Sobre a hipocrisia que é ser cristão
25 de junho de 2019

O mundo plástico das redes sociais

Cena do episódio "Queda Livre", da terceira temporada de Black Mirror. A série faz uma crítica ao modo como nos relacionamos com as tecnologias.





Estamos vivendo uma era plástica, em que tudo tem que ser muito limpo, com uma estética adequada e um ritmo programado. Uma era de vitrines da perfeição, em que todos nós somos manequins estáticos, apenas posando para sermos observados e admirados.

Sou de uma geração que talvez tenha sido a última (ou uma das últimas) a nascer sem internet. Até os meus 12 anos eu vivi sem conexão, portanto, tenho memórias muito vivas de como era esse tempo. Claro que havia muitos problemas. A comunicação não era tão rápida como hoje e fazer uma simples ligação podia se transformar numa missão, com dia e hora marcados. Atualmente temos muito à nossa disposição, mas não temos sabedoria para usar. Toda a imensidão de informação de qualidade que está a apenas um clique de nós é negligenciada e o que era pra ser uma mera diversão de intervalos se tornou protagonista de nossas vidas: as redes sociais.

Não sou pessimista em relação às tecnologias, ao contrário: acho que elas nos trouxeram muitos ganhos, especialmente na comunicação. Mas como nada é perfeito, juntamente com esses ganhos vieram alguns efeitos colaterais que têm me assustado bastante.



Menos verdade, mais objetificação



O primeiro efeito é a perda da autenticidade. Já vi gente comum se tornar especialista em determinados assuntos sem nunca ter estudado sobre eles. Pessoas que aconselham, que ensinam, dão palestras e ganham dinheiro sem saber, de fato, sobre o quê estão falando. Já vi gente de mau caráter e traços sociopatas ser reverenciada e aplaudida por milhares de seguidores que não faziam a mínima ideia de quem ela era em seu dia a dia, longe das câmeras e das lentes de um celular. Já vi casamentos arruinados sendo inspiração para os amigos virtuais, com juras de amor eterno e fotos de jantar romântico. Já vi famílias destruídas posando de família perfeita em volta da mesa; gente que mal se sustenta ostentando viagens, passeios e festas caras; pessoas que não têm uma relação próxima demonstrando amizade por conveniência; gente fingindo ter uma carreira de sucesso quando na verdade é um profissional medíocre; pessoas solitárias querendo provar o quanto são populares e mais uma infinidade de incoerências. Você que está lendo esse texto já deve ter visto tudo isso também.

O segundo efeito colateral é a perda da espontaneidade. Uma declaração de amor não tem o mesmo valor quando feita somente para a pessoa a quem se destina: tem que ser feita em público, para que todos vejam. As redes sociais estão lotadas de gente supervalorizando seus feitos comuns, bajulando as pessoas “certas”, escolhendo roteiros e até companhias não por afinidade, mas pelos likes que terão nas fotos postadas. Tudo é pensado para ser visto, curtido e comentado, senão não vale a pena. Até mesmo um momento íntimo de casal vira um acontecimento nos storys.

O terceiro efeito é a subversão de valores. Atualmente a sede por informação é tão voraz que avaliar a sua veracidade e a sua relevância não é mais tão necessário. O anseio por novidades faz surgir fenômenos vazios de significado e pessoas sem conteúdo buscando desenfreadamente alçar status de celebridade, pois afinal esta é a grande promessa das redes sociais: fazer um anônimo ganhar notoriedade do dia para a noite. Quem não quer ser admirado? Quem não quer ter o poder de exercer influência sobre a vida de muitas pessoas? Até 20 anos atrás, isso só era possível para poucos, mas hoje todo mundo pode! E é em busca dessa promessa que temos objetificado pessoas e supervalorizado coisas. Perdemos o respeito pela vida, a noção de privacidade, a empatia com o sofrimento alheio, tudo em nome de um reconhecimento a todo custo. Como diria o pregador de Eclesiastes: “vaidade de vaidades. Tudo é vaidade!” (Ec 1:2)



Enquanto isso, no mundo concreto…



A hipocrisia e a vida de fachada sempre existiram, a gente sabe. Mas parece que as redes sociais vieram para legitimar esse comportamento, torná-lo uma regra ao invés de exceção. O grande paradoxo está no fato de vermos todos os dias um desfile de gente feliz, perfeita e realizada no Instagram e assistirmos também a um aumento assustador do número de pessoas com depressão. A Organização Mundial de Saúde constatou que, em 10 anos, houve um aumento de 18,4% nos casos de depressão no mundo, sendo o Brasil o país mais atingido da América Latina. Já uma pesquisa feita pela Universidade da Pensilvânia (EUA) mostrou que o uso das redes sociais está diretamente associado ao aumento da depressão, ansiedade e solidão. Isso porque temos uma tendência em comparar a nossa vida real com a vida pouco ou nada real que é mostrada nos feeds.

Claro que não tem nada de errado em querer compartilhar momentos de alegria com os nossos amigos, mas o problema está no excesso: fingir bons momentos, forjar uma vida que só tem felicidade, não conseguir dar um passo sem tirar uma foto pra postar, não aproveitar a presença das pessoas ao nosso redor nem o momento presente para fazer fotos e storys… todos esses hábitos que se tornaram tão comuns nos dias de hoje só contribuem para que tenhamos redes sociais bombadas e uma vida vazia.

Na Bíblia, Deus disse a Samuel que “o homem vê a aparência exterior, mas o Senhor examina os pensamentos e as intenções do coração” (1 Sm 16:7). Não adianta fingir ser o que não é. Por mais que se consiga enganar os outros, não podemos fugir da nossa realidade e muito menos esconder algo de Deus. Esse mundo de ilusões dos holofotes e das redes sociais está nos transformando numa sociedade doente, egocêntrica, fria e deprimida. “O amor de muitos se esfriará”, foi o que Jesus previu (Mt 24:12). E é exatamente o que estamos vivendo.

Está mais do que na hora de repensar o nosso comportamento diante das redes sociais e rever nossas prioridades. Não precisamos nos privar delas (até porque elas trazem muitas coisas positivas também), mas podemos evitar a dependência e não contribuir com esse mar de ilusões, mentiras e desrespeito que elas estão se tornando. O cristianismo nos ensina quais valores devemos priorizar e qual o propósito da nossa vida, e é justamente por termos esse conhecimento que temos também uma grande responsabilidade com nós mesmos e com os outros. Lembremos que “a quem muito é dado, muito será exigido” (Lc 12:48). É nosso dever também criar um ambiente digital mais saudável, útil e verdadeiro.





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