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“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”

Esta frase dita por Jesus no momento da agonia da crucificação é de uma profundidade singular e, na minha opinião, a passagem mais emocionante da Bíblia. Neste domingo de Páscoa, vale a pena relembrar a riqueza deste momento que tanto nos ensina.

Ele, que era rei, o Filho de Deus e Salvador da humanidade, se permitiu ser flagrado em sua fraqueza, revelando sua dimensão humana de forma muito clara e transparente por meio de algo que todos nós conhecemos bem: o sofrimento. Jesus era, antes de tudo, um ser humano. E, como tal, estava exposto aos mesmos sentimentos que nos acomete. Diante da injustiça, da traição, da falsa acusação, da omissão das autoridades, da manipulação de uma massa para alcançar interesses escusos, da tortura e da morte iminente, Ele não se conteve e fez o que todos nós fazemos no momento do desespero: olhou pro alto, clamou aos céus, mostrou-se frágil e questionou a Deus – por quê?

Nas situações em que estamos totalmente impotentes, em que não há saída a não ser por uma intervenção divina, quem de nós não grita por Deus, não cobra a Sua presença e até mesmo não questiona a Sua aparente falta de providência? Não quero dizer, com isso, que Deus tem que ser nosso servo e atender nosso clamor da forma que queremos. Estou apenas pontuando que, na caminhada cristã, há momentos em que não temos mais nada a fazer por nós mesmos e a nossa condição humana e limitada nos leva a cobrar de uma instância superior, que cremos que pode operar o impossível. Se nós, pobres mortais, miseráveis, cegos e nus fazemos isso, quem dirá Jesus, o Filho que cumpriu todo propósito divino aqui na Terra?

Esse clamor de Jesus é cheio de significados. Significa que Ele sofreu, foi injustiçado, humilhado e castigado até as últimas consequências, logo, em matéria de sofrimento, Ele é capaz de entender toda dor que sentimos. Significa que Ele se colocou nas mãos do Pai, admitindo sua fraqueza e dependência enquanto homem. Significa que Ele, assim como nós, também esperou um milagre até o último segundo (que não veio, como muitas vezes acontece conosco, porque os desígnios de Deus são insondáveis). Significa intimidade com Deus a ponto de cobrar sua “ausência”. Significa a limitação humana por não poder se salvar e por não entender que Deus não se ausentou – pois na hora em que corta na carne, o corpo não raciocina, apenas sente e grita. O instinto de sobrevivência fala mais alto que qualquer pensamento lógico e teológico: é a nossa humanidade exigindo a concretização do que cremos, ainda que não tenhamos moral alguma para exigir nada de Deus (o que não era o caso de Jesus).

O sofrimento de Cristo na cruz e o seu clamor pouco antes de morrer nos mostram o quanto Ele foi solidário conosco no sofrimento, mas sobretudo nos ensinam sobre uma confiança inabalável no Pai. Quando Jesus pergunta “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”, Ele está, surpreendentemente, citando o Salmo 22, que fala da confiança do salmista na ação de Deus. Há um questionamento, sim, um pedido desesperado para que Deus não demore de agir, mas há o reconhecimento de que Ele não desampara os seus (versos 4-5, 24) e a reafirmação convicta de que “Tu és o meu Deus desde o ventre da minha mãe” (verso 10).

Portanto, na hora da dor, do sofrimento e do desespero, na hora em que a cabeça parar de raciocinar e a carne começar a gritar, lembre de quem também passou por isso, mas confiou sua vida a Deus. Por mais que tenhamos inteligência para entender várias coisas, os planos de Deus são insondáveis para nós porque, como ensinou Paulo, o nosso entendimento aqui é parcial e somente na eternidade conseguiremos entender por completo (1 Co 13:9). “Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, nem jamais o coração do homem percebeu as coisas maravilhosas que Deus preparou para aqueles que amam o Senhor” (1 Co 2:9).

1 Comentário

  1. Christina disse:

    Que texto lindo, um bálsamo para uma alma aflita!

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