Cristianismo e meio ambiente: uma relação negligenciada
28 de setembro de 2020

O voto de cajado e as “vantagens” do crente na política

Com a proximidade das eleições, é comum vermos muitos candidatos e candidatas aparecendo em lugares que não costumam aparecer fora do ano eleitoral. Todos conhecem essa prática interesseira, mas ela ainda é pouco problematizada num meio em que costuma ser muito eficiente: as igrejas.

O IBGE já mostrou que os evangélicos são o grupo religioso que mais cresce no Brasil. A indústria cultural já vem investindo na gente há alguns anos, pois percebeu que somos consumidores vorazes de músicas, filmes, livros e outros produtos culturais que estejam vinculados à nossa fé. As eleições de 2018 apenas confirmaram o nosso poder quando revelaram a força do apoio dos evangélicos na vitória de Bolsonaro. Acho que hoje pouca gente duvida do peso dos evangélicos enquanto grupo religioso. Temos um poder enorme nas mãos, mas infelizmente não sabemos como usá-lo. Por isso despertamos tanto o interesse dos políticos: para eles, somos um povo numeroso, facilmente manipulável, que se impressiona com pouco e que tem o poder de eleger qualquer um. Estão errados? Em parte, não.

 

Político “crente” sai na frente

 

A cada eleição, cresce o número de candidatos que se intitulam “Pastor”, “Irmão”, “Missionário” etc. e os púlpitos das igrejas são cada vez mais disputados por eles. Identificar-se como político crente hoje confere um certo capital simbólico e consiste num grande passo para conquistar a simpatia dos evangélicos, considerando que muitos deles costumam nutrir a ilusão de que pessoas crentes são necessariamente honestas e direitas. E uma vez conquistada a simpatia dos evangélicos, a vitória nas urnas é quase certa.

Ao conseguir espaço nos púlpitos, esses candidatos chegam muito bem preparados, falando o que os fieis querem ouvir, citando versículos bíblicos e prometendo mil melhorias para a igreja. Muitos nem são evangélicos de verdade, mas aprendem o “evangeliquês” com maestria para dialogar com o público que querem atingir (não, Bolsonaro não foi o primeiro a fazer isso).

Esse oportunismo, que se disfarça de irmandade, alimenta a velha política do toma-lá-dá-cá, já que os(as) candidatos(as) sempre prometem defender as pautas e valores evangélicos e, de quebra, beneficiar as igrejas que o apoiarem. Precisamos nos perguntar, no entanto, se realmente há a necessidade do político ser evangélico para nos representar e se os benefícios que ele promete trazer para a igreja são da sua alçada enquanto político ou são apenas uma forma de comprar voto. Ao meu ver, qualquer pessoa que seja honesta, bem preparada, bem intencionada e que tenha responsabilidade com o patrimônio público pode assumir um cargo político, independente da religião que professa – afinal, bons valores não são exclusividade do cristianismo e a religião é uma escolha pessoal, não devendo, portanto, constar no plano político de nenhum candidato. Além disso, o que são as promessas de beneficiar a igreja apoiadora se não uma forma de cooptar as pessoas e oferecer-lhes uma vantagem para votar em determinado(a) candidato(a)? Que diferença há entre essas promessas e uma oferta de propina? Na minha opinião, nenhuma.

 

Não existe almoço grátis

 

Se por um lado precisamos apurar a nossa visão e audição para esses candidatos que se dizem crentes, mas na verdade só querem usar os fieis, também precisamos prestar atenção na nossa igreja e nos nossos líderes. Não é ético nem correto usar a casa de Deus como palanque eleitoral nem transferir o prestígio do pastor para determinado candidato. O nome disso é voto de cajado: quando uma liderança usa do seu poder de influência para fazer seus liderados elegerem e até trabalharem de graça para determinado político. Se a sua igreja dá espaço nos cultos para algum candidato discursar, desconfie; se o espaço físico da sua igreja é cedido para ações de campanha eleitoral (mesmo que sejam ações sociais), desconfie; se seu pastor pede votos para alguém, desconfie. Não é papel da igreja te dizer em quem você deve votar, já que o voto é pessoal e secreto. Se tem alguém tentando fazer isso, pode ter certeza que existem outros interesses por trás.

