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A mulher e o peso da culpa

Sim, somos culpadas. Se tem uma palavra que se encaixa no perfil de qualquer mulher, essa palavra é CULPA. Duvida?

– Somos culpadas por sair pra trabalhar e deixar nossos filhos aos cuidados de outras pessoas (mãe desnaturada!); mas também somos culpadas quando abrimos mão da nossa carreira e muitas vezes da nossa independência financeira para cuidar dos filhos (você se entregou!);

– somos culpadas quando ouvimos cantada barata nas ruas (afinal, que roupa você estava usando?), quando somos assediadas no trabalho (você dá ousadia, né?), quando somos agredidas por nossos companheiros (se você não gostasse de apanhar não estava com ele) e quando somos estupradas (tava fazendo o quê naquele lugar uma hora daquelas?);

– somos culpadas quando não temos o mesmo espaço, o mesmo salário e o mesmo reconhecimento que os homens no mercado de trabalho (mulher fofoca, mulher engravida, mulher falta pra levar filho no médico, mulher não transmite credibilidade….);

– somos culpadas quando lutamos arduamente contra a tentação do sexo durante o namoro – se cedemos, somos fracas e pecadoras e carregamos um peso enorme (você não se deu valor!); se não cedemos, ainda assim pesa a culpa pelo desejo que sentimos (você não tem que alimentar esses pensamentos!);

– somos culpadas quando temos uma vida sexual ativa antes de casar (mulher fácil!), mas também somos culpadas quando nos casamos virgens e não sabemos direito como lidar com o nosso próprio corpo e muito menos com o corpo do outro (você esperou tanto e agora tá com dificuldade???);

– somos culpadas quando nosso casamento vai mal (você tem que ser sábia e virtuosa!), quando somos traídas (alguma coisa você deixou faltar…) e quando nos sentimos infelizes por sermos tratadas com indiferença pelos nossos maridos (você devia estar feliz no seu casamento!);

– somos culpadas quando fazemos uma refeição farta e gostosa (desse jeito você vai engordar!) e quando deixamos de fazê-la para nos manter na dieta (mas você também não pode exagerar, tem que viver!);

– somos culpadas quando exercemos nossa vaidade (não seja tão fútil!) e quando não a exercemos também (você é tão desleixada…!);

– somos culpadas quando envelhecemos naturalmente (você devia se cuidar mais, usar uns cremes…) e quando fazemos plásticas para tentar driblar a passagem do tempo (essa aí tá toda esticada, não tá bonita não!);

– somos culpadas se não casamos (você escolheu demais!) ou se nosso casamento não deu certo (você não teve sabedoria!). Mas quando o nosso casamento dá certo, adivinhe…. foi porque casamos com um homem bom!

– somos culpadas quando não conseguimos engravidar, porque ninguém desconfia da esterilidade do homem, né? Mas também também somos culpadas quando ocorre uma gravidez indesejada (por que você não se cuidou???);

– somos culpadas pelos filhos que temos (pra quê tanto filho se não tem dinheiro?), mas também pelos abortos (engravidou porque quis e agora quer tirar?).

E a lista não acaba aqui…. são muitas culpas! Parece que fomos projetadas para nos sentirmos assim. Mas a boa notícia é que Deus não nos criou para isso.

Quando Jesus veio ao mundo, Ele veio com o propósito de nos redimir do pecado e da culpa. Ele veio para nos libertar (Gl 5:1) e, de fato, nos libertou. Mas existem muitos acusadores tentando nos aprisionar novamente e uma de suas armas mais poderosas é o machismo. Não existe uma mulher sequer que escape ilesa desse tipo de opressão – ainda que muitas não tenham consciência disso.

Se pararmos para analisar, todas essas culpas aqui listadas e outras que nós conhecemos muito bem são oriundas de uma cultura machista que nos impõe quem devemos ser e como devemos agir. É como se a nossa vida e o nosso corpo não nos pertencesse – todos têm direito sobre eles, menos nós. Essa cultura preza pela nossa insegurança e instabilidade emocional, pois assim fica mais fácil garantir a supremacia masculina. Tudo isso pode parecer teoria da conspiração, mas não é. Tente se livrar de vez de uma dessas culpas e você verá a repercussão que isso irá causar nos homens que lhes são mais próximos. Sabe por que? Porque a sua culpa garante o privilégio de vários deles. E tudo é tão naturalizado e exaustivamente repetido que se confunde com o curso normal das coisas. Para nós, mulheres, é uma opressão quase que invisível, mas bem real, que afeta diretamente a nossa felicidade e até mesmo a nossa fé.

Quando entregamos nossa vida a Jesus, somos mais que vencedores por meio dEle, que nos amou (Rm 8:37). Paulo disse que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1). Por isso, não permitamos que as culpas sociais impostas sobre nossos ombros nos afastem dessa verdade e do amor que o Senhor nos concede abundantemente. Não permitamos que nos façam sentir culpadas por sermos quem somos, por agirmos de forma “diferente” ou por não nos enquadrarmos num perfil ideal. Deus ama cada uma de nós do jeito que a gente é. Ele conhece as nossas angústias, sabe da nossa trajetória e das intenções do nosso coração, portanto, somente Ele pode nos julgar. E o que Ele nos oferece é um jugo suave e um fardo leve (Mt. 11:28-30).

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