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Ultimamente tem se falado muito sobre a idealização da maternidade, que obriga as mulheres a serem mães e obriga as mães a se encaixarem num perfil considerado ideal e correto de comportamento. Mas hoje eu vou falar sobre uma outra face dessa idealização, que atinge os filhos.

Assim como as mulheres sofrem com as exigências em relação ao que devem fazer enquanto mães, os filhos também sofrem com o conceito de maternidade que lhes é apresentado. Para a nossa sociedade, a mãe perfeita está muito próxima de uma santa. Ela vive em função dos filhos e abre mão dos seus desejos, da sua realização e até mesmo da sua felicidade para que eles possam se sentir amados, seguros e protegidos. Ela se dedica integralmente, compreende, ajuda, aconselha, é amiga e tem mais sabedoria dos que as outras pessoas (pelo menos em relação aos seus rebentos). Essa imagem é reafirmada diariamente nas mais diversas circunstâncias, mas especialmente quando se aproxima o Dia das Mães – quando a publicidade, o jornalismo e o comércio tendem a carregar nas tintas para falar desse ser tão sagrado com o objetivo de estimular o consumo. De tanto ser repetido, o conceito idealizado de maternidade se tornou algo tão sedimentado e tão certo que muitos nem ousam questionar ou desmentir.

Mas e quando a minha mãe (ou a sua ou a de outra pessoa) foge desse estereótipo e não age da forma esperada? Quantas frustrações e ressentimentos foram originados desse choque entre expectativa e realidade? Sim, porque a gente tem, lá longe, aquela santa romantizada que as pessoas dizem ser A MÃE e tem ao nosso lado essa mulher tão real, que briga com a gente, que é a NOSSA mãe. E agora? Ela não é mãe de verdade? Ela não nos ama como deveria?

Quando crianças costumamos enxergar nossos pais como heróis, pessoas onipotentes e sem defeitos. Essa ideia faz parte do mundo lúdico da infância e contribui para o nosso desenvolvimento. Na adolescência, contudo, começamos a ser confrontados com a realidade e esse é um dos motivos para os famosos conflitos entre pais e filhos adolescentes. Porém muitas vezes parece que a gente não consegue superar a adolescência no que diz respeito às nossas mães: estamos sempre cobrando e esperando que elas sejam do jeitinho que vemos nas propagandas e histórias infantis. Não admitimos que elas errem ou que manifestem seus defeitos. Queremos mães superprotetoras, oniscientes, que satisfaçam as nossas necessidades, que nos ajudem sempre, que passem a mão na nossa cabeça e relevem nossos erros e nosso egoísmo de querer ser o centro da vida delas. Mas quem disse que mãe não pode assumir outras formas? Quem disse que ela não pode ter defeitos? Por que o direito do erro só é dado aos filhos? Acaso as mães não são humanas? Por que não lhes é permitido errar?

As mães não são perfeitas nem precisam viver em função dos filhos. Muitas vezes não conseguimos perceber o quanto essa idealização nos prejudica, pois cria em nós a expectativa de algo que nunca poderemos ter nem ser. Mãe também erra, chora, cansa, se ressente, sente dor; mãe tem vida própria, tem interesses pessoais, anseios e angústias; mãe também pode manipular, fazer chantagem, ser perversa, controladora, egoísta ou até mesmo tirana. Tudo isso porque ela também é gente e nós temos que aprender a aceitar esse fato.

É importante que tenhamos sempre em mente que cada mãe é, antes de tudo, uma pessoa, com qualidades e defeitos. A maternidade por si só não forma mulheres melhores, não traz sabedoria, não confere poderes. Mães são seres humanos como qualquer outra pessoa, vivem os mesmos processos de aprendizado que nós e estão sujeitas a erros e acertos. Elas também precisam ser amadas, cuidadas, compreendidas e muitas vezes até perdoadas por nós. Ter consciência disso é essencial para que, enquanto filhos, não nos tornemos mais um algoz das nossas mães, exigindo delas um comportamento que só as oprime, escraviza e que tira a sua individualidade. Já basta toda uma ideologia machista sobre elas, dizendo o que podem e não podem fazer, enchendo-as de culpa e impedindo-as de serem quem são (ou quem querem ser). Sejamos um peso a menos em suas vidas.

O mito da mãe perfeita não ajuda ninguém. Ele só serve para reafirmar o lugar de privilégio dos homens, pois tira deles a corresponsabilidade com os filhos e os desobriga de assumir seu papel de pai – afinal de contas, se amor de mãe é tão grande, ele se basta e um pai não é tão necessário assim, né? Aceitando e reforçando esse mito, estamos permitindo e até legitimando a irresponsabilidade dos homens diante da paternidade. É aquela velha história: o patrão explorador enche o empregado de elogios para motivá-lo a trabalhar ainda mais. Portanto, vamos ficar atentas para não reproduzirmos mais esse comportamento que nos oprime enquanto mulheres e que, fatalmente, será utilizado contra nós mesmas um dia.

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