Não é fácil ler a Bíblia
22 de setembro de 2018
Quando o Evangelho legitimou o ódio?
22 de outubro de 2018

O perigo da omissão

Foto: Google

Um resumo da eleição presidenciável deste ano: de um lado, um partido popular que ascendeu ao poder em meio a milhares de expectativas do povo brasileiro, prometendo mudar a política suja que estávamos cansados de ver, mas que se corrompeu como todos os outros, comeu dos manjares do rei, escandalizou e decepcionou quem depositou nele sua confiança. De outro lado, um candidato que não tem fidelidade partidária (já passou por diversos partidos, entre eles o PP, que tem o maior número de políticos envolvidos com corrupção), passou quase 30 anos no Congresso com uma produtividade bastante duvidosa e que sustenta um discurso de ódio digno do fascismo. É um cenário desanimador, eu sei.

Diante desse quadro, é natural que as pessoas não se sintam nem um pouco representadas e desejem sumir do Brasil no dia da eleição, para não ter que compactuar com esse enredo de terror. Os números comprovam: no primeiro turno, o número de abstenções foi o mais alto desde 1998, com aproximadamente 30 milhões de brasileiros que decidiram simplesmente não votar; 7,2 milhões de votos foram anulados e 3,1 milhões de votos brancos, o que dá um total assustador de 40,3 milhões de não-votos.

Se você está entre esses 40 milhões e acredita que não votar, anular ou votar em branco é um ato de protesto, te convido a repensar essa postura. Você tem toda razão por estar desanimada(o) em ser obrigada(o) a decidir entre os dois presidenciáveis com maior índice de rejeição do país, mas não é se omitindo que as coisas irão se resolver. Não se faz protesto abrindo mão de direitos e o voto é um direito conquistado com muito suor e derramamento de sangue dos nossos antepassados, especialmente para mulheres e analfabetos, que foram os últimos a conquistá-lo aqui no Brasil. Portanto, valorize-o e não abra mão dele.

Mas se você não está a fim de protestar, se sua intenção é tão somente não ser responsável pelo futuro temeroso que podemos ter, saiba que não existe neutralidade em eleição. Se você se omite, permite que outros escolham por você e ainda ajuda o candidato que está na frente. A grosso modo, funciona assim: supondo que o Brasil tenha apenas 10 habitantes, para eleger-se presidente uma pessoa precisa de 6 votos (50% + 1). No entanto, se alguém decide se abster, anular ou votar em branco, ele simplesmente não é contabilizado e o candidato passa a precisar somente de 5 votos para se eleger, pois 5 já é mais da metade dos 9 habitantes que restaram. Esta matéria explica com mais detalhes como a abstenção, a anulação e o voto em branco favorecem o candidato que lidera.

Portanto, ausentar-se das eleições, anular ou votar em branco não é um protesto e tampouco representa neutralidade. A omissão, por si só, já é uma escolha, por mais involuntária que seja, e é uma escolha por quem está em aparente vantagem. Trocando em miúdos, a abstenção e a anulação do voto têm consequências – neste caso, ajudar a eleger um candidato com traços ditatoriais, que promove o ódio e o preconceito, que usa o nome de Deus para angariar votos mas ao mesmo tempo zomba dEle ao defender tudo que Jesus condenou e que representa uma ameaça à democracia. Será que é realmente essa a sua vontade? Será que, enquanto cristãs e cristãos, podemos contribuir para a ascensão ao poder de um candidato que contraria em tudo aquilo que acreditamos?

Que fique bem claro: não estou dizendo, com isso, que quem está do outro lado é um santo e merecedor do nosso voto. Mas vivemos um momento delicado em que a disputa se dá não entre partidos nem entre simples candidatos oponentes, mas entre um discurso escancaradamente fascista, que apoia a ditadura militar e ameaça a nossa segurança (apesar da sua bandeira ser justamente essa, que irônico!), e um modelo de governo que nós já sabemos que é corrupto, mas que nunca ameaçou minorias, nunca promoveu discurso de ódio e nunca ameaçou o regime democrático. Qual desses é o menos pior?

Por isso, não se omita, não fique em cima do muro. Não se assemelhe à igreja de Laodicéia, que ouviu do anjo uma exortação vergonhosa: “quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Ap 3:15-16).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *