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Você já percebeu que nós só somos o sexo frágil quando é conveniente ao sistema? Apesar desse discurso insistente (e ultrapassado) que sobrevive até os dias de hoje, parece que em vários momentos da história a nossa “fragilidade” foi esquecida.

No período escravocrata, por exemplo, não existia distinção de sexo para os escravos e as mulheres negras eram tratadas exatamente da mesma forma que os homens negros. Não havia castigos mais leves nem divisão sexual de trabalho: elas eram obrigadas a fazer todos os serviços pesados e humilhantes que os homens faziam e eram açoitadas e espancadas com a mesma intensidade. A ideia que temos hoje de que as mulheres negras escravizadas trabalhavam nas casas dos senhores como babá ou empregada doméstica é um grande equívoco. É verdade que algumas eram destinadas a isso, mas não havia espaço dentro das casas para tanta mão de obra feminina e a maioria tinha que fazer os mesmos trabalhos que os homens, inclusive as grávidas e recém-paridas. Angela Davis, no livro Mulheres, Raça e Classe, relata com riqueza de detalhes toda sorte de violência e sofrimento a que eram submetidas sem que, em nenhum momento, alguém cogitasse a possibilidade de poupá-las pelo fato de serem mulheres. A condição feminina na verdade lhes trazia uma obrigação e um castigo a mais: elas eram forçadas a engravidar constantemente para garantir a mão de obra do senhor e eram vítimas de uma arma cruel que só era utilizada contra mulher: o estupro. Sim, além dos açoites, espancamentos e das prisões no tronco, elas também eram estupradas como forma de punição. Em resumo, o sistema escravocrata não foi nem um pouco condescendente com o dito “sexo frágil”.

Fazendo um salto na história, durante a revolução industrial as mulheres trabalhavam em regimes que hoje consideramos análogos à escravidão. Longas jornadas de doze, catorze horas de trabalho pesado em locais insalubres se somavam aos serviços domésticos depois do expediente. Não existia licença-maternidade e elas voltavam pro batente poucos dias após o parto. Sem ter com quem deixar suas crianças, eram obrigadas a levá-las para as fábricas e chegavam a dopá-las para que ficassem quietas e as deixassem trabalhar. Assim que elas cresciam um pouco, já começavam a trabalhar também, para aumentar a renda familiar. Folga era algo raro e, como não podia deixar de ser, seus salários eram bastante inferiores aos dos homens. Os índices de mortalidade entre mulheres e crianças eram altíssimos, justamente por causa das condições em que viviam. Ah, e não dá pra deixar de falar que elas encaravam também as armas que só são usadas contra a mulher: assédio sexual e estupro por parte dos patrões. Não há registro de flexibilização para as mulheres nessa época por causa da sua condição feminina. Mais uma vez, não havia concessões nem amortizações para o “sexo frágil”.

Nos dias de hoje ainda temos muitas provas de que a fragilidade feminina é um discurso de conveniência. Se acreditassem mesmo nisso, será que teríamos tantas mulheres abandonadas com seus filhos? Será que os índices de violência contra a mulher seriam tão altos? A quantidade de mulheres super-exploradas em seus locais de trabalho (como nas fábricas da revolução industrial) ainda é uma realidade em muitos locais do mundo e é algo que também não depõe a favor da crença no “sexo frágil”. E se somos tão frágeis, qual é a lógica de ganharmos os menores salários? O correto não seria ganharmos mais que os homens, já que a nossa fragilidade traz consigo uma necessidade que eles supostamente não têm – que é segurança e proteção?

Do lado de cá da história (o lado feminino), temos visto cada vez mais provas de que somos fortes. Enfrentamos diariamente as adversidades e preconceitos sem baixar nossas cabeças, provando nossa competência no lar, no mercado de trabalho e na sociedade. Temos alçado cada vez mais postos de liderança, tomado conta das universidades (somos mais escolarizadas que os homens) e, mesmo com uma renda 25% menor e com uma jornada de trabalho de cinco horas a mais que eles, temos conseguido desempenhar o papel de mãe e, muitas vezes, nos desdobrar para suprir a ausência do pai. Embora sem o devido reconhecimento, estamos atuando com louvor em todas as áreas, desde aquelas consideradas femininas até a ciência e a construção civil. Somos arrimo de família, sofremos com duplas e triplas jornadas e com as cobranças sociais, mas temos protagonizado um movimento que tem abalado as estruturas da sociedade patriarcal e conseguido promover mudanças significativas nas leis e nos costumes. Nós mesmas estamos mudando nossa história e já obtivemos muitas vitórias, apesar de ainda termos uma longa caminhada pela frente. Quem tem uma história como a nossa, permeada de trabalho braçal, terrorismo psicológico, inquisição, tortura, agressões e estupros, mas que mesmo assim tem sido resistente e partido pro enfrentamento,  não pode nunca ser taxada de frágil. Do lado de cá, nós vemos e sabemos que não somos frágeis, por isso, não podemos aceitar esse rótulo.

Que fique bem claro: não queremos ser superiores aos homens nem pregamos igualdade biológica. É óbvio que há diferenças físicas entre nós, mas sabemos que elas só são reivindicadas para nos colocar em um patamar inferior, quando convém ao sexo masculino. A nossa história de lutas, no entanto, revela o tamanho da nossa capacidade, que é bem maior do que nos querem fazer acreditar. Somos fortes, podemos muito mais do que nos dizem e ameaçamos o status quo, por isso querem tanto nos controlar. Não somos o sexo frágil e, se por muito tempo tentaram nos enganar e manipular acerca disso, hoje já sabemos a verdade. Portanto, não vamos aceitar ser rebaixadas, diminuídas, menosprezadas. Nossa luta está só começando e não queremos menos que a igualdade.

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