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Evitar que moças crentes se relacionem com homens não-crentes sempre foi uma preocupação no meio evangélico. Para a igreja, o fato do casal não professar a mesma fé é um grande empecilho para que o relacionamento dê certo.

Parte-se do pressuposto de que a mulher tem que ser submissa ao marido e, quando ele não é cristão, ela vai ter que se submeter a uma pessoa que não tem os mesmos valores, o que certamente vai gerar conflitos. Outro argumento é o de que o relacionamento com um homem “do mundo” pode afastar a mulher da sua fé e levá-la a descumprir alguns de seus preceitos, como a virgindade até o casamento (eu diria até que essa é a principal preocupação da igreja). Costuma-se ainda repetir a passagem de 2 Co 6:14 (“a luz não se mistura com as trevas”) para sentenciar que nenhum relacionamento misto pode dar certo.

Eu, particularmente, sempre questionei essa orientação. Hoje acredito que a igreja tem razão em partes, mas erra quando oprime, generaliza e apresenta a situação de uma forma maniqueísta.

Religião não é o único fator

Sim, um relacionamento entre pessoas de diferentes religiões pode trazer conflitos. Eu disse pode porque não é uma regra. A fé permeia todos os aspectos da nossa vida e não se limita ao ritual religioso em determinado dia da semana. A religião que professamos é responsável por nos fornecer uma visão de mundo e um conjunto de valores e princípios que aplicamos em todas as áreas da nossa vida. Quando duas pessoas de religiões diferentes se propõem a viver juntas, elas precisam estar dispostas a lidar com essas diferenças, o que em alguns momentos pode ser bem difícil e vai exigir maturidade e respeito mútuo.

No entanto, todo casal precisa aprender a administrar uma série de conflitos que, inevitavelmente, vão acontecer, pois são duas pessoas com bagagens totalmente diversas convivendo juntas. Assim como a religião pode ser um ponto de desentendimentos, o estilo de vida também pode, os planos para o futuro podem divergir, a vontade de ter filhos, a maneira como se pretende criá-los, as prioridades financeiras… ou seja, existem vários fatores para os quais precisamos estar atentas na hora de escolher um parceiro, não somente a religião. Aquela história de que os opostos se atraem só é bonitinha na ficção. A verdade é que a gente tem muito mais chance de viver um relacionamento feliz se o parceiro ou parceira tiver objetivos e estilo de vida semelhantes – e a religião é só mais um ponto que pode pesar a favor ou contra.

Portanto, nunca acreditei que o fator religião, somente, fosse o responsável por arruinar relacionamentos. Pode até acontecer, mas acho que geralmente o que desgasta a relação é a falta de respeito, que afeta vários aspectos da vida do casal – inclusive o religioso. Conheço casais de religiões diferentes que convivem muito bem, sem tentar impor a sua fé para o outro e sem desfazer do que o outro acredita. Havendo respeito e amor, toda relação tem grandes chances de dar certo.

Religião é bom, mas não garante nada…

Outro aspecto que sempre questionei no discurso “tradicional” da igreja é a ideia de que um parceiro não-crente representa as trevas, em oposição à luz que somos nós. Parece-me algo um tanto infantil essa coisa de que os crentes são bons e todas as outras pessoas são más. Nós sabemos que tem muita gente que não conhece o Evangelho ou que pertence a outras religiões e vive sua vida de forma honesta, correta, fazendo bem. E também sabemos que a igreja está repleta de pessoas com sérios desvios de caráter. Infelizmente, não existe esse preto no branco, as coisas não são tão bem definidas como gostaríamos. Se fosse assim, todo casamento entre crentes duraria para sempre e não haveria tanto divórcio em nosso meio. Mas a realidade é bem diferente…

Na minha opinião, para quem é crente, é mais fácil encontrar um bom parceiro ou parceira no seu meio, sem dúvida. Quando a gente se relaciona com alguém da mesma fé, muita coisa é facilitada no dia a dia, pois há um entendimento comum sobre casamento, família, valores, prioridades… é claro que isso ajuda bastante, já que os dois se unem com os mesmos propósitos.

Mas acho que a igreja exagera quando transforma essa orientação, que deveria ser apenas um conselho cuidadoso, em uma regra, sobretudo uma regra machista. Sim, pois nós, mulheres, somos as mais cobradas para não nos relacionarmos com homens “do mundo”. Quando isso acontece, aumenta a vigilância sobre nós, como se fóssemos criaturas totalmente influenciáveis e incapazes de discernir o que queremos. Aumentam também as piadinhas de mau gosto, as insinuações maldosas e os julgamentos, pois não podemos enfrentar nenhuma dificuldade no relacionamento sem que alguém diga que estamos “pagando o preço do pecado” por termos optado por uma relação de “jugo desigual”. Em muitos casos a mulher até deixa de viver uma relação que para ela poderia ser boa por causa da culpa que lhe é imputada. E o pior de tudo é saber que muitas se frustram porque abrem mão de uma relação em “obediência” à igreja, mas acabam não encontrando um bom companheiro dentre os homens crentes de sua convivência (não é exagero, isso acontece mais do que se pensa). E quem paga esse preço? Ninguém mais do que nós.

A escolha é sua!

Acho que a preocupação que todas nós deveríamos ter é a de encontrar alguém com bons valores, bom caráter, que tenha maturidade e esteja disposto a construir uma relação de parceria. A religião, por si só, não diz muita coisa sobre isso. Fora da igreja existem, sim, pessoas capazes de estabelecer um relacionamento saudável com alguém, amando e respeitando seu cônjuge independente de religião ou de qualquer outro aspecto divergente.

Precisamos sair desse lugar infantil que nos destinam, lugar de quem necessita ser sempre conduzida pelos outros. Precisamos assumir o protagonismo de nossas vidas, fazendo nossas escolhas por nós mesmas e arcando com as consequências de cada uma delas. Tudo isso nos serve de aprendizado e amadurecimento.

Não existe fórmula para relacionamentos, apesar de existirem caminhos mais seguros que outros. Muitas vezes a relação dá sinais de que não vai dar certo, mas como somos criadas para sermos românticas e acreditarmos que o amor muda as pessoas, acabamos caindo em várias ciladas. Para o nosso bem, é necessário que aprendamos a ser menos ingênuas para discernir essas situações. Mas a escolha tem que ser sempre nossa – ninguém tem o direito de nos tirar essa liberdade.

*Agradeço à leitora Mi Klimach Guimarães, que sugeriu esse tema. Se você quer sugerir também, escreva pra temmulhernaigreja@gmail.com . 

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