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Já ouvi diversas vezes essa frase sendo dita por alguns líderes do meio evangélico (inclusive mulheres) e fico me perguntando o que eles sabem sobre o feminismo e onde aprenderam. Sem querer generalizar, mas muitas vezes quem fala isso conhece bem pouco sobre o assunto – e o pouco que sabe lhe foi ensinado por homens conservadores e machistas, que também conhecem pouco.

Essas pessoas costumam apelar para o argumento de que antigamente as famílias eram estruturadas, com pai e mãe dentro de casa, filhos que obedeciam, casamentos para a vida toda etc. e alegam, em contrapartida, que hoje a família está esfacelada, que os casamentos não duram nada, que os filhos são criados por pais separados, ficam rebeldes, confusos, adultos sem base…. Alegam também que a mulher “inventou” de inverter os papeis, foi  trabalhar fora, assumiu o papel do homem e isso fez com que eles (coitados!) ficassem sem função e entrassem em crise de identidade! Tudo culpa do feminismo! 😐

Então vamos lembrar, em linhas bem gerais, como era no passado (nem vou muito longe, vou falar da geração da minha avó, que está na faixa dos 80 anos): as mulheres se casavam cedo, com pouco ou nenhum estudo, e não tinham meios para controlar sua fertilidade. Por isso, logo se enchiam de filhos e não tinham outra opção a não ser viver em função deles, atribuladas também com as tarefas domésticas. Elas dependiam do marido para tudo e eram obrigadas a aceitar passivamente todos os seus abusos, como as traições, as farras, os filhos fora do casamento, as agressões etc. Essas mulheres não podiam se divorciar porque seriam mal vistas pela sociedade e porque não teriam como cuidar sozinhas dos filhos, já que eram completamente dependentes. Então elas viviam aquela vida conformada, num casamento infeliz e amargurado, onde o marido desfrutava de liberdade total e elas viviam em prisões domésticas. Era assim que os casamentos duravam 50, 60 anos. Era assim que as famílias se mantinham – numa harmonia de fachada, sustentada quase sempre pela mulher. Sei que sempre tem as exceções, mas as histórias costumavam ser bem parecidas – basta você conversar com algumas senhoras mais velhas para perceber. Até bem pouco tempo atrás, manter o casamento era uma forma de sobrevivência para as mulheres e isso não estava necessariamente relacionado com amor e felicidade. E vejam que estou falando de século XX. Se formos analisar períodos anteriores, a coisa fica ainda pior.

Agora vem a pergunta: alguma mulher de hoje gostaria de viver uma história dessas? Como vocês acham que nós temos conseguido romper com essa sina?

O feminismo incomoda porque deu opção de escolha às mulheres. Hoje não estamos mais fadadas a viver atreladas a uma figura masculina, suportando abusos, desrespeitos, abrindo mão dos nossos sonhos e vivendo sempre como uma sombra do outro. A estrutura familiar do passado não desperta em mim nenhum sentimento saudosista porque eu sei que por trás dela estavam mulheres chorosas, desencantadas, tristes, cansadas e anuladas como seres humanos. O feminismo nos deu a possibilidade de dizer não a tudo isso: não quero me casar OU não quero ter filhos OU não aceito um marido que me trai OU não aceito ser agredida pelo meu marido OU não quero permanecer casada sem amor e mais tantos outros “nãos” que tem feito com que digamos SIM à nossa dignidade. É isso que os machistas não querem aceitar, pois eles estão perdendo cada dia mais o controle que antes tinham sobre nós.

Com isso, quero trazer algumas perguntas para reflexão: será que as famílias de antigamente eram tão estruturadas como se costuma dizer? Por que essas famílias “perfeitas” deram origem a uma geração de homens tão irresponsáveis? (Sim, pois é assustadora a quantidade de homens que não assume ou que abandona seus filhos à própria sorte.) Será que o feminismo veio mesmo para destruir algo que estava bom? Será que ele foi A causa dos problemas ou uma consequência deles?

Por fim, quero dizer que a história do movimento feminista teve muitos altos e baixos, muitos acertos e também muitos erros, como toda história de luta por direitos. Mas é graças a ele que hoje podemos desfrutar de algumas conquistas que nos parecem tão banais que a gente até esquece que já houve um tempo em que não as tivemos – como o direito ao voto, o direito de igualdade perante a lei, a possibilidade de estudar e trabalhar fora, a possibilidade de assinar trabalhos autorais, a liberdade de escolher com quem vamos nos relacionar / casar… Acho que em relação a essas coisas, ninguém quer retroceder, né? Então, por mais que alguns não concordem com as ações do movimento, não podem deixar de reconhecer que ele trouxe muitos avanços para as mulheres (reconhecendo, claro, que ainda há muito o que conquistar e que alguns direitos ainda não chegaram para todas, o que torna a luta necessária, sim, nos dias de hoje).

Esse texto não é para convencer ninguém a se tornar feminista, mas apenas para mostrar que não é algo tão ruim nem homogêneo quanto querem fazer parecer. Por isso, antes de acusar o movimento de destruir famílias, inverter papeis ou trazer problemas para a sociedade, precisamos conhecer um pouco da sua heterogeneidade, das vertentes de pensamento que ele abarca e principalmente dos motivos que fizeram com que ele surgisse – será que não são esses motivos que devem ser combatidos?

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