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Atravessei uma fase de crise na vida quando comecei a me questionar sobre a utilidade do meu trabalho dentro da igreja. Desenvolvi um olhar bastante crítico em relação às muitas atividades que ocorrem nesse espaço e sempre me perguntava se elas eram, de fato, destinadas à obra de Deus ou ao divertimento dos homens. Nessa época eu trabalhava com jovens e, num determinado momento, percebi que a maioria deles encarava essas atividades como uma forma de lazer. Definitivamente, eu não concordava com isso – igreja não é lugar de entretenimento. Acabei deixando o ministério e resolvi parar pra repensar meu trabalho na obra de Deus.

 Saí da minha denominação, passeei por algumas outras e percebi que, de fato, muita coisa é realizada nesses espaços em nome do lazer puro e simples. A igreja que se limita a promover atividades de festejo, cultos apoteóticos, jantares intimistas, viagens caras etc. está obviamente querendo divertir as pessoas. E vamos combinar que, em se tratando disso, nós sempre vamos perder feio para a indústria do entretenimento, que oferece inúmeras opções mais atraentes para quem quer diversão pela diversão.

A gente sabe que na igreja tem, sim, aqueles que buscam um Evangelho light, sem muito comprometimento, e fazem dela um clube social com revestimento “santo”. Sob a influência dessas pessoas, é muito fácil enveredar pelo caminho aparentemente inofensivo das atividades egocêntricas, sob o pretexto de promover a comunhão. É fácil nos envolvermos com trabalhos eclesiásticos que não passam de culto ao ego e ficarmos andando em círculos nisso, trabalhando muito, mas sem um resultado prático – apenas divertimento. Sim, a gente perde muito tempo com atividades igrejeiras que não têm relevância para a obra de Deus. Mas temos que ter em mente que o nosso propósito é outro.

A igreja tem uma missão muito bem definida por Cristo: anunciar o Evangelho e a proximidade do Reino de Deus, com toda a complexidade que esse ato envolve (Mc 16:15-18). Portanto, não é somente pregar nas praças e distribuir panfletos nas ruas. É isso também, mas vai muito além: envolve testemunho de vida, acolhimento, ação social… porque a mensagem do Evangelho não existe sem seu lado prático – é como uma moeda, que sempre tem dois lados. Não tem como vivenciar o Evangelho sem obedecer aos mandamentos mais importantes, que é amar a Deus e ao próximo (Mc 12:30-31). Para isso, é necessário sair da caixinha de atividades tipicamente igrejeiras, como cultos, reuniões de oração, acampamentos etc.. Precisamos fazer muito mais.

Uma igreja precisa fazer a diferença na vida das pessoas e da comunidade a que pertence. O Evangelho é pão e água para quem tem fome e sede e a mensagem da cruz vai muito além de um consolo para pecadores: é libertação, mudança de mentalidade, resistência, força, coragem para lidar com as agruras cotidianas e ajudar o próximo. Quem recebe a mensagem do Evangelho recebe alívio, mas também força e responsabilidade na implantação do Reino de Deus aqui na Terra. Como exprimir esse amor tão grande que a gente recebe dEle se não for dando-o a quem não o tem? Portanto, acredito num Evangelho de ação, que deve ser aplicado integralmente em nossas vidas. Ele não se restringe às orações e louvores nem às paredes do templo, mas ganha as ruas, ajudando quem precisa, agindo politicamente, trabalhando com a conscientização das pessoas, oferecendo o que temos de melhor e dando testemunho positivo do Deus em que cremos. O ministério de Jesus não se limitou apenas às pregações públicas, nas praças e nos templos, mas também envolveu ações – Ele foi até os necessitados, curou e libertou muitos. Jesus não ficou somente na retórica, ele agiu e nos deixou esse exemplo.

O Evangelho nos capacita a exercermos o amor de forma integral, não somente para os nossos, não somente dentro do templo. Temos ao nosso redor pessoas morrendo na miséria, sofrendo injustiças sociais, atravessando problemas emocionais e toda sorte de mazelas. Se a igreja não se preocupa com isso e nem age para mudar essa realidade, que Deus é esse a quem nós servimos? Que Deus é esse que não nos impulsiona a ter compaixão pelo outro, que é tão semelhante a Ele quanto nós?

