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Dia desses, enquanto dirigia, ouvia um programa de rádio em que os apresentadores comentavam a performance da cantora Elba Ramalho num show que ela fez em Salvador. Em meio aos elogios e ressaltando que a voz dela está melhor do que nunca, um deles soltou a frase “ela está uma menina!”. Minha mente parou neste comentário.

Por que quando se quer elogiar uma mulher não se pode considerar a idade que ela tem de fato? Por que sempre temos que rejuvenescê-la, como se a velhice fosse uma vergonha? Elba Ramalho não é uma menina – está bem longe disso. E justamente por não ser uma menina é que ela está no patamar onde está. Seus quase 70 anos lhe trouxeram conhecimento e segurança para fazer o que ela faz da forma brilhante como faz. Se hoje ela está melhor do que nunca, como disseram os apresentadores do programa, é graças à sua idade e à experiência que pôde adquirir, graças ao tempo que teve para se aprimorar e se diferenciar de uma menina.

Situações como esta são muito comuns no nosso cotidiano, pois vivemos numa sociedade em que envelhecer é quase um crime – principalmente para as mulheres. A velhice está quase sempre associada à feiura. Com frequência, escutamos mulheres mais velhas falando de forma saudosa dos seus anos de juventude, como se a idade tivesse lhes tirado a beleza e a vitalidade. É como se ser velha fosse uma espécie de não-existência. Por que é tão difícil para nós aceitar a passagem do tempo?

Depois que li O Mito da Beleza, de Naomi Wolf, pude entender um pouco da engrenagem que está por trás da exaltação da juventude feminina. Resumirei em poucas palavras: na sociedade machista em que vivemos, a juventude simboliza o excesso de ingenuidade, a falta de experiência e de sabedoria. Logo, quanto mais jovem for a mulher, mais fácil será manipulá-la e, consequentemente, ter autoridade e exercer domínio sobre ela – isso em todas as áreas da vida: profissional, pessoal, financeira, sentimental, mas principalmente na área sexual. E é aqui que a autora se detém para explicar o que parece ser o ponto chave na exaltação da juventude: a insegurança generalizada por parte dos homens, que quase sempre os leva a buscar parceiras mais jovens para que possam se sentir no controle quando o assunto é sexo. De acordo com essa lógica, mulheres mais velhas costumam ser desvalorizadas e descartadas no mercado dos relacionamentos por causa de uma provável experiência sexual que lhes dá capacidade de avaliar o desempenho do seu parceiro – o que assusta MUITO os homens. O medo de ser considerado “ruim de cama” está sempre rondando as mentes masculinas e não é à toa a necessidade que eles têm de auto-afirmação, seja valorizando o tamanho do pênis, seja competindo com outros homens para ver quem consegue mais mulheres. Logo, a valorização da juventude acaba sendo uma forma de mascarar a própria insegurança, já que, teoricamente, a mulher mais velha sabe identificar um parceiro sexual ruim, enquanto a mais nova ainda não tem experiência para isso e irá se iludir mais facilmente. O machismo, é claro, é um  terreno fértil para a proliferação desse tipo de pensamento fálico-erotizado-dominador que atua, muitas vezes, a nível inconsciente.

Portanto, a exaltação da juventude existe não porque as mulheres jovens são mais bonitas e atraentes, mas sim porque são mais fáceis de controlar, principalmente no que diz respeito ao seu desempenho sexual. Esta é a verdadeira intenção mascarada por um discurso elogioso de beleza e vitalidade. Não tem muito a ver com a idade em si, mas com a bagagem que ela traz consigo. Mulheres mais velhas (em tese) não se deixam manipular tão facilmente, não se iludem com qualquer historinha e costumam ter mais clareza do que gostam e do que querem. Logo, a sua segurança e experiência representam uma ameaça a um sistema que quer ver as mulheres oprimidas e controladas.

Supervalorizar a juventude e nos obrigar a viver lutando contra o tempo na verdade são formas sutis de nos fazer odiar a experiência de vida que adquirimos com o passar dos anos, de nos fazer abrir mão de nossa história e desprezar tudo o que aprendemos até então, para que também nos tornemos presas fáceis do machismo. Além disso, o incentivo da busca eterna pela juventude, assim como a busca desenfreada pela beleza padronizada e pela magreza, são também formas de nos manter ocupadas, para que não tenhamos tempo de perceber o que realmente importa. Como disse a própria Naomi Wolf, é um sedativo político.

Que sejamos mais espertas em relação às armadilhas do machismo para detonar a nossa auto-estima. Cada idade possui sua beleza própria e envelhecer não é um castigo: é uma bênção que deve ser celebrada, pois nem todos têm essa oportunidade. Desconstruir a ideia de que a velhice é algo ruim é um desafio diário, mas cujos frutos serão colhidos por todas nós em qualidade de vida e amor próprio.

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