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Os problemas da discussão sobre sexo nas igrejas

O sexo ainda é, sem dúvida, uma das principais preocupações da igreja contemporânea, mas eu desconfio que as motivações para isso nem sempre sejam as mais santas. Sabemos do histórico de vigilância e opressão à sexualidade feminina, algo que começou no neolítico médio (MICHEL, 1982, p. 18) e tem se arrastado até os dias de hoje, apesar das resistências. A vigilância do sexo, assim como a imposição de padrões de beleza, são armas poderosíssimas de controle das mulheres que, quando bem utilizadas, deixam-nas completamente alheias de si e do seu entorno, vulneráveis, portanto, à condução masculina. Logo, não é de se surpreender que esses dois paradigmas (o do corpo perfeito e o da mulher pura) sejam os mais difíceis de se romper numa sociedade machista e patriarcal, contra os quais todas nós travamos uma luta diária.

A forma como muitas igrejas ensinam sobre virgindade e abstinência sexual nem sempre é das mais justas. Muitas de nós vivemos a experiência de sermos didaticamente orientadas para o casamento desde a infância. Nessas orientações, ele aparecia como o auge da vida de uma mulher e a virgindade coroava esse momento de glória, dando-lhe um mérito a mais. Perdi as contas de quantas vezes ouvi dizerem que a virgindade era o maior presente que uma mulher poderia dar ao seu marido. No entanto, essa rede pedagógica não era tão bem articulada para os homens, que pareciam ter mais liberdade para desobedecer e a quem eram apresentadas outras prioridades (como a educação e o trabalho). Lembro-me nitidamente de ver garotas se tornarem mal faladas por namorarem dois ou três garotos na mesma igreja, enquanto que entre os rapazes a brincadeira era saber quem iria levar vantagem na conquista da mais nova integrante da classe. Esse é o primeiro problema que vejo nas igrejas: a assimetria do ensino sobre virgindade entre homens e mulheres, sendo elas as mais cobradas e também as responsabilizadas por garantir a santidade no namoro. Vale lembrar: nem todas as igrejas agem dessa forma, mas infelizmente essa conduta ainda é muito frequente.

O segundo problema que enxergo é a fragilidade dos argumentos utilizados para pregar uma vida de pureza sexual. Numa sociedade marcada pelo acesso à informação e pelos incontáveis apelos sexuais dirigidos a homens e mulheres, acho que não cabe mais ensinar que o certo é casar virgem porque “Deus quer assim” ou porque “o seu casamento será mais feliz”. Já ouvi e li vários testemunhos de contos de fadas no qual a abstinência aparece como uma provação pesada e difícil (e realmente é) que leva a um desfecho de sucesso incondicional no casamento. Também já presenciei discursos extremistas que diziam que sexo antes do casamento só traz uma série de vergonhas e derrotas ou que casar virgem é a única forma de viver bem a sexualidade. Claro que não é bem por aí. Cada pessoa tem uma história, tem circunstâncias e bagagens de vida diferentes e quando se trata de casamento e sexo, não há fórmulas prontas que garantam nada.

Não acho que fantasiar a virgindade, transformando-a em uma chave que garante o sucesso de um casamento, seja a forma mais honesta e eficaz de falar sobre isso. Esse discurso, além de alienante, pode gerar muita frustração. Um diálogo maduro, sincero e aberto é não só necessário como também possível, levando em conta o que a Bíblia realmente diz sobre isso, admitindo que a problemática do sexo durante o namoro é algo recente, ouvindo o que os jovens pensam a respeito do que é imoralidade sexual e do que é relacionamento com Deus e trazendo experiências concretas sobre namoro e casamento. Essa não é uma fórmula, mas apenas um dentre tantos caminhos para transformar as discussões sobre sexualidade nas igrejas em momentos mais profundos, mais verdadeiros e certamente mais efetivos na diminuição da promiscuidade entre jovens do que as meras proibições sem argumentos que vêm sendo praticadas até então.

O terceiro problema, na minha opinião, está nas tentativas desesperadas de garantir de todo jeito que os casais se casem sem contato sexual prévio, mesmo que isso implique em promover casamentos precoces, imaturos e irresponsáveis (falei mais detalhadamente sobre esse problema nesse texto aqui). Já vi igrejas e/ou pastores incentivando o casamento entre adolescentes, entre jovens desempregados, entre jovens que, embora trabalhando, ainda não tinham condições financeiras de morar sozinhos, jovens dependentes emocionalmente dos pais, sem noção de responsabilidade com família… tem de tudo! A justificativa? “É melhor casar do que se abrasar”, numa referência torta à passagem de 1 Co 7:9. Claro que isso tem grandes chances de dar errado!

Por fim, tenho percebido que esses três problemas que eu trouxe aqui acabam atingindo muito mais as mulheres do que os homens, gerando um quarto problema – o de gênero. São as mulheres as mais cobradas para manter a virgindade; elas que são estimuladas a criar uma fantasia e uma expectativa acima do normal em torno do sexo no casamento; elas quem mais se frustram ao casar e descobrir que sexo por si só não sustenta uma relação nem proporciona o tão sonhado mundo de conto de fadas; e são elas quem mais sofrem com um casamento precipitado, afinal, a igreja costuma cobrar-lhes, de forma muitas vezes opressiva, o exemplo de mulheres sábias que edificam seu lar, conforme já falei num post mais antigo.

De um modo geral, esses são os principais problemas que vejo nas discussões sobre virgindade e abstinência sexual nas igrejas atualmente. Falta verdade, eqüidade e contato com a realidade.

 

 

 

 

(ATENÇÃO: Esse texto é apenas uma parte da série Virgindade e sexo antes do casamento e não deve ser lido isoladamente. Para uma compreensão completa, é necessário ler introduçãoparte 1parte 2 e parte 4.)

2 Comentários

  1. Sara disse:

    Gosto muito dos seus textos! Sempre identifico situações semelhantes na igreja.

  2. Thais disse:

    Que ótima reflexão!

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