Quando o Evangelho legitimou o ódio?
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As eleições acabaram e infelizmente o ódio venceu, apesar dos esforços de milhares de brasileiros para que isso não acontecesse. Temos que aceitar o resultado das urnas, afinal, até que se prove o contrário, a vitória ocorreu de forma democrática. Mas independentemente do resultado dessa eleição (sim, porque esse texto seria postado mesmo que o vencedor fosse outro), temos que acordar para a dura realidade: não existe salvador da pátria!

O Brasil tem inúmeros problemas que não podem ser resolvidos em quatro anos, como em um passe de mágica. Entendo que havia um longo processo de desgaste em torno do partido derrotado por todas as decepções que sua gestão nos trouxe, mas isso não o torna único culpado das nossas mazelas históricas e não basta tirá-lo para resolver o problema. A corrupção está enraizada em nossa cultura e não precisa nem chegar nas esferas mais altas do poder. Cada um se corrompe com aquilo que tem acesso e – temos que reconhecer – é muito difícil para nós, brasileiros, negar uma vantagem, por menor que seja. É isso que precisamos mudar em nós mesmos, já que os nossos presidentes sempre sairão do nosso meio e carregarão consigo essa bagagem cultural do “jeitinho” e da malandragem.

Além dessa questão da corrupção em todos os níveis, que já é muito discutida mas cuja carapuça nunca nos serve (o corrupto é sempre o outro), existe também o individualismo, que nos deixa ensimesmados em nossos problemas e nos faz esquecer do macro. Não fiscalizamos os políticos a quem entregamos a nossa cidade, o nosso estado e o nosso país porque estamos muito ocupados com o trabalho, a família, a viagem, os estudos… Estamos presos na nossa rotina e não conseguimos enxergar mais nada além disso, a não ser quando acontece algo de muito grave, como um atentado, uma Lava-Jato, um escândalo… então paramos embasbacados para ver e nos perguntamos: por quê? E a resposta é muito simples: se não cuidamos do que é nosso, alguém vem e toma conta.

Precisamos desenvolver um sentimento de pertença em relação à cidade, ao estado e ao país, cuidando deles como cuidamos da nossa casa individual, pois eles também são nossos. Compreendo todas as dificuldades do trabalhador super-explorado em acompanhar a vida política, já que sua rotina alienante e exaustiva não lhe dá outra opção a não ser trabalhar para sobreviver no tempo que lhe sobra. Mas existem muitos que, estando fora dessa realidade tão dura e pesada, poderiam, sim, ter um pouco mais de atenção com as ações do poder público e ajudar a exercer a pressão da fiscalização. Precisamos resistir à tentação de nos fecharmos em nosso mundo e olhar mais para os lados, para os políticos e, principalmente, para os menos favorecidos. É nossa obrigação fiscalizar e denunciar, pois tudo que o político mais quer é receber nosso voto e ser esquecido pelos próximos quatro anos.

Também temos que acabar com o comodismo nosso de cada de dia. É muito fácil eleger alguém e transferir para ele todas as nossas responsabilidades de cidadão. É muito cômodo cair na lábia do “salvador da pátria”, do “messias” que promete resolver tudo para que a gente possa continuar sem fazer nada. Isso não existe. Cidadania se constrói com luta, debate, fiscalização, denúncia, protesto, obrigações e uma série de coisinhas que dão trabalho, mas que devem ser feitas por todos, caso contrário, nunca chegaremos a lugar nenhum. Enquanto estivermos em busca de um salvador, vários virão prometendo ser ele e ganharão fácil a nossa confiança, mas repetirão os mesmos erros dos outros, pois um povo apático é um povo que pede para ser lesado e enganado. Como disse o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht, “infeliz a nação que precisa de heróis”. Temos que sair desse lugar de espera e começar a agir.

Eu gostaria muito de ver as pessoas brigando para defender o interesse coletivo com o mesmo afinco com que muitos brigam para defender a moral e os bons costumes. Gostaria que as votações que mobilizassem o país não fossem somente as que discutem sobre aborto, armamento e LGBTfobia, mas todas, pois todas mexem com os nossos interesses. Quando teremos um país de pessoas que se interessem pela política no seu dia a dia, e não somente de quatro em quatro anos? Quando acordaremos dessa letargia e começaremos a enxergar os nossos políticos não como mitos, santos ou heróis, mas como empregados do povo que é soberano, segundo a nossa Constituição, e que deve ter seus direitos preservados?

Meu desafio para os próximos anos é participar mais da vida política da minha cidade e do meu país, saber o que estão fazendo aqueles que se elegeram com meu voto. Quem me acompanha?  

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