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O milagre do “casamento-cura-tudo”

Acho perigosa a concepção de muitas igrejas que consideram que o início da família está no casamento. Para elas, é a partir daí que se deve começar o trabalho de orientação do casal para que ele consiga formar um lar equilibrado e estruturado. Na minha opinião, o início da família não está no casamento, e sim no namoro. Um casamento não pode ser estruturado e muito menos duradouro se o período de namoro foi conflituoso, sem diálogo e permeado de incertezas. Não consigo compreender como muitos pastores permitem e até incentivam casamentos imaturos, entre pessoas que mal se conhecem ou que não têm condições emocionais ou financeiras de, naquele momento, assumir um compromisso como este. Para mim, é fundamental que a igreja comece a preparar os casais de namorados para o casamento, pois será a qualidade deste namoro que dirá se o casamento será bem-sucedido ou não.

Na prática, o que vejo é uma atitude completamente oposta ao discurso de valorização da família: a igreja quer o casamento a qualquer custo (principalmente para as mulheres, que são duramente cobradas), não se importando com o quão desestruturado possa ser o namoro que o antecede. Mas quando surge a ameaça do divórcio – que é a consequência natural de um casamento impensado –, aí vem a preocupação, os sucessivos aconselhamentos, acompanhamento especial etc. etc. etc.. E se nada disso dá resultado – o que é perfeitamente compreensível –, duas coisas igualmente graves podem acontecer: ou o casal permanece infeliz num casamento de fachada, com medo de enfrentar o tão demonizado divórcio e tornar-se alvo da maledicência alheia, ou ele enfrenta o divórcio e carrega sobre si o estigma de “crente-mal-sucedido-que-não-soube-manter-seu-casamento”, o que muitas vezes vem seguido do afastamento de um dos cônjuges da igreja. Ambos os casos são desastrosos para todos os envolvidos – o casal, os filhos e os parentes mais próximos, que sofrem com o sofrimento de seus entes queridos. Mas tudo isso poderia ser evitado se, durante o namoro, eles fossem corretamente orientados – até para que pudessem enxergar, se fosse o caso, que eles não seriam o casal perfeito e terminar conscientemente o relacionamento.

O problema é a miopia da igreja de achar que o casamento traz plenitude para a relação. Para muitos, um namoro instável, cheio de idas e vindas, se fortalece automaticamente no altar; um casal que se conhece há poucos meses e ainda está na fase cega da paixão vai se amar para sempre apenas com o ritual do casamento; um casal com dificuldades financeiras, que ainda não dispõe de recursos para se sustentar sem a ajuda dos familiares, num passe de mágica vai conseguir permanecer junto e se amando depois de casados; e se o casal for muito jovem, ainda na fase da adolescência, qual é o problema? Eles terão mais tempo para ser felizes casados! É como se o casamento fosse uma solução milagrosa para todo tipo de problema: não importa o que você e seu namorado(a) têm vivido até agora. O que importa é que depois do casamento tudo se resolve. Quem dera fosse fácil assim!

Será que é tão difícil enxergar que a solução para a diminuição de divórcios está na preparação para o casamento? O que é mais fácil: orientar os jovens casais de namorados a tomarem uma decisão consciente e prepará-los para isso ou tentar a todo custo salvar um casamento que já nasceu errado e com pouquíssima probabilidade de dar certo? O grande problema está na hipocrisia da igreja, que prefere empurrar para o altar duas pessoas imaturas ou despreparadas para casar do que lidar com a ideia de que essas pessoas possam se envolver sexualmente antes do casamento. “É melhor casar do que se abrasar”, dizem. Nunca a orientação de Paulo foi tão mal colocada!

É triste pensar que a igreja se preocupa muito mais em controlar a vida sexual de seus membros do que em trabalhar para a saúde de um relacionamento que, futuramente, resultará numa família. É triste pensar que as pessoas dentro da igreja preferem ver seus membros infelizes num casamento do que saber que eles têm mantido relações sexuais antes da hora. Não estou fazendo apologia ao sexo pré-matrimonial, nada disso! Apenas estou querendo mostrar que o foco da preocupação está errado! Enquanto a igreja estiver preocupada em apagar incêndios ao invés de prevení-los, o índice de divórcio entre os crentes continuará aumentando, bem como a quantidade de problemas familiares que um casamento “torto” pode acarretar – como pessoas frustradas dentro de uma relação morta, filhos traumatizados pela falta de amor de seus pais, lares conflituosos e por aí vai. Já que a igreja valoriza tanto a família, não está na hora de repensar essa questão?

Precisamos investir em discipulados específicos para casais de namorados – não importa a idade que eles tenham, se 15 ou 65 anos, o que importa é que a linguagem seja adaptada para cada fase. Precisamos também de pastores e líderes que tenham pulso firme para aconselhar e falar francamente com esses casais, até mesmo para dizer, se for o caso, que não está na hora de casar. Não se trata aqui de impedir casamentos, mas de aconselhar, de mostrar o que precisa ser melhorado ou resolvido até que esse passo seja dado. Se o casal ainda assim insistir… bem, pelo menos eles foram alertados. Ninguém está livre de errar, mas se houver pessoas mais experientes ao seu lado para dar bons conselhos, talvez esses erros possam ser evitados.

Tenho certeza de que se houvesse essa preparação, esse acompanhamento por parte da igreja, muitos casais terminariam namoros frágeis ao invés de terminarem casamentos – que é muito mais traumático. Enquanto instituição que zela pela família, está mais do que na hora de adotarmos métodos mais eficazes e menos hipócritas para protegê-la. Família é projeto de Deus e começa com o namoro. Pense nisso.

1 Comentário

  1. Victória Coura disse:

    É melhor terminar o namoro do que só casar pra apagar a brasa!

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