não significa nada? Claro que significa! E eu não posso desprezar a minha trajetória e minimizar a minha competência só porque o patriarcado diz que eu sou menos capaz!

Mas infelizmente eu não sou a única a cometer esse erro. Nós, mulheres, temos dificuldade de enxergar e assumir as competências que temos porque nos acostumamos com a condição de desvalorização. Estamos acostumadas a não ter nosso trabalho reconhecido, a ter que provar por A+B que somos boas no que fazemos, que merecemos confiança e, até mesmo, que merecemos o nosso salário! A cultura da infantilização da mulher é tão forte que distorce a percepção que temos de nós mesmas, nos levando a acreditar, ainda que de forma inconsciente (como era o meu caso), que não somos tão competentes como os outros, que ainda estamos aprendendo. Só que essa fase de aprendizado não passa nunca! Incorporamos essa ideia e passamos a agir como se fóssemos eternamente iniciantes na carreira, o que acaba influenciando na forma como os outros enxergam o nosso trabalho e no retorno financeiro. Ou seja: ficamos presas nesse ciclo!

Agora observe os homens ao seu redor. Eles não têm esse tipo de comportamento. Durante a faculdade, conheci vários que eram tão estudantes quanto eu mas que, diferente de mim, já se portavam como se fossem profissionais de comunicação (inclusive cobrando preços de profissional nos freelas e escolhendo estágios como quem escolhe emprego). Pra não ficar só na minha área, uma vez um amigo recém-formado em direito me cobrou o preço da tabela da OAB para fazer uma ação. Confesso que fiquei um pouco chateada, pois achei que ele faria um preço mais barato pra mim por ser meu amigo e por ser recém-formado (pelo menos era o que eu faria se fosse o contrário). Mas não: homem sabe valorizar seu passe e não tem nenhum drama de consciência com isso, ao contrário de nós, mulheres.

Outro dia, na academia, um rapaz cheio de tatuagens comentou comigo que só gostava de se tatuar com mulher porque elas são mais honestas nos preços. Falou que homem tende a supervalorizar seu trabalho e muitas vezes cobra o dobro ou o triplo do que uma mulher igualmente competente cobraria. Pensei comigo: elas são mais honestas ou são obrigadas a cobrar mais barato para conseguir se manter, já que o mercado não as valoriza? Dá pra perceber como a questão é sutil? O que aquele rapaz chamou de honestidade eu chamo de desigualdade, pois é muito difícil para uma mulher tatuadora conquistar uma clientela cobrando “preço de homem”, por melhor que seja seu trabalho. Assim acontece em qualquer outra profissão, ou seja: estamos perdendo dinheiro.

Desde criança os homens convivem com a ideia de que o mundo é deles, enquanto que nós precisamos merecê-lo. No universo masculino, ter reconhecimento e ocupar lugar de destaque na vida profissional é algo natural, ainda que não haja competência ou experiência para isso. Diferente deles, nós aprendemos que temos que nos qualificar e nos sacrificar pelas conquistas – e muitas vezes ainda nos sentimos culpadas em meio ao sucesso.

Mas sempre há tempo para desconstruir essa bagagem cultural. Claro que ter humildade é bom, pois todo mundo tem algo a aprender com todo mundo, mas daí a aceitar o lugar de eterna aprendiz e nunca ser reconhecida é outra história. Está na hora de virar esse jogo. Precisamos aprender a nos valorizar e não permitir que nos vejam sempre como profissionais de segunda categoria. Para isso, é fundamental que nós mesmas reconheçamos o valor do nosso trabalho e não menosprezemos a nossa experiência. O que você faz é importante. Não deixe que precifiquem o seu serviço por você, não deixe que te ensinem aquilo que já está preparada para fazer, não permita que desqualifiquem seu trabalho. Nunca (nunca mesmo) aceite a culpa que quiserem te imputar por você estar se destacando. É seu mérito, desfrute. Se tiver oportunidade, ocupe os espaços de liderança sem medo nem constrangimento, não tenha vergonha de ganhar mais e, principalmente, procure se cercar de mulheres de sua confiança. Homens quando chegam no topo puxam outros homens. Se quisermos ficar em pé de igualdade com eles, precisamos fazer isso também entre nós, para que mulher no topo deixe de ser uma exceção e passe a ser algo tão natural quanto. Precisamos aprender a lidar com reconhecimento, poder, dinheiro e sucesso, pois essas coisas são muito naturais para os homens, mas por que não podem ser para nós?

Confie na sua competência, valorize sua experiência e reconheça seu valor, pois esse é o primeiro passo para mudar a forma como as pessoas nos enxergam e mudar esse cenário desvantajoso em que estamos. Eu levei anos para perceber isso, mas já mudei minha postura. E você?

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