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O Cristianismo e sua essência feminista

Sim, para mim foi um choque chegar no ambiente acadêmico e perceber que o Cristianismo é amplamente difundido como uma religião patriarcal e que oprime a mulher. Para mim, nascida e criada em família cristã (católica e protestante), não me lembro de ter crescido acreditando em um Deus que fizesse eu me sentir menor ou inferior por ser mulher.

A nível institucional, sim, vemos líderes  majoritariamente do sexo masculino e em várias  igrejas é vetada a participação de mulheres como sacerdotisas. Elas são freiras, mas não ‘madres’, são obreiras, mas raramente pastoras – o maior título que geralmente podem alcançar é o de mulher de pastor.

O que me faz discordar de tudo isso e ver o cristianismo como uma religião que não inferioriza a mulher é o que encontro justamente nas suas bases, ou seja, nos Evangelhos. Os quatro primeiros livros do Novo Testamento que descrevem o nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo descrevem também as opiniões dEle sobre diversos assuntos. Contudo, o ponto mais importante para mim é justamente o nascimento de Cristo. Em um período em que a sociedade não valorizava a mulher em nada, onde ela dependia de um marido para ter o sustento e poderia ser apedrejada por não seguir os costumes, Deus escolhe uma mulher virgem para dar à luz ao seu Filho. O anjo poderia ter aparecido a José e dito que abençoaria a sua relação e que este seria pai do filho de Deus. Mas não, o fruto foi celestial e o ventre, humano.

Você pode até não acreditar em nada disso, mas não é possível negar a mensagem por trás desse fato. Cristo nasceu em uma sociedade que desprezava as mulheres solteiras e não virgens e era ainda pior vista por uma concepção anterior ao casamento. Antes de mais nada, para acreditar que Jesus é Cristo, você tem que acreditar que isso aconteceu e não julgar Maria, a mulher que defendeu ter sido engravidada por Deus. Para mim, a reflexão filosófica desse acontecimento traz diversos pontos a serem analisados, inclusive a posição secundária de José de pai terreno de Cristo.

Podemos trazer vários outros exemplos de como Cristo dava tratamento igual a homens e mulheres. Na passagem da mulher adúltera (João 8:1-11), na qual trazem uma mulher pega em flagrante adultério (só a mulher foi trazida), Jesus diz que aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra. Em outras palavras, quem aqui está em condições de julgá-la? Se isso não é tratamento igualitário eu não sei o que é.

Homens e  mulheres eram separados nas sinagogas, mas Jesus pregava para homens e mulheres e crianças indiscriminadamente, nos campos, nas praias ou dentro de casa. Quando Marta pergunta a Jesus se Ele não se incomoda de Maria estar ouvindo a pregação ao invés de arrumar a casa, Jesus apenas responde que Maria escolheu a melhor parte (Lucas 10:38-42). Até pouco tempo atrás, ou melhor, até hoje, para falar a verdade, se vê como obrigação da mulher a arrumação da casa na nossa sociedade e Cristo deixa claro que, na visão dEle, a mulher tem poder de escolher quais as suas prioridades.

Quando a prostituta entra na casa de Simão, lava os pés de Cristo com as próprias lágrimas e um homem pensa que se Ele fosse Deus saberia quem é aquela pessoa, Ele responde que quem recebe maior perdão também ama mais (Lucas 7.36-38). Ou seja: ela quer mudar de vida, eu a recebo e não julgo pelo que ela já possa ter feito antes.

Quando Jesus volta dos mortos, as primeiras pessoas para quem Ele aparece são justamente mulheres (Matheus 28).  Ele escolheu que elas dessem as boas novas da sua ressurreição.

Em resumo, diante de uma leitura diária e independente da Bíblia, eu não posso constatar que a mensagem de Cristo tenha qualquer intenção de diminuir ou renegar ou denegrir a mulher, colocando-a em um papel secundário. A mensagem dEle é justamente de amor, e compaixão por todos os que quiserem seguir seus passos. E ser discípulo de Cristo é ser quem espalha esse amor.

Acredito que é realmente necessário pararmos para analisar mais os nossos comportamentos e como podemos ser cristãos mais fiéis à mensagem de Cristo, principalmente a nível institucional. Não há problema algum em assumir que interpretou algo errado e mudar. Acredito ser justamente isso que Cristo quer nos ensinar: aperfeiçoamento constante para sermos pessoas melhores.

 

 

Chiara Rucks é Museóloga e estudante de Marketing Digital. 

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