Sexualidade feminina: libertina ou recatada?
17 de dezembro de 2020
Romantizada ou invisível: a gravidez em mulheres brancas e negras
4 de fevereiro de 2021

O lugar de Maria no Natal

A proximidade do Natal nos remete, obviamente, ao nascimento de Jesus e à grandiosidade desse acontecimento para a história e para o cristianismo. Jesus é, sem dúvida, o protagonista do Natal, mas hoje eu quero dar destaque àquela que abriu caminho para esse protagonismo: Maria. Foi por meio dela que pudemos ter acesso ao Salvador, por isso nada mais justo que lembrar da sua importância nessa época.

Deus poderia ter enviado Jesus de mil maneiras, mas escolheu a forma mais humana: através do ventre de uma mulher. Foi Maria quem aceitou ser a mãe do Filho de Deus, uma maternidade que seria desafiadora do início ao fim. Ao dizer sim, Maria colocou sua reputação e sua vida em risco, pois além de ter sua honra manchada, ela poderia ainda morrer apedrejada, como pagamento pelo pecado da gravidez fora do matrimônio. Mesmo depois de José ter recebido a mensagem do anjo atestando que ela gerava um fruto divino, a história não foi bem aceita pela comunidade. Para se proteger da fúria do conservadorismo patriarcal, Maria teve que buscar refúgio na casa de Isabel, uma parente distante que a acolheu porque entendia os propósitos de Deus – afinal, ela também estava neles.

Os desafios não acabaram por aí. Passado o escândalo da gestação não-convencional, Maria teve que enfrentar a perseguição política contra o seu filho, que ainda era um bebê. Uma determinação genocida do Rei Herodes, cujo objetivo era assassinar Jesus, dizia que todas as crianças com menos de dois anos deveriam ser mortas. Mais uma vez, Maria renunciou a si mesma e à vida que levava em sua cidade natal para fugir, junto com José, e viver escondida no Egito.

Para além das dificuldades de gerar aquele que ameaçaria toda uma estrutura de poder, Maria aceitou também a responsabilidade de criar e educar um homem divino, um Deus humano. O carisma, a coragem e a mente libertária que Jesus tinha vinham da educação que foi dada por ela, juntamente com José (como José era bem mais velho, tudo indica que passou pouco anos ao lado deles, portanto, a educação dada por Maria foi predominante).

Maria sempre soube que Jesus tinha um ministério e cumpriria um plano traçado por Deus aqui na Terra. Mesmo sendo amado pelas multidões, especialmente pelos mais pobres e oprimidos, ele era odiado e perseguido pelas autoridades políticas e religiosas, que eram os que tinham o poder nas mãos. Qual mãe não sofreria com isso? Ela sabia que seu filho seria rejeitado, perseguido e assassinado de forma cruel e injusta para que pudesse cumprir sua missão mas, mesmo com o coração de mãe apertado, sempre o apoiou. E virou sua discípula. Maria teve a humildade de se colocar aos pés do homem que gerou e criou, invertendo a posição de autoridade.

Ela também suportou a dor imensurável de ver seu filho ser acusado, condenado, torturado e morto lentamente, mesmo não sendo culpado. Acompanhou bravamente a via crucis de Jesus, presenciando cenas que nenhuma mãe gostaria de presenciar, somente para mostrar a ele que estava ao seu lado até o fim. Maria testemunhou a morte e a ressurreição de Cristo e deu continuidade ao seu ministério, juntamente com João.

Maria foi uma adolescente ousada e destemida, uma mulher forte e corajosa e uma mãe dedicada e resiliente. A maternidade que ela exerceu, vale ressaltar, foi puramente humana: ela sentiu as dores do parto, renunciou, sofreu, se preocupou, chorou… Maria sentiu na pele a pobreza e a injustiça que tantas mães ainda sentem hoje em dia, ao ver seus filhos serem presos, agredidos e assassinados sem justificativa. Foi essa humanidade de Maria que forneceu uma base forte pra Jesus e que formou a humanidade que Deus queria que ele tivesse. Maria pavimentou o caminho pra que Jesus pudesse agir e foi seu maior exemplo de fidelidade e resistência. Quem Jesus foi (humanamente falando) e o que representa até os dias de hoje reflete muito daquilo que ele aprendeu com sua mãe, uma mulher de carne e osso, como nós, que recebeu uma missão especial.

Maria cumpriu essa missão com a força de uma mulher, que tem que matar um leão por dia pra sobreviver. Ela confrontou autoridades, transgrediu convenções sociais e religiosas, enfrentou os dramas da pobreza e da marginalidade, criou seu filho com todo sacrifício e fez uma revolução junto com ele. Maria foi o suporte emocional que Jesus precisava durante toda a vida. Ela foi mãe. E graças à sua maternidade pudemos conhecer o Messias e ser resgatados por Ele.

Por tudo que Maria foi, sem dúvida alguma, ela tem um lugar de destaque no Natal. Este é o período do ano em que celebramos a vinda de Jesus à Terra, mas essa vinda só foi possível através dela – e foi o próprio Deus quem quis fazer dessa forma. Logo, celebremos também nesta festa àquela que foi os braços de Deus para nos presentear com o nosso Salvador. Não se trata de idolatria nem de romantização: é apenas o justo reconhecimento de quem dedicou e arriscou sua vida por quem nos deu a vida.


*Agradeço ao Pr. Nilton  Marcelino pela sugestão desse tema, que me deu a oportunidade de refletir um pouco mais sobre a importância de Maria na nossa fé.


**Para saber mais sobre Maria, ouça o Madalenas com a Reverenda Bianca Daebs e a Irmã Judite Mayer clicando aqui. Tá cheio de informação e curiosidades!




2 Comentários

  1. Галина disse:

    Algumas tradicoes ao redor do Pai Natal tambem precedem o cristianismo. Seu treno, puxado por renas, vem da mitologia escandinava. A pratica de deixar tortas e leite ou conhaque para o Papai Noel pode ser remanescente de sacrificios pagaos que marcavam a chegada da primavera. Nos EUA, a figura do Santa Claus tem seu nome derivado de Sao Nicolau, que, segundo a tradicao, costumava entregar anonimamente sacos de ouro para um homem que nao tinha dinheiro para pagar o dote de casamento de sua filha.

  2. Степан disse:

    Os romanos tambem tinham seu festival para marcar o solsticio de inverno: a Saturnalia (dedicado ao deus Saturno) durava sete dias, a partir de 17 de dezembro. Era um periodo em que as regras do cotidiano viravam de ponta-cabeca. Homens se vestiam de mulher, e patroes se fantasiavam de servos. O festival tambem envolvia procissoes, decoracoes nas casas, velas acesas e distribuicao de presentes. O azevinho, arbusto tipico usado hoje nas guirlandas, e um dos simbolos mais associados ao Natal – por ter sido transformado pela Igreja no simbolo da coroa de espinhos de Jesus. Segundo uma lenda, galhos de azevinho foram trancados em uma dolorosa coroa e colocados na cabeca de Cristo por soldados romanos para zomba-lo: Salve o rei dos judeus .

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *