“Você assusta os homens!”
5 de abril de 2018
Por quanto você vende a sua alma?
18 de abril de 2018

 

ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS!

 

Há uns anos “descobri” Maria Madalena na Bíblia e de lá pra cá tenho me encantado cada vez mais com essa personagem forte e enigmática da história de Jesus. Digo que “descobri” porque somos ensinadas a desenvolver um olhar viciado na leitura bíblica, um olhar que deixa passar despercebida a presença das mulheres nas narrativas e a importância delas. Mas desde que enxerguei a figura de Maria Madalena, tenho procurado saber mais sobre ela e só tenho me surpreendido.

Ontem fui ao cinema e assisti ao filme Maria Madalena, de Garth Davis. Não sou especialista em filmes nem em teologia, não tenho o olhar acurado dos críticos, mas gostaria de deixar aqui as minhas impressões sobre este longa que tem o mérito de destacar, sem apelo, a história dessa mulher que é, no mínimo, admirável.

Com belas imagens do início ao fim, assemelhando-se a uma poesia filmada, o filme começa retratando as angústias de uma mulher cujo projeto de vida não era o casamento, numa época em que essa era a sua única razão de existir. No entanto, em nenhum momento há insinuações de uma vida promíscua, desmistificando a ideia de que Maria Madalena era uma prostituta (ideia essa ainda muito disseminada). O filme acerta quando deixa subentendido que os sete demônios da personagem, citados em Lc 8:2, lhes foram atribuídos em função do seu comportamento atípico para uma mulher daqueles dias. Pode até não ser verdade (talvez ela fosse, realmente, uma mulher possessa), mas é bem possível que o motivo dela ser considerada endemoniada tenha sido a sua postura “desviante” dos padrões femininos da época.

Ao longo do filme podemos acompanhar as sucessivas atitudes de coragem de Maria Madalena, desde a sua decisão de ir contra a família para seguir Jesus até a sua determinação de acompanhá-lo até o fim em seu calvário, recebendo dEle, posteriormente, a incumbência de anunciar a ressurreição numa época em que o testemunho de uma mulher nada valia. Ao final do longa, conseguimos compreender um pouco da importância dessa mulher na história do cristianismo e saímos de lá com outra visão acerca da relação de Jesus com as mulheres, o que por si só já faz valer a pena a ida ao cinema.

No entanto, na minha opinião, o filme comete alguns deslizes. O primeiro deles é o elenco branco, que chama atenção logo de cara. Depois de tantas discussões sobre a aparência de Jesus e dos povos que com Ele tiveram contato, acho que já está mais do que entendido que não se tratavam de pessoas brancas. Continuar batendo nessa tecla é um pouco burro, mas também uma demonstração de que a indústria cinematográfica não quer abrir mão do seu padrão de beleza europeia. Para um filme que traz um discurso tão revolucionário sobre o papel de Maria Madalena, insistir no embranquecimento do elenco é um grande paradoxo e incomoda.

O segundo deslize é a forma caricata como Pedro e Judas são retratados. Pedro é o machista de carteirinha, que o tempo todo rejeita e condena a presença de Maria Madalena. É claro que ela teve que enfrentar o machismo de sua época e certamente houve resistência dos discípulos em aceitar mulheres entre eles, mas quando esse machismo é personificado em Pedro acaba tornando-o uma espécie de vilão, quando na verdade essa mentalidade era estrutural e compartilhada por quase todos os homens daquele momento histórico. Já Judas é retratado como o discípulo ingênuo, que recebe Maria Madalena de bom grado, mas cuja ansiedade o leva à traição de Jesus. É certo que a Bíblia não dá detalhes sobre a personalidade de Judas e existem vários questionamentos sobre os motivos que o levaram a trair Jesus, mas é difícil aceitar que a traição tenha acontecido por ingenuidade e pela ansiedade de ver o Reino chegar. Pode ser até que eu esteja enganada, mas é uma versão um tanto forçada.

Além da caricatura de Pedro e Judas, em vários momentos percebe-se que não há rigor em seguir a narrativa bíblica – os fatos são mostrados como um quebra-cabeças embaralhado, com falas de Jesus usadas em momentos distintos do que conta a Bíblia. E, diferente do que mostra o filme, Maria Madalena não era a única mulher que seguia Jesus (Lucas 8 traz essa noção e menciona algumas outras). Mas é compreensível que tudo isso faça parte da “licença poética” do cinema, da liberdade de criação da narrativa cinematográfica.

Outra coisa que vale destacar é que, em alguns momentos, tive a impressão de que Maria Madalena era retratada como uma “discípula preferida”, o que também acredito que não tenha sido o caso. Acho que Jesus tratava ela e as demais mulheres com a mesma dignidade com que tratava os homens – nem mais, nem menos, o que já era revolucionário para a época.

Por fim, achei que o filme pecou muito ao deixar de mostrar aquela que tinha tudo pra ser a cena mais bonita e emocionante do longa: o momento em que Maria Madalena encontra Jesus ressuscitado. Pra mim, uma ausência inadmissível.

Apesar desses deslizes (na minha percepção, que fique bem claro), Maria Madalena é um filme muito bom, que merece ser visto no cinema. Seu valor está não só no fato de colocar em evidência uma história tão rica, mas apagada pelo patriarcalismo da religião, como também nas reflexões que ele provoca, no novo olhar sobre a velha e conhecida história de Jesus, fazendo o espectador repensar o lugar e a importância da mulher para o cristianismo. É um filme de desconstrução, que nos leva a perceber que Maria Madalena estava muito mais próxima de uma mulher vanguardista do que de uma prostituta sem valor, como costumam ensinar.

E você, já viu o filme? O que achou? Compartilhe com a gente as suas impressões!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *