Quando os ombros suportam o mundo
11 de setembro de 2017
Você não casou pra ser babá!
2 de outubro de 2017

Há pouco tempo ouvi uma amiga comentar que todas nós temos um pouco de Marta. Esse comentário dela me fez lembrar uma inquietação que eu carreguei por muitos anos, pois nunca consegui aceitar a história de Marta e Maria da forma como as igrejas e as pessoas costumam contar. Foi a teologia feminista que me ajudou a entendê-la melhor.

A Bíblia narra, em Lucas 10:38-42, que ao receber a visita de Jesus, Marta se preocupou com os serviços da casa, enquanto Maria preferiu sentar e ouvir o que Ele tinha pra falar. Incomodada por estar trabalhando sozinha, Marta foi até Jesus para que Ele pedisse a Maria que a ajudasse, ao que Jesus respondeu: “Marta, Marta, você se encontra tão preocupada com todos esses serviços caseiros! Há realmente apenas uma coisa necessária com que devemos nos preocupar. E Maria descobriu o que é, e ninguém pode tirar isso dela!” (Lc 10:41-42).

A “versão oficial” sobre esse texto, que costuma ser pregada nas igrejas e disseminada entre cristãos e não cristãos, fala de uma Marta “reclamona” e até um pouco burra, por estar recebendo em sua casa a pessoa de Jesus e não dar a devida atenção. Já ouvi interpretações que diziam que Marta não foi nada hospitaleira, pois deixou claro para o visitante que estava atarefada com sua visita. Outras a chamam de preguiçosa, por ela não ter aceitado trabalhar sozinha e ter se queixado. Maria, por sua vez, é sempre exaltada pela sua sensibilidade de parar pra ouvir Jesus, reconhecendo a importância dEle diante de todas as outras coisas. Por fim, somos ensinadas a crer que Jesus criticou e repreendeu Marta pela sua postura, mostrando-lhe o quanto estava sendo insensata.

Essa forma de interpretar a história de Marta e Maria sempre me deixou em dúvida sobre o que realmente aconteceu ali. O fato é que havia chegado um visitante ilustre na casa delas e ambas queriam agradá-Lo. Porém, todas nós sabemos que receber visitas exige uma certa preparação, o que culturalmente foi estabelecido que fica sob a responsabilidade da mulher. Limpar a casa, arrumar a cama e preparar uma boa refeição são preceitos básicos para receber bem os visitantes e geralmente quem cuida disso somos nós, mulheres.

Se ainda é assim nos dias de hoje, imaginem na época de Jesus, quando o machismo reinava absoluto. Naquele tempo as mulheres não tinham valor algum e sua existência se resumia a procriar e cuidar da família e da casa. Elas não eram contabilizadas nos censos, seu testemunho não tinha credibilidade alguma e, para serem toleradas socialmente, precisavam ter um marido ou filhos homens que a validassem. Analisando esse cenário, fica fácil perceber que, diante de uma visita, era nada mais que obrigação da mulher cuidar dos serviços domésticos para bem recebê-la.

Portanto, o que Marta fez foi exatamente aquilo que era esperado dela. Alguém tinha que providenciar a estrutura para receber Jesus e esse alguém era, necessariamente, uma mulher. Não era permitido às mulheres desfrutar de momentos reflexivos ou participar das rodas de conversa e discussões – esse era um espaço reservado apenas aos homens. O espaço das mulheres era o lar e as únicas atividades que lhes cabiam eram as domésticas.

Logo, aos olhos daquela sociedade, Maria não foi sensata – ela foi transgressora. Para eles, Marta foi quem agiu corretamente, reconhecendo seu lugar e fazendo o que lhe era devido. Quando Marta se queixou a Jesus, não era porque estava com inveja de Maria ou porque era preguiçosa – ela se queixou porque sabia que Maria estava transgredindo um costume. E a chamou de volta talvez por medo de que a irmã se tornasse um incômodo pra Jesus ou talvez por achar que estava fazendo a coisa certa, numa tentativa de agradar o visitante. Marta foi a típica mulher obediente.

O surpreendente dessa história foi justamente o fato de Jesus validar a atitude de Maria. Ele deu a ela o direito de participar de um momento que era exclusivamente masculino e explicitou isso verbalmente ao responder à queixa de Marta. Sua resposta não foi uma repreensão, como se costuma ensinar, mas um convite à transgressão das regras. Jesus libertou Marta de uma convenção social que a excluía da melhor parte, que era estar ao lado dEle e ouví-Lo. Com isso, Jesus mais uma vez mostrou o quanto valorizava a vida da mulher, colocando-a acima das leis e costumes. Ele permitiu que Maria permanecesse ao seu lado e convidou Marta a fazer o mesmo, colocando-as em pé de igualdade com os homens que o cercavam.

É engraçado como a versão oficial dessa história é contada e recontada sem o seu devido contexto, usando, para interpretá-la, a nossa lógica atual, como se ela fosse a mesma usada na época em que o fato aconteceu. Hoje nós conseguimos enxergar que Maria escolheu a melhor parte, mas naquela época o único que enxergou isso foi Jesus, contrariando o pensamento dominante. Mas esse detalhe não costuma ser revelado por aí.

É engraçado também que essa história é usada como uma cobrança à nós, mulheres: “priorize as coisas de Deus ao invés de se preocupar com serviços menores”. Mas acontece que, na prática, sempre somos cobradas a fazer esses “serviços menores”. Em quantos eventos promovidos pelas igrejas as mulheres podem realmente desfrutar da Palavra sem se preocupar com a limpeza do local, a refeição que irá acontecer depois, a cantina, a recepção dos convidados e muitos outros detalhes que nós conhecemos muito bem? Em quantos cultos na nossa casa a gente pode cultuar de fato, sem se preocupar com a acomodação dos irmãos ali presentes (a água, a cadeira pra sentar, o local pra guardar a bolsa…)? É fácil cobrar que a gente se desligue dessas pequenas obrigações, mas dar as condições para isso acontecer é que é difícil. Quantos homens topam dividir conosco essas tarefas para nos tirar essa sobrecarga?

O exemplo de Marta serve para nos lembrar que somos libertas das convenções sociais e que temos os mesmos direitos dos homens à reflexão, à discussão, ao “ócio criativo”, à participação social – seja em casa, na igreja, no trabalho ou em qualquer outro lugar. Nós também queremos (e podemos) desfrutar de tudo isso sem ter que carregar sozinhas as obrigações que nos foram outorgadas por quem não as quer fazer. Somos todos iguais, em deveres e direitos. Obrigada, Jesus, por ter mostrado esse caminho a Marta!

2 Comentários

  1. Margarida, obrigada pelo seu comentário! Meu conselho é: não permita que ninguém, a não ser o direcionamento do Espírito Santo, determine o que você deve fazer da sua vida. Seja autora da sua própria história. Deus nos deu inteligência e nos dignifica a cada dia, portanto, use seus dons para serví-Lo da forma como achar mais correta! Esqueça os dogmas dos homens, os preconceitos, as falsas obrigações… foi para a liberdade que Cristo nos libertou, por isso, desfrute dela sem medo! abçs!

  2. Margarida disse:

    “Quantos homens topam dividir conosco essas tarefas para nos tirar essa sobrecarga?” Eis a questão!

    Porque muitos líderes cobram prioridade ao reino de Deus, mas na prática a conversa é outra. As mulheres tem que ficar na cozinha e os homens conversando na sala.

    Toda vez que eu peço ajuda a meu marido com relação as coisas do lar na frente dos seus pais os mesmos me olham torto, e o mesmo acontece com seus irmãos e minha concunhada. Principalmente se eu ainda estiver à mesa almoçando, quando meu esposo levanta primeiro e pega meu prato pra colocar os restos do nosso almoço no lixo, ou quando em minha casa peço a ele pra lavar alguns pratos que ficaram na pia ou colocar umas roupas na máquina por eu estar cansada e ter um filho pequeno em casa, por ter tido um dia exaustivo, então percebo o olhar de repreensão.

    Mesmo de MULHERES sofro esse preconceito! E vou te dizer elas NÃO são diferentes de mim pois também reclamam que não têm ajuda em casa, mas pra não “pegar mau” na frente de outras pessoas dão uma de “subserviente”…

    Meu esposo me ajuda porque antes de começarmos a nossa relação eu disse a ele como penso e como sou, que não concordo com essa conversa de que apenas mulher é que faz trabalho doméstico, que homem é quem trabalha fora, que homem é que tem prioridade em tudo e ele mesmo assim me aceitou como sou. Tive sérios problemas com minha sogra por ela implicar porque eu ganhava mais do que meu esposo. Ela não parecia desejar que o filho melhorasse de vida e tivesse um salário maior. Do jeito que ela se expressava parecia incomodada com meu emprego e tanto fez que me convenceu a sair do meu trabalho quando meu filho nasceu!…

    E depois a mesma me disse como uma pessoa como eu, tão independente e determinada estava nessa situação, sem emprego, sendo que FOI ELA quem me convenceu a sair do meu trabalho! Isso me causou revolta! Estou percebendo o quanto a sociedade, de modo geral, não nos ajuda, só nos cobra, nos condena, é injusta conosco!

    Não generalizando, porque sei que nem todos são assim. O mesmo acontece com certos líderes espirituais por causa de suas atitudes machistas entram em nossa vida pra diminuir a gente. Tive uma experiência assim com um pastor que me disse que uma mulher não pode ser Pastora, pois não é biblico, por eu gostar de Teologia e ter dito a ele que tinha o interesse de fazer a faculdade de Teologia, quando eu terminasse a outra faculdade que faço. Fui interrompida por ele muitas vezes ao falar. Um dia fui perguntar porque eu não poderia ser pastora ele começou alterar o tom de voz para que eu me calasse. Ou seja, ele não tinha argumento e por isso começou a se alterar.
    Não é esse tipo de líder que quero TER, nem é esse o tipo de tratamento que quero receber de ninguém e graças ao Senhor Jesus ele não é mais o meu pastor.

    Claro que outro pastor agiu diferente comigo, percebeu que tinha trauma da liderança anterior, num trabalho de estudo que fiz sobre personalidade na igreja que estou frequentando e me encorajou a continuar e a não desistir de meus sonhos, mas essa não é a atitude da maioria dos homens e não é a mesma forma de pensa de outros pastores dessa mesma igreja.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *