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O racismo institucional e o papel dos brancos

À esquerda, o adolescente João Pedro, morto a tiros dentro de casa. À direita, o empresário Ivan Storel agredindo verbalmente a polícia. Fotos: Divulgação

João Pedro foi assassinado dentro de casa por policiais pagos pelo Estado para garantir a segurança da população. Ele não estava na rua, não estava em “atitude suspeita” nem andando com “gente errada”. Estava em casa. Mais um negro inocente morto de forma covarde pela truculência e arbitrariedade da polícia nos bairros periféricos do Brasil.

Ivan Storel também estava em sua casa, em Alphaville – agredindo a esposa na frente da filha. Quando a polícia chegou, não entrou atirando. Na verdade, não passou da calçada e foi humilhada pela arrogância de um homem bêbado, agressivo, que xingava e dizia que seu salário era de 300 mil reais. Os policiais ficaram parados, ouvindo os desacatos, enquanto Ivan ligava para pessoas influentes e mandava trazer o secretário de segurança pública de São Paulo. Ele foi levado para a delegacia, mas foi solto no mesmo dia.

Impossível não comparar esses fatos que aconteceram em datas tão próximas, mas com desfechos tão diferentes. A mesma polícia que matou um inocente dentro de casa sem nenhuma justificativa não esboça a mesma truculência diante dos insultos e ameaças de um provável agressor de mulher. A diferença entre os dois casos? João Pedro era negro, pobre, morador da favela. Ivan era branco, rico, morador de Alphaville. Um não tinha a quem recorrer diante da injustiça. O outro tinha amigos influentes para recorrer mesmo estando errado.


 

“Você é macho na periferia, mas aqui é Alphaville”


 

Apesar do racismo em nossa sociedade ser negado reiteradamente, especialmente por membros da elite, eles sabem muito bem se valer das práticas racistas quando é de seu interesse. Não somos racistas, mas tudo bem entrar na favela atirando. Só que em Alphaville a coisa é diferente. Lá as pessoas ganham 300 mil por mês.

O discurso de Ivan Storel é cruel, arrogante, injusto e covarde, mas é o retrato da mentalidade elitista e racista que domina o nosso país. Munido da certeza da impunidade, ele falou explicitamente o que muitos não falam, mas pensam e pautam suas ações em cima dessa convicção. Aqui, brancos ricos não precisam pagar pelos seus crimes porque pretos e pobres pagam em seu lugar. Até quando essa lógica perversa vai reinar?


 

“Se a polícia chamar, vocês atendem de boa… pelo amor de Deus!”


 

Cientes do racismo institucional da polícia, muitos negros aprendem desde muito cedo a não reagir no momento das investidas agressivas. Aprendem a engolir as violências para sobreviver. Eles sabem que ao menor sinal de reação a uma abordagem truculenta, podem não ficar vivos.

Como seria se um negro tivesse a ousadia de chamar um policial de lixo durante uma operação, xingá-lo e dizer que vai chutar a sua cara? Será que poderia contar com o equilíbrio emocional do policial para aguardar reforço e conduzí-lo à delegacia?

A tia de João Pedro sabia que não adiantava reagir nem questionar naquela hora. Orientou-o a ter uma atitude pacífica, “pelo amor de Deus”. Mas não adiantou, porque nem assim a vida dele foi poupada. O adolescente não teve sequer a chance de explicar nada, quando na verdade ele é quem deveria pedir explicação pelo que estava acontecendo. O que fazer quando bater de frente não funciona e tentar dialogar funciona menos ainda? A quem recorrer? Como garantir a sobrevivência em meio a essa barbárie?

Há um contraste vergonhoso entre a reação da elite e a reação da favela diante de uma ação policial. E há um contraste vergonhoso entre uma ação policial num bairro nobre e numa favela.


 

Brancos também devem reagir


 

O caso de João Pedro não é uma exceção, é uma regra. Todos os dias tem jovens negros inocentes sendo presos ou assassinados para cumprir uma política de extermínio da população negra, uma “limpeza étnica”, uma necropolítica. Os negros já lutam há séculos por igualdade, dignidade e respeito, por políticas inclusivas, por reparação e por tantos danos que lhes são causados reiteradamente ao longo da história. Mas essa luta não deve ser só deles. A branquitude precisa assumir sua posição nesse embate.

Foram os brancos quem colocaram os negros nesse lugar, por isso agora não basta ser contra o racismo e dizer que não compactua com isso. Tem que ter ação. Precisamos abraçar essa luta com eles e mostrar nosso posicionamento muito além das redes sociais. Eu como mulher branca fico extremamente indignada quando vejo a política de morte implementada contra a população negra, mas a minha indignação não basta. Quero dialogar mais com os movimentos negros e saber o que eu posso fazer pra ajudar de forma efetiva nesse combate. Convido todas as minhas leitoras e leitores brancos a fazerem o mesmo, porque assim como feminismo não se debate apenas entre mulheres, racismo não se debate apenas entre negros. Somos parte causadora desse problema, precisamos estar envolvidos na sua solução.

Djamila Ribeiro, filósofa e ativista negra, em seu livro Pequeno Manual Antirracista, oferece várias orientações para quem deseja se engajar de verdade nessa luta. Vale a pena ler o livro completo, mas hoje quero destacar aqui a parte do “combata a violência racial”:


 

No Brasil, existem vários movimentos e organizações engajadas em questionar o modelo punitivista e em combater abusos por parte do Estado, como a Iniciativa Negra, a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, o projeto Movimentos, o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre outros. Há várias maneiras de apoiar o trabalho dessas pessoas, quer seja financeiramente, divulgando as iniciativas ou comparecendo a eventos e manifestações. (RIBEIRO, 2019) (grifos meus)


 

Não é favor nem é benevolência, é nossa obrigação. Se tem mãe chorando a perda de um filho inocente, essa dor tem que ser nossa também, por uma questão de justiça social e por uma questão de obediência à nossa fé: “chorai com os que choram” (Rm 12:15), “busque a justiça […]. Lute o bom combate” (1 Tm 6:11-12). Está mais do que na hora de entrarmos nessa luta e tentar amortecer nossa dívida.



 

 

*Esse texto não tem como objetivo generalizar as ações policiais nem tampouco classificar todos os agentes como truculentos e racistas. Sabe-se que há exceções, mas os dados comprovam que existe, de fato, em caráter institucional, uma política de extermínio da população negra em curso – a própria Djamila Ribeiro elenca esses dados no Pequeno Manual Antirracista. Reconhecer isso é um passo importante para que a instituição policial possa rever seus modos de atuação, visto que até então o que se tem visto é a negação desse fato. No referido livro, Djamila também constata que o Brasil é o país onde mais morrem policiais, a maioria da classe trabalhadora e advinda das mesmas periferias onde os jovens negros são assassinados. Para a autora, “se a polícia é o braço armado do Estado opressor, é também um dos lados que cai com essa guerra” (Ribeiro, 2019). Esse é, portanto, mais um motivo para pôr um fim nessa política de estado racista e genocida, financiada por homens brancos que não correm risco algum com a sua operacionalização.



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