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O sexo na hierarquia dos pecados

Era para ser um culto normal naquela manhã de domingo. Tínhamos acabado de chegar quando ouvimos o pastor começar a falar sobre um casal da igreja. O casal, que estava se preparando para casar, o procurou para confessar que havia se relacionado intimamente e, segundo ele, houve arrependimento e quebrantamento na confissão. Neste momento eu me perguntei por que expor isso para toda a igreja. Foi quando o pastor falou que a moça estava grávida. Mais uma vez, ele reiterou o arrependimento dos dois, falou que ambos estavam sendo acompanhados por um grupo de líderes e que isso estava sendo exposto ali para evitar a maledicência. Depois, chamou o casal e seus líderes para uma oração e, em seguida, pediu que a igreja os abraçasse, demonstrando amor e compreensão. Ambos estavam em lágrimas.

Apesar da forma muito amorosa e cuidadosa com que o pastor tratou esse casal, fiquei me perguntando se isso era realmente necessário. Por que expor a intimidade de dois adultos diante de tanta gente desconhecida? Por que eles deveriam estar envergonhados do que fizeram quando muitos também o fazem, mas não dão a cara pra bater? E, principalmente, por que os pecados sexuais ainda são considerados os mais graves dentro de uma igreja? Por que todos os membros que procuram o pastor para uma confissão não são, como este casal, levados para o púlpito, onde confessam publicamente seu pecado e recebem o consolo da igreja?

Tive pena dessas duas vidas expostas. Tive pena desse casal que carregaria a culpa do pecado por um bom tempo (pelo menos até a criança nascer e o casamento acontecer). Tive pena porque certamente sua vida sexual seria afetada por tudo isso, assim como a de vários outros casais que passam por situações semelhantes. Neste momento orei a Deus e perguntei se era realmente isso o que Ele queria que fosse feito.

 

 

Hipocrisia

 

 

É difícil encarar positivamente uma atitude dessas quando a gente sabe que outros pecados não são expostos dessa forma. O que aquele casal fez foi o que muitos já fazem, com uma diferença: a gravidez indesejada. Eles foram traídos pelo próprio desejo pois, com a gravidez, todo mundo saberia o que, nos outros casos, não vem a público. Aquela gravidez seria como uma afronta, esfregada todos os domingos na cara de cada membro e de cada líder como sendo uma falha da igreja – afinal, “como deixamos isso acontecer em nosso meio? Não podemos admitir isso, somos infalíveis! Vamos fazê-los pagar um preço e que sirva de lição para os outros!”. Eu sei que parece caricato demais e talvez não tenha sido essa a intenção do pastor ao fazer o que fez. Mas como comunicadora que sou, aprendi que todo discurso tem um dito e um não dito. Muitas vezes o não dito grita na nossa cara. É esse o caso.

A grande questão aqui não é o “ter que revelar publicamente”, não é o pecado da fornicação e nem o fato de muitos também praticarem. A grande questão é a hipocrisia. Quantas pessoas dentre as que foram abraçar aquele casal naquele domingo também não viveram isso (talvez sem a gravidez antes da hora)? Por que a igreja insiste em não falar sobre isso e em usar alguns como bode expiatório? Por que fazer uma hierarquia de pecados e colocar os pecados de ordem sexual como os mais graves quando nem Jesus agiu dessa forma? Na realidade, usando uma linguagem bem grosseira, mas bem “crentês”, o que eu vi naquele domingo foram dois fornicadores sendo consolados por uma multidão de adúlteros, avarentos, desonestos, maledicentes, perversos, egoístas e (é claro!) fornicadores. Somos os hipócritas a quem Jesus tanto combatia. Será que ainda falta muito para entendermos que SOMOS TODOS PECADORES? Não há pecado maior ou menor e, por esse motivo, nada nos dá o direito de apontar o pecado do outro quando temos em nossas vidas um pecado tão grave quanto. A Bíblia deixa bem claro que é a graça de Deus quem nos salva, não há mérito nenhum em nós mesmos (Ef 2:8-9). Nós não passamos de trapos de imundícia (Is 64:6). É Deus, com sua infinita bondade, que nos abraça e nos restaura a cada dia.

“E qual seria a solução?”, você deve estar se perguntando. A solução é deixar a hipocrisia de lado. É admitir que sexo é uma necessidade, assim como água e comida, e que devemos ter controle sobre nosso corpo, sim, mas que em algum momento isso não será mais possível; é orientar para que os jovens possam escolher caminhos que levem a uma sexualidade saudável, mas sabendo que nem todos irão seguir as orientações; é deixar bem claro que haverá consequências boas e ruins para qualquer que seja a escolha de cada um e deixar que escolham seu caminho e aprendam a lidar com  peso de suas decisões;  é admitir que, por mais que a igreja oriente o contrário, muitos casais transam antes do casamento, sim; é trabalhar com o que se tem, e não fazer de conta que tá todo mundo seguindo a regra e punir aquele que, porventura, é pego “em flagrante”; é parar de incentivar casais que mal se conhecem a casar logo para evitar que “se abrasem” e mostrar a eles o que é e em quê consiste um casamento de verdade, para que tomem uma decisão lúcida e evitem futuros divórcios ou famílias desestruturadas; é, basicamente, informar e dialogar de forma verdadeira e honesta. A igreja tem medo porque acha que se fizer essas coisas, ninguém mais vai querer se guardar para o casamento. E daí? Cada um faz com o seu corpo o que bem entende, o papel da igreja não é colocar cinto de castidade em ninguém. O papel da igreja é informar e orientar, para que as pessoas entendam o princípio da pureza do casamento e não sejam mais obrigadas a engolir uma regra aparentemente sem sentido. Se elas quiserem seguir, ótimo. Se não quiserem, têm de estar cientes das consequências (e aí a igreja entra novamente no seu papel de orientação). De posse de todas as informações que a igreja puder dar, a pessoa faz o que quiser, pois cada um de nós só tem que prestar contas a Deus. Não é assim com os demais pecados? Por que quando se trata de sexo tem que ser diferente?

Oremos e trabalhemos para que um dia a igreja chegue nesse patamar.

2 Comentários

  1. Leilane disse:

    Ah…Isabela, que texto, que bálsamo, que desabafo…que verdades, que sinceridades…amei, amei, amei!
    Precisamos disso mesmo, de encarar as nossas falhas como igreja, nossa incapacidade de lidar com o mundo real, com as nossas reais necessidades, como a nossa humanidade.
    Como agradeço seu texto, vc nao imagina o quanto!
    Vibrando aqui. Ontem mesmo conversei com um pastor sobre esse assunto e chegamos as mesmas considerações que vc.
    Muitíssimo Obrigada!

  2. Patricia disse:

    Pecado é pecado não tem grau maior ou menor . Porém o pecado sexual gera mais polêmica pois geralmente vem acompanhado de uma uma consequência, no geral a gravidez . Para os outros pecados acham sempre uma justificativa para que os comete, mas é inadmissível uma pessoa perder o controle sob seus impulsos sexuais. Quando se cai dentro da igreja no pecado sexual é descoberto o sofrimento é muito pior pois pecou contra seu próprio corpo e tem que arcar com as conseqüências e ainda atura o julgamento hipócrita dos irmãos.
    Já vi um casal passar por uma situação como a que descreveu e ouvi muitos comentários que chegavam a ser desumano. Ouvi de uma senhora que pelo fato da jovem abraçar o namorado depois que foram descobertos era uma afronta à igreja, eu como igreja me entristeci . Falta amor! Falta Jesus!

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