O que a igreja tem a ver com vaginismo?
5 de abril de 2019
“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”
21 de abril de 2019

Os mistérios de Lilith: maligna ou revolucionária?

Se existe uma figura feminina que desperta a curiosidade e o encantamento de muitas mulheres, essa figura é Lilith. Sua imagem está atrelada à contestação, ao inconformismo com o patriarcado, e por isso ela é bastante citada em rodas feministas. Mas sua verdadeira história é cercada de muitos mistérios.

Lilith aparece no Talmud (livro que reúne histórias da tradição rabínica oral) e lá é apresentada como a primeira mulher de Adão. Segundo essa narrativa, o primeiro casal criado por Deus foi Adão e Lilith e ambos foram feitos do pó da terra. Lilith, no entanto, não aceitou seu lugar de submissão e recusou-se a ser dominada por Adão, argumentando que se eles foram criados com a mesma matéria prima, deveriam ser iguais. Ela questionava até o próprio Deus sobre isso e se recusava inclusive a ficar por baixo durante o ato sexual. As brigas entre o casal eram frequentes, até que um dia Lilith se rebelou e deixou o Jardim do Éden. Adão então se sentiu muito só e Deus resolveu enviar três anjos para trazê-la de volta, mas ela se recusou a voltar e preferiu viver às margens do Mar Vermelho. Foi aí que Deus decidiu criar outra mulher para fazer companhia a Adão – só que desta vez não usou o pó, mas sim uma de suas costelas, e assim surgiu Eva. A tradição conta que Lilith se transformou em um demônio, pois a região das margens do Mar Vermelho era repleta de seres das trevas, com quem ela manteve relações sexuais e, por isso, se tornou como eles. Alguns defendem, inclusive, que ela era a serpente que tentou Eva no Jardim do Éden, pois queria se vingar de Adão por ele ter arranjado outra companheira.

 

Mito ou verdade?

 

A história de Lilith não aparece na Bíblia, mas em algumas traduções mais antigas seu nome é citado apenas uma vez, em Isaías 34:14: “E as feras do deserto se encontrarão com hienas; e o sátiro clamará ao seu companheiro; e Lilite pousará ali, e achará lugar de repouso para si.” 

Alguns defendem que a história de Lilith foi retirada da Bíblia no Concílio de Trento, no século XVII, porque a Igreja Católica queria reforçar a ideia da submissão da mulher. Uma das justificativas para esse argumento são as diferentes versões da criação do mundo narradas em Gênesis 1 e 2,  apontadas como indícios de que havia uma narrativa sobre Lilith, entre o primeiro e o segundo capítulo, que foi suprimida.

A figura de Lilith, no entanto, não surgiu com as escrituras sagradas. Muito antes do Gênesis ser escrito, ela já havia sido mencionada na Epopéia de Gilgamesh (um livro babilônico de 2000 a.C. que contém algumas narrativas parecidas com narrativas bíblicas) e no Talmud Babilônico. Como os judeus viveram cerca de cinquenta anos no exílio na Babilônia, alguns elementos da cultura de lá acabaram sendo incorporadas pelo judaísmo oral e o mito de Lilith foi um deles. Ela também aparece no Zohar (uma obra cabalística da cultura hassídica do século XIII). Portanto, foi através do judaísmo que ela chegou até os cristãos.

Mas o fato é que a igreja cristã nunca aceitou a história de Lilith simplesmente por não haver provas concretas de que ela é verdadeira. Por ser uma figura que aparece em várias culturas, em épocas diferentes e cercada de narrativas distintas, é difícil precisar o que é verdade e o que é lenda. Por isso, considera-se que Lilith é apenas um mito herdado da cultura babilônica, cujas pontas soltas da sua história forneceram um bom material para teóricos da conspiração.

E a citação de Lilith em Isaías? Muitos teólogos defendem que o nome “lilith” significa demônio ou animal noturno associado ao mau agouro. Várias traduções, inclusive, trazem expressões similares no lugar da palavra lilith, como “criaturas noturnas” e “animais noturnos”. Portanto, não seria um nome próprio, mas sim uma expressão utilizada para reforçar a ideia de seres malignos, assustadores, fantasmagóricos.

 

A lenda como espelho da sociedade

 

Apesar de Lilith povoar o imaginário de muitas mulheres como símbolo de resistência e ter ganhado a simpatia do movimento feminista, tudo indica que a Lilith como conhecemos hoje é uma espécie de mistura das Liliths que povoaram o imaginário dos babilônicos, dos judeus e da cabala. É uma personagem lendária, que ora serviu para representar demônios femininos, ora mulheres sedutoras e, no cristianismo, mulheres rebeldes e autônomas.

A possibilidade de ela ter sido a primeira esposa de Adão é uma história muito atraente e curiosa, mas se pensarmos melhor, veremos que foi uma narrativa forjada para atacar o discurso machista da igreja, e não de Deus – já que Ele não criou a mulher para ser subjugada pelo homem. O fato de Eva ter sido feita da costela de Adão não é, de forma alguma, uma simbologia para mostrar a sua inferioridade (ao contrário: se formos analisar a simbologia da costela, está muito mais próxima de apontar para uma posição ao lado, e não abaixo). Da mesma forma, vemos nos Evangelhos que em nenhum momento Jesus reforçou a ideia de que somos inferiores aos homens. Ele tratou as mulheres de igual para igual e, em várias passagens, as honrou e as defendeu – comportamento este que causou espanto e escandalizou a sociedade patriarcal de sua época. Se cremos que Jesus cumpriu a lei divina na Terra, logo concluímos que Deus não nos designou um lugar de subalternidade, caso contrário isso teria sido demonstrado nas atitudes de Jesus.

Cada sociedade produz mitos e lendas que correspondem ao seu contexto social e cultural. Portanto, a gente pode entender que o mito de Lilith, nos moldes como conhecemos hoje, traz justamente as velhas características da nossa sociedade: machista, que tenta colocar a mulher em seu devido lugar de submissão e que a associa aos demônios quando ela se rebela e não se encaixa no perfil desejado. Por causa disso, com os ideais de emancipação feminina, Lilith se tornou símbolo de contestação e resistência para muitas mulheres e ganhou uma conotação positiva em vários segmentos. 

A história de Lilith fala muito mais sobre a nossa cultura patriarcal do que sobre um possível “erro” de Deus na criação da mulher. Sua ressignificação traz consigo a ousadia de pegar a mesma narrativa usada para oprimir e transformá-la numa narrativa de protesto contra o machismo – especialmente no meio cristão. É uma lenda, sim, mas que está repleta de simbologias e  denúncias.

 

 

 

*A Revista Superinteressante fez uma matéria em que lista os indícios e as falhas da história de Lilith, vale a pena ler: Teoria da Conspiração: Lilith, a primeira mulher de Adão. Já o teólogo e arqueólogo Rodrigo Silva traz uma explicação muito clara sobre a história de Lilith no programa Evidências – Quem foi a mulher de Adão.

**Agradeço à leitora Mia Cardinot por ter me mandado essa sugestão de tema para o blog!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *