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Não é fácil ler a Bíblia

Duas coisas que aprendi logo que me converti: 1) a Bíblia é a palavra de Deus; 2) para entender a Bíblia é preciso orar pedindo sabedoria e discernimento. Cresci ouvindo isso, internalizei esses ensinamentos e até os reproduzi algumas vezes. Mas chegou uma hora que não deu mais.

Já falei neste texto aqui porque não acredito que a Bíblia seja, na sua integralidade, a palavra de Deus. Mas hoje escrevo para dizer que descobri que a Bíblia não é um livro acessível.

Por muitas vezes ouvi alguém falar que a Bíblia é difícil de ser entendida. E muitas outras vezes ouvi alguém responder que ela é difícil para quem não pede discernimento a Deus, para quem não tem reverência, revelação ou algo do tipo. Quem dera fosse fácil assim. A Bíblia realmente é um livro difícil e, infelizmente, não pode ser entendida por todos – pelo menos não na sua totalidade. Digo isso com pesar, pois sempre acreditei na história de que bastava pedir sabedoria para entender, mas na prática não é isso que acontece.

Com o tempo, fui percebendo que era necessário ter uma bagagem de informações extras para compreender certas passagens. E fui percebendo também que muitas dessas informações extras estão nas mãos de poucos, que nem sempre estão dispostos a compartilhá-las. O discurso de que basta pedir sabedoria a Deus para entender é uma forma de responsabilizar cada um de nós pela falta de compreensão, quando na verdade as chaves para entender a Bíblia não são dadas a todos de forma justa.

Temos em nossas mãos uma coletânea complexa que reúne livros escritos em épocas diferentes, por pessoas, circunstâncias e lugares de fala diferentes. Em diversas passagens o contexto fala muito mais do que o texto, mas isso só é perceptível a quem teve acesso a esse tipo de informação.  Quem não teve precisa de uma intermediação, de alguém que ajude a compreender. E é aí que está a responsabilidade de pastorear ou liderar, pois o entendimento de muitos dependerá da interpretação que lhes será dada por essas autoridades na igreja. Por isso é tão perverso dizer que para entender basta orar e pedir sabedoria. É injusto com quem não tem as facilidades de acesso a informação, com quem não teve oportunidade de estudo e muitas vezes não tem uma bagagem mínima para interpretar um texto simples. É como dar um tijolo a quem não entende de construção e pedir para que levante uma casa.

Ao escrever isso, não estou querendo desencorajar a leitura bíblica, mas sim chamar atenção para o fato de que não é qualquer pessoa que pode ensinar sobre ela e alertar, sobretudo, para a enorme responsabilidade que recai sobre quem ensina. Temos visto a Palavra de Deus ser vergonhosamente distorcida por aproveitadores que desejam extorquir, julgar, ludibriar, infantilizar e se aproveitar dos fieis para manter uma posição de poder, status e riqueza. Gente que não tem o menor escrúpulo em manipular algo que é sagrado, mexendo com a fé das pessoas em benefício próprio. E gente vaidosa também, que não têm preparo algum mas se enche de orgulho e se julga apta para falar sobre o que não sabe, conduzindo as pessoas para um caminho de confusão e medo. Fico impressionada quando vejo artistas recém-convertidos ou cantores do meio gospel rapidamente serem elevados ao status de pastor sem nenhuma qualificação para tal, só por serem famosos e contarem com uma legião de fãs. Do mesmo modo, igrejas pouco comprometidas com a Palavra “promovem” ao pastorado fieis que se mostram bons mobilizadores, como se isso bastasse. Que tipo de ensino essas pessoas promovem? Que tipo de fieis elas formam?

Acho que temos que ler a Bíblia, sim, refletir e discutir sobre ela, pois é a referência material da nossa fé. Mas sempre lembrando que temos limitações e precisamos de auxílio, seja de livros ou materiais complementares, seja de pessoas que foram verdadeiramente preparadas para isso. A Bíblia por si só não se basta. Nem tudo que está escrito lá tem uma interpretação literal e muitas heresias são ensinadas com base em passagens ou versículos isolados do seu contexto. Por isso, devemos ficar atentas(os) e buscar sempre mais, questionar, pesquisar em outras fontes, mas também aprender a desenvolver um certo senso crítico para avaliar quem está ensinando (quais suas intenções, de que lugar está falando, se realmente tem qualificação para ensinar…). E, claro, compartilhar o conhecimento, para ajudar a desfazer equívocos e interpretações errôneas.

A própria Bíblia nos adverte sobre os falsos profetas em várias passagens, como Mt 7:15-20, Rm 16:17-18, 1 Jo 4:1 e Mc 13:22-23. Mas também nos dá uma chave para identificá-los: “Vocês os reconhecerão por seus frutos” (Mt. 7:16). Não é fácil, mas é um exercício que deve ser feito continuamente.

1 Comentário

  1. Margarida disse:

    Amei esse artigo. E concordo com tudo o que disse. O que percebi é que, além de conhecimento, no sentido de se ter estudo, ter um vocabulário amplo, de se conhecer a origem de uma palavra ou termo, ou seja sua etimologia, você tem que entender o contexto da época, contexto cultural, economico e social para compreender melhor a bíblia, e seria bom também, além de entender o contexto histórico, que todos pudessem ler o manuscrito original, conhecer a língua mãe que originou o texto, porque as pessoas alteram certas palavras ou expressões nos consílios o que pra eles é “dúbio” ou deixa margem para “outros entendimentos”. Ou seja: Querem divulgar somente o que favorecem a eles como líder ou o que favorecem as suas ideias…

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