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Pornografia: mas por que não?

Desde que me converti, aos doze anos de idade, percebo o quanto a pornografia é fortemente combatida pelas igrejas. Durante a minha adolescência eu não entendia porque se falava tanto disso, já que para mim o consumo de pornografia era algo muito distante e numa igreja as pessoas não costumam fazer uso desse tipo de coisa. Ledo engano. Depois de alguns anos, descobri que 1) as mulheres, especialmente as cristãs, são blindadas e vigiadas para que não tenham acesso a material pornográfico (era o meu caso) e 2) a igreja está cheia de gente que consome pornografia, sim!

Lembro de um site chamado Sexxx Church, que existiu até meados dos anos 2000, e que tinha como principal objetivo fazer evangelismo para quem buscava pornografia na internet. A intenção inicial era falar com não-crentes, mas eles foram surpreendidos com a quantidade de retornos que tiveram de pessoas convertidas, inclusive pastores e líderes de ministério – todos buscando uma cura para esse vício. O Sexxx Church infelizmente acabou, mas nesta matéria você pode entender melhor como funcionava esse trabalho.

Ao descobrir o Sexxx Church por indicação de um amigo (hoje pastor), descobri também o submundo da pornografia nas igrejas. Uma verdade que é varrida para debaixo do tapete e se esconde por trás de discursos inflamados de combate à imoralidade sexual (e, pasmem, parece que os que mais se dedicam a combater esse mal são os mais acometidos por ele!).

Não se consegue contabilizar quantos casamentos e famílias são destruídas por causa desse vício que age silenciosamente, mas de uma coisa se tem certeza: os números são altos. E certamente as frágeis discussões promovidas pelas igrejas e a falta de um espaço de acolhimento contribuem para que não haja uma reversão desse quadro.

Há muito tempo me incomoda a forma como as igrejas se propõem a discutir esse assunto (ou não discutir). É bem parecida com a maneira como discutem sobre sexo, sobre a qual eu tratei detalhadamente nesta série sobre virgindade e sexo antes do casamento. Geralmente trazem proibições expressas e advertências sobre o mal que o consumo de pornografia traz, mas sem muitas explicações. Nada contra esses métodos (eles também são importantes e têm seu lugar), mas sempre senti falta de uma discussão mais aprofundada e que trouxesse argumentos de verdade, ao invés do já batido e vazio “Deus não se agrada”.


Contraditórios discursivos e um efeito reverso


Quando comecei a estudar e participar de discussões sobre o feminismo, ouvi de algumas mulheres que a pornografia pode ser uma forma de libertação, já que somos moldadas por uma sociedade extremamente castradora, que nos vigia e nos pune para que não exerçamos nossa capacidade sexual em nome de uma moral patriarcal e capitalista. Não quero entrar no mérito dessa discussão (até porque nunca me aprofundei nela), mas o feminismo, num primeiro momento, me trouxe em pouco tempo mais argumentos do que a igreja nos últimos vinte anos (fica a crítica). No entanto, nunca me convenci de verdade, pois sempre achei grotesca a forma como a mulher geralmente é representada nessas produções, inclusive no chamado “pornô feminista”. Depois descobri que a pornografia não é uma unanimidade no movimento feminista e que existe uma poderosa corrente que é totalmente contra, com a qual me identifiquei mais.

Há dois anos, lendo um livro chamado Vagina – uma biografia, da feminista norte-americana Naomi Wolf, que tive contato com alguns argumentos realmente convincentes sobre a pornografia e o mal que ela faz. No livro (que é muito bom, por sinal!), a autora dedica um capítulo para falar sobre esse assunto e explica, dentre outras coisas, como a pornografia dessensibiliza os homens e, ao contrário do prometido, não os torna mais viris, mas sim menos interessados numa mulher “de verdade”.

Naomi coletou dados científicos e opiniões de especialistas para mostrar que o uso da pornografia, assim como o uso da cocaína, pode desencadear comportamentos viciantes e levar ao que alguns estudiosos chamam de “TOC da masturbação crônica com a pornografia”, um transtorno que leva os homens a se masturbarem repetidas vezes num curto espaço de tempo. Uma vez instalado esse quadro, é só ladeira abaixo:


“A natureza do TOC da masturbação crônica com a pornografia significa que a próxima vez que um usuário de pornografia vir aquela imagem que o excitou, ela não vai excitá-lo tanto. É por essa razão que as tendências da pornografia estão se tornando cada vez mais extremas com o passar do tempo – para, digamos, migrar da posição de sexo consensual tradicional para o estupro anal violento ou para imagens que despertam o SNS [sistema nervoso somático] por meio da quebra de tabus tais como o incesto ou a sexualização de menores.” (WOLF, 2013:246)


Assim, com a necessidade de ver cenas cada vez mais fortes para se excitar, como os homens poderão se satisfazer com mulheres reais numa situação de sexo real, sem os recursos oferecidos pelos filmes pornôs? A probabilidade de eles acharem a realidade bem entediante é alta, o que coloca as mulheres numa situação de eterna desvantagem e põe em risco os relacionamentos. Para Naomi, “quanto mais sintonizado com a pornografia o homem estiver, menor vigor sexual ele poderá ter, no final das contas, para ele mesmo ou para a sua amante humana” (2013:241). E se você está pensando que isso só ocorre em casos crônicos, ela cita um trecho da entrevista do Dr. Jim Pfaus, psicólogo e neurobiólogo da Universidade de Concordia (Canadá):


