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Há alguns anos, ao ver na TV uma reportagem que falava sobre o fato de as mulheres brasileiras estarem adiando a gravidez para depois dos 30 anos, fui pega de surpresa com a revelação da minha avó, que tem 87 anos e 12 filhos: “Agora é que tá bom, que as mulheres podem escolher quando vão engravidar! Antigamente era muito ruim, a gente não queria ter esse monte de filho mas não tinha jeito!”, disse ela. Ao ouvir isso, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi: “como assim não queriam ter um monte de filhos?!?” 😮   

Enquanto ela explicava as suas tentativas frustradas de evitar gravidez quando ainda era jovem, lançando mão de métodos caseiros e nada eficientes, comecei a perceber que havia um outro lado nessa história, o qual não estamos habituadas a ouvir. Eu sempre escutei que antigamente se tinha mais filhos porque as pessoas davam mais valor à família, não havia tanto divórcio e que as condições do país eram outras (não era tão caro sustentar uma criança, não tinha tanta violência, a escola pública era para todos e blá, blá, blá). Nunca tinha parado para pensar no quanto essa justificativa é pobre e fantasiosa e também nunca tinha me dado conta de que essa é a versão masculina da história.

A versão feminina, que me foi apresentada por minha avó, diz que nem todas as mulheres queriam engravidar todo ano e nem encher a casa de crianças. Muitas tentavam – sem sucesso – controlar o número de filhos, mas essa era uma preocupação só delas, já que para os maridos ter muitos filhos era sinal de virilidade e motivo de orgulho. Tive muita pena da minha avó ao ouvir esse relato, por ela não ter tido a chance de assumir as rédeas da própria vida e definir quando e quantos filhos queria ter – coisa que para nós hoje é algo tão banal e corriqueiro. Fiquei imaginando a quantidade de mulheres que passaram pelo mesmo drama de se verem grávidas várias vezes e contra a sua vontade. Neste momento, pela primeira vez agradeci a Deus por terem inventado a pílula anticoncepcional.

Para mulheres da geração da minha avó, a pílula teria sido um santo remédio se não fosse a pressão social contrária – ela chegou ao Brasil na década de 1960, mas foi severamente condenada pela Igreja Católica e pela maioria (masculina) conservadora, o que impediu que mulheres como ela, à época na faixa dos 30 anos, pudessem usar.

Não há como negar que a invenção da pílula representou muito para a história da mulher, já que permitiu a ela a liberdade de escolha e o domínio sobre a própria fertilidade. Muitas pesquisas afirmam que ela possibilitou ainda o sexo por prazer, e não exclusivamente para fins reprodutivos, como a igreja queria. Esta é a parte da história que me parece um pouco mal contada.

Por incrível que pareça, muita gente ainda não sabe quais são os verdadeiros efeitos colaterais da pílula anticoncepcional. Muito se fala sobre o ganho de peso, o que parece ser a maior preocupação da sociedade obcecada por magreza em que vivemos hoje. Mas além dele, há o surgimento de espinhas, os enjoos, a acentuação da TPM e vários outros sintomas considerados “menores” e que variam de mulher para mulher. Há ainda uma infinidade de estudos que revelam que a pílula aumenta significativamente os riscos de trombose, embolia pulmonar e doenças cardiovasculares, além dos relatos que têm se propagado ultimamente de pessoas que foram parar na UTI por causa do seu uso prolongado. Mas tem um efeito colateral que não é muito falado, pelo menos não ampla e abertamente: a falta de libido. Sim, a pílula reduz significativamente a libido da mulher e também a sua lubrificação vaginal, o que torna a relação sexual incômoda e muitas vezes dolorosa.

Eu não sabia disso e quando descobri saí conversando com várias mulheres com quem tive oportunidade, amigas íntimas ou não, e fiquei espantada ao perceber que muitas delas, assim como eu, achavam que isso era um problema pessoal. A maioria não ousava contar para ninguém que não tinha libido – e algumas não contavam nem para os seus próprios parceiros. Afinal, numa sociedade erotizada como a nossa, onde sexo está acima de tudo e ter uma vida sexual incrível é praticamente uma obrigação de todas as pessoas, como admitir que você não consegue achar tanta graça assim??? Foi aí que descobri como a falta de informação massacra muitas mulheres. Por que será que não se fala muito sobre isso? Por que geralmente as questões estéticas são enfatizadas quando se fala em efeitos colaterais da pílula? A resposta é simples: porque, paradoxalmente, o prazer da mulher ainda é um tabu em pleno século XXI, quando corpos de mulheres nuas são vistos diariamente por todos os lados e muitos acham que a mulher já conseguiu tudo que tinha pra conseguir! Será mesmo?

A verdade é que nós ainda não conseguimos, dentre muitas outras coisas, a tão sonhada liberdade sexual. A pílula foi apenas o primeiro passo de uma longa caminhada, mas não podemos parar aí. Graças a ela, hoje não temos mais o problema das mulheres da geração da minha avó, que não conseguiam controlar o número de filhos, mas em contrapartida temos outros problemas: ao utilizá-la, estamos arriscando nossa saúde e nos expondo a diversos tipos de doenças que muitas vezes nem sabemos; estamos vulneráveis às DSTs, já que a pílula só protege contra gravidez; e, principalmente, não conseguimos viver plenamente o sexo nem desfrutar dos prazeres que ele traz justamente porque ela bloqueia isso, diminuindo ou tirando completamente a libido. E a impressão que temos é que ninguém se importa. Recentemente, foi divulgada uma notícia de que os testes de anticoncepcional masculino foram interrompidos por causa dos efeitos colaterais. Os homens não aguentam, mas nós temos que suportar os efeitos da pílula, né? É nisso que consiste a tal força feminina?

Enquanto o prazer dos homens é intocável e muitos se recusam a usar camisinha, nós é quem temos que abrir mão do nosso próprio prazer. A camisinha seria o método mais adequado e seguro, que protege não só contra a gravidez mas também contra DSTs, além de não apresentar efeitos colaterais. Porém, ela é rejeitada por grande parte dos homens por uma questão de machismo e egoísmo, pois eles não querem se importar com contracepção e muitos menos com o prazer da parceira. Não podemos aceitar que a nossa saúde sexual esteja nas mãos deles. Nós é que devemos ter o controle sobre o nosso corpo e por isso, na minha opinião, a pílula hoje dá sinais de que ela sozinha não basta. Não queremos apenas evitar filhos indesejáveis. Queremos ter prazer também. E para muitas mulheres, a pílula só permite a primeira opção.

Precisamos pressionar para que novos métodos sejam pesquisados, mas mais do que isso: precisamos ocupar os espaços na ciência, nos laboratórios de pesquisa, nas academias, na mídia. Precisamos falar sobre isso, primeiramente para informar as mulheres e depois para despertar em nós a consciência e a necessidade de avançar. Mas também temos que fazer o trabalho de formiguinha, que talvez seja o mais difícil para algumas: se você, assim como eu, testou vários tipos de pílula e não se adaptou, PARE DE USAR. Priorize a sua saúde, o seu bem estar e ADOTE OUTRO MÉTODO. Se seu parceiro não aceita camisinha por questões de “não gosto” e não procura compreender a importância do seu prazer e da sua saúde, ele não te ama e não te respeita. Está na hora de começarmos a recusar esse tipo de relacionamento. Com amor, compreensão, respeito e muito diálogo, existe a possibilidade de se ter uma vida sexual satisfatória para ambas as partes, por isso, não permita que seu parceiro te castre. Uma vida sexual prazerosa e saudável não é um privilégio masculino. Nós também precisamos e merecemos.

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