Pesquisa: Pastorado Feminino (parte 1)
31 de maio de 2018
Mas afinal, a mulher pode ser pastora?
7 de junho de 2018

Essa é a segunda parte da pesquisa que fiz sobre pastorado feminino. Para ler a primeira parte, clique aqui.


Como você reagiria se descobrisse que sua namorada, noiva ou esposa tem chamado pastoral?


 


Essa pergunta foi feita somete aos homens e o resultado também surpreende pela falta de compatibilidade com aquilo que a gente vê na prática: a maioria afirmou que apoiaria por acreditar que Deus chama homens e mulheres (55%). Se somarmos com os que disseram apoiar mesmo não acreditando que seja bíblico, são 64%. Se a maioria dos homens apoia o pastorado feminino, por que o número de pastoras é tão baixo? Será que é porque realmente não temos habilidade natural para liderança? Ou será que é porque, na prática, não encontramos incentivo nem oportunidades para tal?

Na minha opinião, essa questão foi a mais reveladora no sentido de deixar explícito que há um abismo enorme entre o discurso e a ação.


Como você acha que seu namorado, noivo ou marido reagiria se você descobrisse que tem chamado pastoral?


 


Essa questão foi dirigida somente às mulheres e é a única que exige que a resposta seja intuída, ou seja, elas não deram uma resposta direta, mas baseada na percepção que têm de seus companheiros. Tanto aqui quanto nas respostas masculinas foi levado em consideração que algumas pessoas poderiam ser solteiras, restando a elas apenas a possibilidade de responder “Não sei”.

Feita essa consideração, ainda assim percebe-se que a quantidade de mulheres que afirmaram acreditar que seus companheiros as apoiariam na decisão de se tornarem pastoras é muito menor do que a quantidade de homens que afirmaram fazê-lo. Se 64% dos homens disseram que apoiariam, apenas 43% das mulheres percebem isso, o que significa que há uma comunicação pouco clara entre vários casais acerca do assunto, já que a maioria das mulheres não se sente apoiada pelo companheiro nesse quesito. Ainda que muitos homens acreditem que as mulheres podem exercer liderança pastoral nas igrejas, eles não deixam isso claro para suas parceiras. Mas qual seria o motivo? Medo? Insegurança? A velha crença de que “outras mulheres podem, mas a minha não”? Ou será que isso aponta para a ausência de diálogo entre muitos casais?


Você acha que homens casados com pastoras têm sua autoridade masculina comprometida na relação?


 


Apesar dessa questão também ter trazido respostas que não dialogam com a realidade, ela traz um desfecho esperançoso: 64% dos homens e 72% das mulheres disseram NÃO, ou seja, para a maioria dos entrevistados o pastorado feminino não compromete a autoridade masculina no casamento. Com isso, pode-se concluir que as pessoas, de um modo geral, entendem que dar autoridade à mulher não significa tirar a autoridade do homem. Então por que temos tanta dificuldade em aceitar / permitir mulheres nas posições de liderança?


Com essa sondagem eu pude perceber três coisas:

  1. De um modo geral, os resultados, analisados por si só, foram positivos, pois mostram que uma maioria apoia o pastorado feminino. No entanto, quando comparamos com a realidade, vemos que há alguma coisa de errado entre o discurso e a prática. Como comunicadora, já fiz outras pesquisas antes e em todas elas pude perceber incompatibilidades nas respostas, o que aponta para uma margem de inverdades, ou seja: as pessoas costumam mentir nas pesquisas (o que é surpreendente quando se trata de questionário anônimo). É como se elas soubessem que há dois tipos de resposta: a “mais correta” e a sua. Quando essas duas entram em conflito, elas optam por adotar o discurso “mais correto”, mesmo que pratique algo totalmente diferente. E foi exatamente isso que me parece que aconteceu aqui, principalmente entre os homens.
  2. Para além do questionário e suas respostas, analisei também as reações das pessoas quando eu pedia para que elas respondessem. Muitas mulheres me parabenizaram pela iniciativa e se mostraram felizes em contribuir – senti como se dissessem “finalmente alguém quer me ouvir sobre esse assunto”. Várias compartilharam entre suas amigas, recebi sugestões de melhoria para a formulação das perguntas e até sugeriram que eu buscasse financiamento para poder fazer uma pesquisa mais aprofundada. Consegui mais respostas femininas do que o mínimo estipulado. Já com os homens, não tive a mesma receptividade. Pouquíssimos compartilharam com seus amigos e vários reagiram com desconfiança, perguntando quem estava por trás dessa pesquisa, o que seria feito com ela etc.. Resultado: por mais que eu tenha divulgado, insistido e até ampliado meu prazo de fechamento, não consegui atingir o mínimo estipulado de respostas masculinas. Os homens são muito mais resistentes em responder pesquisas, algo que eu já tinha notado em outras que fiz anteriormente. Mas acredito que desta vez o tema espinhoso também os levou a não querer colaborar. Inclusive é bem possível que o resultado otimista desta pesquisa se deva também ao fato de que a maioria dos homens que aceitaram respondê-la são mais “desconstruídos” em relação ao tema (ou seja: os mais conservadores se negaram a responder).
  3. Por fim, constatei algo que muitas de nós já sabemos: o discurso hegemônico que diz que mulher não pode ocupar espaços de liderança ainda ecoa na cabeça de muitas mulheres. Não vai ser fácil desconstruir ideias machistas como essa, pois elas já estão enraizadas na cultura e na formação da sociedade. Mas não é por isso que iremos desistir. Precisamos ter em mente que mulheres que defendem um posicionamento machista, assim como negros que se comportam de forma racista, não são exatamente culpados: são tão vítimas quanto nós. Sempre haverá os oprimidos que compram e reproduzem o discurso do opressor, alguns por ignorância, outros por achar que com isso serão menos oprimidos (o que é um engano). Portanto, mulheres machistas existem, sim, mas precisamos ser cautelosas para que elas não virem nossas inimigas, afinal, estamos todas no mesmo barco. Nosso desafio é conscientizar com informação, respeitando o tempo, a bagagem de vida e as circunstâncias de cada uma.

Para finalizar, é importante lembrar que o caminho da persuasão utilizado pelas lideranças machistas na igreja não é racional, é puramente emocional e apelativo (além de raso): “é assim porque está na Bíblia”; “Deus não se agrada”, “você está desobedecendo”, “a porta da salvação é estreita” e por aí vai. Os argumentos são baseados em interpretações da Bíblia que desconsideram seu contexto histórico e social (já falei disso aqui e aqui). No entanto, para fazer um estudo sério dos textos sagrados, é imprescindível levar em consideração uma série de fatores que interferem diretamente no seu conteúdo – como quem fala, para quem fala, aonde fala, as circunstâncias sociais, políticas e econômicas, a escrita original, a forma como foi traduzida, dentre outros aspectos. Desconfie de quem não faz isso e tenta forçar uma interpretação literal de alguns trechos.

Bem, aqui eu quis me limitar ao detalhamento da minha “mini-pesquisa”, mas no próximo texto falarei especificamente sobre a questão do pastorado feminino: é antibíblico? É errado? Por que ele é tão demonizado? Continuaremos esse assunto aqui.

 



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