Eu, como jornalista que trabalha no meio político há alguns anos, vejo com frequência lideranças eclesiásticas participando de conchavos, usufruindo de benesses e ganhando muito dinheiro para oferecer a sua igreja de bandeja pro candidato A ou B. Nós, enquanto povo evangélico, somos moeda de troca para pastores mal intencionados que só querem garantir vantagens para si. Eles oferecem nosso voto, literalmente, porque sabem do peso que a sua palavra de pastor ou de líder tem naquele ambiente e sabem que conseguem influenciar centenas de pessoas. Mas não se engane: nem só de propina em espécie ou cargos de confiança vivem os pastores que se prestam a esse papel. Muitas vezes eles trocam seu apoio por muito pouco, como um milheiro de tijolos pra terminar a reforma da igreja (ou da própria casa), uma bateria pro grupo de louvor ou coisas do tipo, o que não deixa de ser corrupção. Se queremos acabar com a roubalheira na política, que tanto tem prejudicado a população, não podemos admitir atos corruptos em nenhum nível e temos que cortar o mal pela raiz. A igreja não deve, de forma alguma, compactuar com esse tipo de atitude que só ajuda a perpetuar gente desonesta no poder. 

 

Fé e consciência andam juntas

 

Jesus era um homem altamente consciente e que nos deixou um legado de cristianismo politizado, que defendia os pobres e as minorias e não admitia a opressão dos fracos pelos mais fortes. A nossa luta, portanto, é para que a igreja seja um espaço não só de fortalecimento e exercício da fé, mas também de desenvolvimento de consciência social e política, seguindo os passo de Jesus. Essa consciência, porém, não é desenvolvida através de doutrinação partidária nem voto de cajado. É um trabalho de base que vai nos dar ferramentas para escolher por conta própria a quem vamos dar nosso voto, usando o nosso senso crítico e a nossa formação. Mas parece que essa emancipação é justamente o que mais amedronta os mercadores da fé e os políticos pilantras. Por isso eles boicotam tanto as discussões mais críticas nas igrejas e são também os maiores patrocinadores da fé alienada, que se apoia em elementos mágicos e num Deus que existe apenas para atender os caprichos individuais do fiel.

Por isso, prudência e atenção são palavras-chave nesse período eleitoral. Precisamos saber identificar não só os políticos mal intencionados que querem usar a igreja como escada para suas ambições, mas também as igrejas e lideranças corruptas que estão dispostas a se vender em troca de algumas moedas de ouro. Para isso, é preciso ter em mente três coisas: 

1) a “parceria” eleitoreira entre igrejas e candidatos evangélicos nunca funciona em benefício do povo, ao contrário: só quem perde somos nós, pois ajudamos a eleger canalhas que não estão nem um pouco preocupados com os nossos valores ou com as nossas necessidades. Portanto, toda e qualquer associação entre políticos e igreja é suspeita.

2) Discursos são muito fáceis de ser montados e os políticos estão cercados de especialistas que lhes orientam a falar tudo que seu eleitorado quer ouvir, da forma como ele gosta de ouvir. Mas mais importante do que o discurso é a prática. Não podemos achar que só porque o candidato anda com a Bíblia na mão e se diz cristão, está falando a verdade. A maioria não está.

3) A pretensão de impor valores cristãos para toda uma cidade, estado ou país não é legítima nem democrática, mas sim um desrespeito à diversidade e à liberdade religiosa garantida pela Constituição. Precisamos acabar com essa nossa síndrome de colonização, que nos leva a querer converter todo mundo de forma compulsória. O Evangelho não funciona assim. Portanto, se um candidato promete colocar sua crença religiosa acima de tudo e pautar suas ações políticas com base na religião, e não na lei, ele já mostra que não serve para governar em um país tão plural como o nosso. Vamos deixar o trabalho de missões para os missionários e para os vocacionados, pois cargo político não é lugar pra converter ninguém. 

Essas três premissas básicas já ajudam bastante na hora de fazer nossa escolha. No entanto, no Novo Testamento Jesus deixou várias outras dicas de como reconhecer falsos profetas e fariseus de discurso vazio. Acredite: elas nunca foram tão atuais. Vale a pena reler e relembrar, pra ficar de olhos bem abertos nessa e nas próximas eleições. 

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