Precisamos nos voltar para o que é realmente útil e necessário e estabelecer isso como prioridade. Não podemos esquecer que somos os responsáveis por aplicar o que o Evangelho nos ensina e que há um mundo sedento lá fora.

Minha intenção com esse texto não é menosprezar a importância da comunhão entre os irmãos. Entendo que a igreja tem uma missão pesada, árdua, difícil mesmo de ser encarada, e é preciso alguns momentos de descontração também, para que possamos dar uma espairecida e ganhar fôlego para continuar a obra. Com o tempo, fui me “desarmando” um pouco em relação a isso, pois as festas e os momentos de diversão são importantes para fortalecer os laços entre os membros e criar um sentimento de pertença e identidade. Eles são também uma porta de entrada convidativa para muitos que, mesmo não tendo uma noção exata do que é seguir a Cristo, acabam permanecendo na igreja por conta dos vínculos criados ali, para só depois amadurecer na fé e dar frutos. O grande problema está em fazer disso a regra, e não a exceção; em estimular a dependência de grandes eventos para se sentir “tocado pelo Espírito”; em incentivar a visão de que a igreja é mais um local que podemos ir quando queremos nos divertir. Quando isso acontece, nos tornamos consumidores de igreja e, no dia em que o cardápio de entretenimento não for mais tão interessante, trocaremos por qualquer outra coisa que aparecer. 

Portanto, não transformemos a igreja em mais um local de lazer, ela não foi feita pra isso. A sua força está justamente naquilo que ela tem pra oferecer e que não é encontrado em nenhum outro lugar: a Palavra viva e eficaz, que traz libertação e justiça para o povo de Deus.

*Para saber mais sobre o propósito social da igreja, sugiro a leitura do livro “Convulsão protestante – quando a teologia foge do tempo e abraça a rua”, do Pr. Antônio Carlos Costa, bem como os estudos da teologia da missão integral.

 

** Agradeço à leitora Nataniele Pfütz por me sugerir escrever sobre este tema.

 

1 Comentário

  1. mais uma disse:

    Eu estou passando por essa crise e com medo pois percebi que não estou nadando contra a maré mas na verdade contra um tsunami; a alguns dias atrás fui a uma reunião na minha igreja (Reunião de Obreiros) e uma irmã diaconisa a gual eu admiro muito expos suas observações quanto ao ministério dos jovens e propôs que os irmãos com mais experiência conversasse com cada um dos jovens, a sóis, não para julgá-los, não para disciplina-los, apenas ouvi-los e aconselha-los caso necessário e ajudar caso demostrem esta precisando, eu pensei no momento: Nossa! Que maravilhoso! Vai ser perfeito. Mas fui surpreendida com a recusa do pastor que disse que os irmãos só ouviriam reclamação e que um irmão mais velho chamar um jovem pra conversar iria ofende-los e assim gerar mais reclamação porque os jovens so sabe reclamar. Ai foi proposto que fizéssemos uma festa eu uma saída para um sítio com os jovens, oque foi de pronto aceito pelo pastor e os demais presente, mas eu não consegui assistir calada e falei, perguntei a cerca da parábola da dracma perdida, perguntei se eles sabiam aonde a dracma estava perdida, de pronto o pastor e os demais me disseram que a dracma estava perdida dentro de casa, então eu conclui que há muitos perdidos dentro da casa do Senhor querendo ser encontrado, e deixei claro que é ridículo acreditarem que se atrai pessoas ao arrependimento com somente comida e diversão,(isso já tem no mundo), falei um monte, acredito não ter me acedido pois deixei de falar muita coisa por respeito aos que ali estavam e bem hoje sou tratada com ostracismo na igreja, e sempre estão jogando indiretas para mim, muitas vezes fazem bullying comigo, me chamam de anti-social mas dizem que estou querendo me aparecer se eu puxo assunto com alguém. Na verdade isso já vem de muito tempo so piorou depois dessa reunião (bendita reunião de obreiros)

    Me desculpem pelo texto imenso, eu pulei muita coisa e mantive bastante coisa para ser bem compreendido.

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