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O que a igreja tem a ver com vaginismo?

Certa vez, depois de dar uma palestra sobre feminismo numa igreja, uma senhora que era esposa de pastor me chamou num canto e me confidenciou: desde quando se casou, ela não tinha vontade de fazer sexo e sentia dores horríveis durante o ato, mas seu marido não entendia e ignorava suas queixas, obrigando-a ter relações sexuais sempre que ele queria. Somente quando já estava na meia idade é que ela descobriu que sofria de vaginismo e começou a se tratar.

Recentemente uma leitora do blog me sugeriu que escrevesse sobre a relação entre uma rígida criação religiosa e o desenvolvimento do vaginismo. Confesso que nunca tinha lido nada sobre isso e estranhei o pedido, mas bastou que ela me enviasse alguns links e a minha ficha caiu. Imediatamente lembrei do episódio da senhora citada no início e tudo começou a fazer sentido.

A igreja cristã tem sustentado há séculos o discurso de demonização da mulher e sua sexualidade, usando Eva como protótipo de pecadora que influenciou o homem a pecar. Esse discurso traz consigo um determinismo que diz que todas nós, como descendentes de Eva, temos uma natureza inclinada para o pecado, diferente dos homens, que foram “induzidos” ao erro pela nossa “astúcia”. A igreja também foi a responsável por associar o pecado de Eva ao sexo e, assim, disseminar a crença de que sexo é algo sujo, errado, feio (não era à toa que muitos casais casados, durante um longo tempo na história, mantiveram relações sexuais usando roupas com buracos na genitália, pois o sexo era somente para fins de procriação). Ainda hoje é fácil encontrar igrejas com esse discurso. Mais fácil ainda encontrar aquelas que, mesmo não o defendendo abertamente, orientam as mulheres a adotarem posturas machistas e subservientes no que diz respeito à sua vida conjugal e sexual, revestindo tal comportamento com uma áurea de virtude e santidade. É difícil remover essa ideia que está tão enraizada em nosso meio e que na maioria dos lugares nunca foi contestada.

Acho que não é novidade para ninguém o conservadorismo da igreja em relação ao sexo, ao corpo feminino e ao lugar da mulher na família e na sociedade. Mas a cada dia eu me surpreendo mais com o potencial nocivo que esse conservadorismo tem, com a sua capacidade de nos paralisar e prejudicar por completo algumas áreas da nossa vida sem que consigamos associar todas essas coisas.

Mas quando a gente para pra pensar, vê que é tudo muito lógico: uma mulher que passa uma vida inteira ouvindo condenações sobre o sexo e sobre pessoas que adotam posturas sexuais mais liberais; que é ensinada de forma enfática e sistemática a ser recatada a todo custo; ensinada a esconder seu corpo; a considerar que a virgindade é o que ela tem de mais precioso para oferecer a um homem, dentre muitas outras coisas do tipo, muito provavelmente vai desenvolver, ainda que em nível inconsciente, uma certa culpa em relação ao sexo. Some-se a isso as reiteradas orientações (errôneas) para que não negue sexo ao seu marido, pois só assim poderá evitar as traições, e é quase certo que ela vá também associar o sexo a uma obrigação. Culpa + obrigação é uma fórmula certeira para espantar o prazer que uma vida sexual pode trazer e, em vários casos, levar o corpo a somatizar esses “comandos” recebidos ao longo da vida.

A Revista Veja, em outubro de 2018, fez uma matéria sobre vaginismo na qual explica:

 

 

 

“O serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) caracteriza o vaginismo como uma reação automática do corpo diante da possibilidade da penetração vaginal. ‘São mulheres que têm dificuldade de ter relação sexual porque contraem tanto a musculatura que não conseguem permitir que o pênis chegue nem perto da vagina’, disse Carolina Ambrogini, ginecologista e sexóloga, ao Portal Drauzio Varella. Algumas pessoas encontram dificuldade até para inserir um absorvente interno, sentindo dor de ferroada ou queimação. O mesmo vale para o sexo.

De acordo com a especialista, na maioria das vezes a causa do problema é psicológica, geralmente envolvendo crenças religiosas que, muitas vezes, demonizam o sexo — principalmente antes do casamento — e cultuam a virgindade como algo sagrado. Outros fatores que podem desencadear a doença são traumas e abusos sexuais.”

 

 

Com essa explicação, é fácil concluir que a educação sexual nas igrejas tem traumatizado várias gerações de mulheres. Não culpo somente a igreja, pois compreendo que ela está inserida numa sociedade que ampara e reafirma valores machistas o tempo todo. Mas é nos espaços religiosos que esse discurso recebe mais holofote e mais peso (mais até do que o próprio Deus).

A nossa mente é um órgão poderosíssimo, capaz de transformar um trauma em uma reação involuntária do corpo. A educação sexual rígida e conservadora de muitas igrejas têm traumatizado mulheres a ponto delas desenvolveram repulsa ao sexo. Mulheres que repudiam o sexo não conseguem ter uma vida conjugal plena. Casamento sem vida sexual saudável não é casamento e traz muito sofrimento para ambos os cônjuges (muito mais para a mulher, claro, que não conta com a “licença para traição”).

Como uma instituição que defende a família pode adotar discursos que só contribuem para implodir a própria família? Será que tem valido a pena manter as mulheres controladas sexualmente às custas da sua saúde mental e conjugal? Será que esses homens tão amedrontados com a ideia da traição são felizes com suas mulheres sexualmente castradas (justamente para que não possam traí-los)? Ou será que a igreja não se importa em alimentar a hipocrisia dos casamentos de fachada, nos quais a mulher infeliz não consegue desfrutar do prazer sexual tão prometido nos púlpitos e o homem, igualmente insatisfeito com sua esposa “travada”, busca se satisfazer com as amantes, incorrendo deliberadamente no pecado de adultério com a permissão velada da sociedade?

O machismo adoece. Corroi a nossa mente. Mina as mais diversas áreas da nossa vida e nos aprisiona em conceitos absurdos e auto-destrutivos. Não está na hora de nós, enquanto igreja do Senhor liberta de toda escravidão, expurgarmos de vez esse câncer e libertarmos as mulheres dessa opressão?

 

 

Para ter mais informações sobre o vaginismo e sua relação com a religião, veja a matéria completa da Veja aqui.

E não deixe de ler também essa entrevista impactante com Linda Kay Klein, que escreveu um livro sobre como escapou da opressão sexual de sua igreja: “Minha criação evangélica quase acabou com a minha vida sexual”.

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