“É como fumar ou beber  – o uso eventual é bom; mas o uso crônico, neurológico ou frequente pode viciar. E o vício é, absolutamente, sempre um risco do uso.” (grifo meu)  (PFAUS apud WOLF, 2013:243)


Mulheres também são vítimas


Há uma tendência em se dirigir aos homens quando se fala em pornografia, mas a verdade é que, atualmente, as mulheres também são vorazes consumidoras desse material. As mulheres brasileiras chegaram a ocupar o primeiro lugar no ranking de consumo de conteúdo erótico pelo público feminino, numa pesquisa realizada por um dos maiores sites de pornografia da internet (nesta mesma matéria, também é possível perceber uma disputa de mercado entre as produtoras). No entanto, Naomi Wolf relata que os efeitos causados nos homens valem também para elas: dessensibilização, necessidade de ter contato com cenas cada vez mais pesadas para se satisfazer e, consequentemente, perda da capacidade de excitação em situações reais. Vale acrescentar aqui que não apenas os filmes pornôs, mas também o uso excessivo de vibradores leva a esse quadro. Além disso, existe ainda uma mudança de percepção sobre o próprio corpo, o que tem levado milhares de mulheres absolutamente normais a buscarem cirurgiões plásticos para fazer uma labioplastia e deixar seus lábios vaginais o mais próximo possível dos lábios vaginais das atrizes pornô, como se esse fosse o padrão.

Para além das consequências em seu próprio corpo e mente, as mulheres também são punidas ao ter que lidar com as insatisfações e exigências de parceiros que também tiveram sua percepção de sexo alterada pelo uso excessivo de pornografia. Como já foi dito antes, seus corpos não são mais suficientes para satisfazer um cérebro viciado em cenas mecânicas de sexo selvagem com mulheres que aceitam tudo sem sentir dor. Com a chegada da internet, que permitiu a disseminação da pornografia em níveis estratosféricos, já temos pelo menos duas gerações de homens que foram educados sexualmente por esses filmes e que mantém suas expectativas sobre sexo em níveis bem acima da normalidade, gerando frustrações para suas parceiras e para si mesmo – já que eles também sofrem com essa incapacidade de se satisfazer com as mulheres que amam.

Um outro aspecto que também deve ser levado em consideração é que a indústria pornô é feita majoritariamente por e para homens brancos heterossexuais, o que faz com que as produções reforcem violências e opressões. Não é à toa que as mulheres aparecem subjugadas em quase todos os filmes, tendo seus corpos associados às mais ultrajantes fantasias que envolvem racismo, misoginia, lesbofobia, violência doméstica, estupro, incesto e outras coisas degradantes. No artigo intitulado A pornografia e o racismo na vida da mulher brasileira, Carolina Bolchevique explica de forma brilhante a relação entre pornografia, tráfico sexual de mulheres e racismo (vale a pena ler até o final).


Um desafio 


Por tudo que foi dito aqui, é possível perceber que a pornografia não traz vantagens para ninguém mais além dos seus produtores, já que a indústria pornográfica movimenta cifras incalculáveis todos os anos. E não foi na igreja que eu aprendi isso, mas num livro feminista, que me abriu a porta para essa discussão tão importante e necessária nos dias de hoje. Vagina – uma biografia poderia tranquilamente ser usado como um aliado na hora das discussões sobre consumo de pornografia nas igrejas, não fosse o enorme preconceito que os evangélicos nutrem contra o feminismo e as feministas.

Está mais do que na hora de quebrarmos essa barreira e começarmos a utilizar as informações que estão ao nosso alcance para fazer um trabalho mais efetivo no meio cristão. Acredito que o feminismo tem muito a nos ajudar nesse sentido. Precisamos de diálogos mais profundos, de troca de experiências, mas sobretudo de coragem e honestidade para levar essas discussões pros nossos púlpitos, classes de EBD e ministérios de casais, famílias, namorados etc. O sexo foi criado por Deus para ser desfrutado com prazer e não podemos deixar que ele continue sendo deturpado por uma indústria cujo compromisso é tão somente com os lucros.

Apesar de todo liberalismo e dos muitos apelos, estamos bem longe de ser uma sociedade que desfruta, de fato, da sua sexualidade. Acredito que a igreja, enquanto defensora da família, é a maior interessada em elevar o nível dessa discussão, abandonando os chavões de praxe e assumindo uma postura de vanguarda, como já fizemos em outros momentos da história. Vamos assumir esse desafio?




*Recomendo a leitura completa do livro “Vagina – uma biografia”, de Naomi Wolf (2013). Para saber mais detalhes sobre como a pornografia age no cérebro de homens e mulheres, recomendo a leitura do capítulo “A vagina pornográfica”, da mesma obra.


**Naomi Wolf também trata da pornografia num artigo de 2013 publicado no New York Magazine, intitulado The Porn Myth. Se você não lê em inglês, vale a pena usar o Google tradutor para ajudar!




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