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Onde está Deus nessa hora?

Foto: G1 Minas

Num momento de tragédia como esse que estamos atravessando, quando um país inteiro chora pelas vidas devastadas em Brumadinho (MG), é comum as pessoas se perguntarem onde está Deus. Como Ele pode permitir que algo tão terrível aconteça a pessoas inocentes? Fatos como esse justificam a não-crença dos ateus e levam muitos a perder a fé, afinal de contas, como pode Deus existir e coisas desse tipo acontecerem?

Reconheço a legitimidade da dor de quem se pergunta isso. Na hora do desespero recorremos sempre às instâncias superiores, questionando, cobrando, exigindo uma explicação. É o nosso lado mais humano e irracional se manifestando e nem Jesus escapou dele. Pouco antes de morrer na cruz, Ele também ergueu os olhos e perguntou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparastes?” (Mt 27:46). É assim que nos sentimos diante de uma tragédia: completamente impotentes.

No entanto, adotar essa postura para toda a vida diz mais sobre a nossa cultura “mágico-cristã” do que sobre uma possível busca genuína, mas sem sucesso, por algo maior. Sim, nós aprendemos a ter uma fé infantil. Uma fé que nos leva a pensar em Deus como um manipulador de ventríloquo, que controla cada passo nosso, que tira e coloca obstáculos à nossa frente como num passe de mágica. Agimos de forma inconsequente e esperamos que Deus atue como um “Poderoso Chefão”, mudando os efeitos dos nossos atos e mexendo com a vida dos outros para salvar a nossa. No fundo, muitas vezes acreditamos que as nossas obras e a nossa “boa” conduta é capaz de mobilizar Deus a ponto de fazê-lo interferir milagrosamente em coisas absurdamente grandes e também em coisas banais.

Esquecemos, no entanto, de um detalhe importante: Deus nos dá o livre arbítrio. Ele não se impõe pra nós, mas permite-nos escolher se vamos seguí-Lo ou não (“Eis que estou à porta e bato…” – Ap 3:20). Ele nos deu uma capacidade racional que nenhuma outra espécie tem e nos deu domínio sobre todas as criaturas (Gn 1:26). Porém, junto com grandes oportunidades vêm também grandes responsabilidades (“a quem muito foi dado, muito será cobrado” – Lc 12:48). Por ser um Deus de justiça, Ele permite que façamos as nossas escolhas – inclusive em relação a Ele -, mas não tira delas as consequências.

Não podemos esquecer que Deus é pai (ou mãe, como entendem alguns) e nenhum pai ou mãe, por mais que ame o seu filho, pode privá-lo de viver as consequências dos seu atos. Infelizmente, muitas tragédias que vemos acontecer são apenas resultado das nossas escolhas, do nosso estilo de vida, da nossa falta de amor e cuidado com o próximo e com a natureza. Como Deus pode interferir em realidades das quais Ele foi totalmente excluído?

Sim, muitas vezes vidas inocentes pagam o preço da nossa iniquidade. Não acredito que essa seja a vontade de Deus, mas acontece porque nós viramos as costas para o nosso criador e desprezamos a sua criação, agindo como se fóssemos o centro do universo. Estamos bem longe do propósito divino, mas exigimos que Deus aja como se tivéssemos Lhe dado espaço para atuar em nossas vidas.

Deus não nos trata como peças de um jogo e não nos criou para brincar de manipular vidas ao seu bel-prazer. Deus quer estabelecer conosco uma relação adulta e madura, para que possamos crescer e viver plenamente o que Ele sonhou pra nós: uma sociedade em que pessoas diferentes e imperfeitas se ajudam mutuamente e superam suas diferenças e imperfeições. Isso só não acontece porque, de forma egoísta, nos recusamos.

Portanto, ao meu ver, são as ações (ou omissões) humanas que provocam as tragédias. Deus não tem parte nisso. Conhecendo a nossa natureza caída, Jesus nos advertiu que no mundo teríamos aflições (Jo 16:33), mas prometeu deixar conosco o Espírito Santo consolador (Jo 14:16-17). Ele, sendo Deus, também enfrentou o sofrimento quando esteve por aqui e isso nos dá uma amostra de que a passagem pela Terra não é a parte mais importante da nossa história. Essa vida terrena é apenas o caminho (doloroso) para chegar à morada que Deus tem preparado para nós: novos céus e uma nova terra (Ap 21:1-7)

Creio que Deus neste momento também está sofrendo diante da tragédia de Brumadinho, ocasionada pela ganância, ambição, irresponsabilidade e falta de compromisso dos homens com a vida do próximo. Isso não estava nos planos dEle (nunca esteve).  No entanto, como pai amoroso que é, está de braços abertos para nos consolar e enxugar nossas lágrimas, pois “só ele cura os de coração quebrantado e cuida das sua feridas” (Sl 147:3).

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