Pesquisa: Pastorado Feminino (parte 2)
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Existe muita celeuma em torno desse assunto e o lado que prevalece nas igrejas ainda é aquele que não permite que as mulheres sejam consagradas como pastoras. A argumentação principal se baseia em 1 Tm 2:11-15, onde Paulo afirma que a mulher deve aprender em silêncio, com submissão, e que não deve ensinar nem exercer autoridade sobre o homem. No entanto, sabemos que não dá para fazer somente uma leitura literal da Bíblia, temos que buscar entender o contexto e, muitas vezes, até recorrer ao significado original de certas palavras. Em minhas pesquisas, encontrei duas diferentes explicações para essa orientação de Paulo, que servem para contra-argumentar os que tentam impedir o pastorado feminino.

1ª Versão: uma orientação circunstancial

Quando a carta a Timóteo foi escrita, a igreja em Éfeso atravessava uma fase conturbada. Os costumes dessa época eram extremamente machistas e as mulheres não tinham autonomia nem valor na sociedade, não eram consideradas capazes de aprender nem podiam participar de discussões. No entanto, dentro da igreja cristã se pregava a liberdade em Cristo e lá elas eram tratadas com respeito, tinham a oportunidade de aprender a palavra de Deus e podiam participar das discussões com os demais irmãos de fé. Nesse contexto, começaram a aparecer falsos mestres ensinando doutrinas erradas. Eles receberam o apoio de muitas mulheres que, deslumbradas com a liberdade que tinham naquele espaço, não só incentivavam a disseminação dessas falsas doutrinas como também tumultuavam os cultos, gritando e impedindo que os pregadores falassem. Alguns estudiosos, portanto, acreditam que Paulo fez a recomendação que consta em 1 Tm 2:11-15 para sanar esse problema que estava acontecendo com frequência na igreja em Éfeso.

Segundo o mestre em teologia Daniel Torgan, o termo grego que foi traduzido para o português como “silêncio” (verso 11) é hesuchia, o mesmo termo que aparece em 1 Tm 2:2 e que lá é traduzido por “tranquila e mansa”. Ele então explica que

“vários comentaristas demonstram ser essa uma tradução incorreta [a tradução para a palavra ‘silêncio’], principalmente se aplicada ao contexto de Éfeso. […] uma tradução mais fiel seria dizer que a mulher deve permanecer ‘num comportamento tranquilo’ no decorrer das reuniões.” (TORGAN, 2016:73).

Essa explicação, juntamente com o conhecimento do contexto em que a carta foi escrita, nos faz ver um novo sentido na orientação de Paulo: na verdade, ele pedia que as mulheres ficassem calmas e tranquilas nos cultos, a fim de cessar a confusão que algumas delas faziam e tentar pôr um fim na propagação das falsas doutrinas. Portanto, ele não mandou que ficassem caladas.

De forma análoga, quando Paulo afirma em 1 Tm 2:12 que a mulher não deve ensinar nem exercer autoridade sobre o homem é justamente com o fim de combater as heresias, já que várias delas estavam apoiando os falsos mestres e tentando impor suas convicções erradas na base do tumulto e do grito. Logo, essa foi uma orientação dada para uma igreja específica, num determinado período, para resolver um determinado problema. Até porque o próprio Paulo, na primeira carta aos Coríntios, faz referência a mulheres que profetizam (1 Co 11:5). Seria uma contradição dele? Não, essa era uma prática: as mulheres participavam tanto quanto os homens da vida das igrejas. Éfeso, portanto, era uma exceção, apesar de atualmente muitos líderes quererem transformá-la na regra.

2ª Versão: uma interpolação

Existe uma corrente de estudiosos que defende que, após a morte de Paulo, os discípulos paulinos fizeram interpolações em suas cartas, ou seja, acrescentaram alguns trechos, com o simples objetivo de alinhar o conteúdo com o pensamento dominante da época.

A teologia de Paulo era considerada muito libertária. Ao afirmar em Gl 3:28 que não há judeu nem grego, servo nem livre, macho nem fêmea e que todos somos um em Cristo, ele acabou com as hierarquias que predominavam naquela sociedade e colocou todos num mesmo patamar, o que incomodou os privilegiados. Todos os ensinamentos de Paulo seguiam essa linha e ele causou polêmica ao pregar que a salvação não vinha do cumprimento da Lei, mas da fé em Cristo, mexendo com a vaidade de muitos líderes religiosos. Logo, Paulo foi um homem que desafiou os privilégios dos homens sobre as mulheres, dos senhores sobre os servos e das autoridades religiosas, trazendo uma mensagem considerada subversiva.

O doutor em Ciência da religião Joel Antônio Ferreira explica neste artigo que, depois que Paulo morreu, seus discípulos reagiram aos avanços que ele trouxe para as igrejas acrescentando o que o autor chama de “códigos domésticos” nas cartas escritas durante a vida de Paulo (Coríntios e Efésios): Col 3:18 a Col 4:1, Ef 5:21 a Ef: 6:9. Esses códigos domésticos são justamente aqueles que falam sobre a submissão da mulher ao marido e reafirmam a autoridade do homem na casa sobre a esposa, os filhos e os servos.

É preciso relembrar que os “códigos domésticos” de Efésios e Colossenses, bem como as duas epístolas a Timóteo e Tito foram frutos de um rumo patriarcal que foi desenvolvido pela “escola paulina” após sua morte, ou seja, o projeto de Paulo sobre a liberdade foi modificado reacionariamente. O interesse dos códigos domésticos tinha uma direção certa: eram as mulheres e os escravos, que com sua emancipação, ao menos em nível eclesial, ameaçavam a estabilidade das igrejas paulinas. (FERREIRA, 2015:113)

Do mesmo modo, na primeira carta aos Coríntios (livro escrito pelo próprio Paulo), capítulo 14, os versos 33b a 35 também foram inseridos de forma abrupta, interrompendo um pensamento que estava sendo desenvolvido, para dizer que as mulheres deveriam ficar caladas nas igrejas, não participar de discussões e tirar possíveis dúvidas com os maridos em casa. Sobre isso, Ferreira cita outro estudioso, Richard Horsley, para comentar:

Estes versículos fizeram parte de uma interpolação que cristãos conservadores e da linha patriarcalista colocaram, neste lugar, como se fossem de Paulo, após sua morte. O texto, como está aqui, é misógino: totalmente contra o feitio de Paulo. (HORSLEY apud FERREIRA, 2015:114)

Saber disso não é, no mínimo, surpreendente? Ver que muitas igrejas hoje, por ignorância ou manipulação, se baseiam em versículos que não foram escritos por Paulo para controlar a mulher e impedir que ela exerça funções de liderança nos faz perceber que não mudamos muito de lá pra cá: continuamos repetindo os mesmos erros, contorcendo o Evangelho para que ele concorde com o nosso egoísmo, nossa mesquinhez e nossa necessidade de nos sobressair às custas da diminuição dos outros. Ainda bem que o Evangelho não é isso!

A palavra de Deus coloca homens e mulheres no mesmo patamar e Deus usa quem Ele quer, independente de cor, sexo, nacionalidade, idade ou qualquer outra diferenciação social. Para o Pai, somos todos iguais!

Por isso, respondendo à pergunta do título, SIM, nós mulheres podemos ser pastoras, missionárias, profetizas ou qualquer outra coisa que Deus nos capacite e nos chame para ser. Permita que Ele te mostre o que quer para a sua a vida e siga. Não há coisa melhor do que atender ao chamado dEle!

Para saber mais sobre o assunto, sugiro a leitura dos artigos citados neste texto, que estão disponíveis aqui e aqui.

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